Crítica | The Walking Dead – 10X11: Morning Star

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Espera. A gente vai morrer hoje?

A clássica “calmaria” antes da tempestade, o 11° episódio da 10ª temporada de The Walking Dead, intitulado Morning Star, caracteriza-se como uma preparação emocional para um grande conflito a vir: A Batalha de Hilltop. Talvez em outros momentos, até mesmo da própria temporada, ele se enquadraria como um episódio de “enchimento de linguiça”, e de certa forma é, no sentido de que o momento decisivo ficou todo empurrado para o seguinte. Contudo, isso é desmistificado na estrutura da série, que nos acostumou em entregar esses momentos nas meiucas ou nos finais dos 16 episódios, e não no meio entre ele. Sendo assim, a construção por si só já se permite ser genuína, ainda mais com a excelente sensibilidade do Michael Satrazemis, responsável pelo também ótimo Squeeze, que parece entender bem a essência do material na sua origem, que é a fragilidade humana e psicológica diante de situações de grande risco, algo já comentado por mim em outros textos, que se perdeu na série e pouco a pouco parece estar sendo retomado, mesmo que em momentos soltos. 

O grande problema dessa aposta é não ter o retorno visual da ameaça, para ela ser de fato sentida, algo decorrente da péssima distribuição de verba que a série tem nos últimos anos. O que inclusive valoriza ainda mais esse episódio, que mesmo nas coxas visuais da produção, e nítidos desvios de escala, apresenta uma batalha noturna mais inteligível do que A Longa Noite de Game of Thrones (apesar da diferença orçamentária gritante da produção), com um senso de estratégia coeso e de risco plenamente palpável graças à construção anterior pegar um âmbito universal.  Ao menos, cada personagem apresenta uma cena que levanta uma motivação de querer continuar lutando ou um respaldo emotivo que o vulnerabiliza, uma fragilidade de fora pra dentro bem explícita, amarrando as pontas soltas de desenvolvimentos anteriores e acendendo uma faísca consequencial do que se tem a perder com seu possível futuro sacrifício. O tabuleiro organizado é bem amplo e com pesos parecidos da balança de risco. Indo personagem a personagem, acho que os grandes destaques ficam para Daryl, Ezequiel e Eugene, e os demais circulam entre eles de forma curiosamente pincelada: Carol, Lydia, Rosita, dentre outros. 

Começando pelo brucutu que dificilmente irá morrer pela escassez de um chamariz protagonístico, é no mínimo surpreendente vê-lo em algumas cenas de interação mais humana, como a nova jaqueta que ele recebe de Judith ou sua mais significativa cena com Ezequiel na série, abominando quaisquer pensamentos toscos de que eles poderiam ter uma intriga de triângulo amoroso ciumento entre ele, Carol e Ezequiel. Na cena final antes da batalha, um diálogo entre Carol e Daryl meio que põe um ponto definitivo sobre a pendência anterior, quando mesmo estando chateado pelo que ela fez na caverna, ele admite que nunca sentirá ódio dela, cena comovente e bem em clima de despedida, algo suspeito, mas no mínimo, simbolicamente importante. Só destaco negativamente a rasa motivação dele e de Lydia terem saído de lá e não ido atrás de Connie e Magna, infelizmente resulta em outro problema com o elenco que vai precisar de uma folga, e com isso, vai sair da série, inclusive vale a menção a Michonne que até agora não deu a cara a tapa, desde a mid-season, e já está confirmada sua saída nessa temporada (uma pena né? Porque seria bom se ela simplesmente morresse sem essa informação prévia).

O Eugene recebe outra atenção bem comungada desses pré-arcos e também outras respostas mais definitivas sobre sua situação “amorosa”. A menina do rádio parece ter sido feita sob medida a conseguir contornar a completa falta de noção de desenhar Gabriel, Rosita, Siddiq e Eugene como um quadrângulo de intrigas românticas. O roteiro já estabelece que a comunicação ali avançou de nível e logo em breve haverá proposta para ambos os lados se conhecerem no pessoal (momento oportuno para já estabelecer um novo arco). Rosita então chega e meio que “estraga os planos”, descobrindo e se comunicando no rádio fora de hora, pois é, logo a Rosita de novo não colaborando com seu amigo Eugene. Felizmente, pouco tempo depois, os dois dialogam em uma cena bem estranha a princípio, mas que funciona pela praticidade de deslocar cada personagem a sua prateleira, sem retirar a ótima interação vinda desde quando surgiram na 5ª temporada. O “quase beijo” dos dois é o pontapé para Eugene sair do armário, cantar para a “amada” e restabelecer a comunicação, plantando a motivação do personagem que representa todos ali em pequenos níveis, tanto que o cru de seu canto é entrecortado com os preparativos físicos da batalha, mostrando todo mundo bastante inspirado para ir ao “tudo ou nada” contra os sussurradores.

Aliás, o episódio reserva um tempo considerável com o núcleo deles, a fim de mostrar seu lado de estratégia e o possível divisor de águas que Negan pode ser. Ele tem a confiança de Alfa, mas claramente o personagem se sente desconfortável frente a ela e tenta contornar as estratégias de matança para um controle do povo, bem como ele fazia antes com os “salvadores”. O estopim disso não ser exatamente interpretado como deveria por Alfa é sinônimo de que ele possivelmente será uma peça fundamental de virada aí, junto a Ezequiel. Toda a temporada, inclusive, já vem cantando a bola de seu câncer, fora que nas HQs, o personagem vai embora nesse arco (na parte das estacas para falar a verdade, mas isso já o coloca no território de risco). As pistas para ele foram maiores: a cena com Carol (inclusive se parar o frame enquanto ele está deitado, é possível perceber a simbologia com Jesus na posição da cruz, será que ele vai se sacrificar?), o fato de ele ser o responsável por salvar as crianças, o entendimento com o Daryl, enfim, tudo leva a crer, mas mais do que isso, todos esses momentos conversam com a humanização geral que o roteiro busca.

A única ressalva para esses pontos emotivos está no arco de Aaron, Gama e o desejo de ver seu sobrinho. O conflito colocado é interessante, mas pareceu incompleto e sem intenção.  Faltou uma cena ali de resolução mais objetiva, seja esperançosa, que faria mais sentido com a proposta de contraste para a batalha, ou rejeitora, que ficou mal sublinhado na última tentativa de Gama em falar com a criança. Enfim, tirando isso, como dito, até mesmo a parte de batalha por mais simples que seja tecnicamente funciona muito bem na preparação climática, puxando aquela sempre bem-vinda atmosfera de terror noturno neblinoso completamente compreensível em tela. Os planos de contenção foram bem organizados, mas ainda assim superados pela vilã que orquestrou uma encurralada grotesca envolvendo o fogo e os zumbis, com direito àquele velho cliffhanger raiz de vários personagens juntos em uma situação real de risco, sem muita perspectiva de saírem dali para acabar o episódio. Por enquanto, a segunda metade vem sendo bem mais interessante que a primeira, e seguindo uma boa crescente que precisa se manter ao próximo, principalmente diante do gancho colocado. Seria uma sacanagem (olha que The Walking Dead já fez isso outras vezes) pular de núcleo e só deixar a resposta para esse nos momentos finais da temporada. É torcer para que não e já no próximo capítulo tudo se resolva com consequências importantes e num nível de intensidade satisfatório, como vem sendo nos últimos três episódios.

The Walking Dead – 10X11: Morning Star — EUA, 08 de março de 2020
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Vivian Tse & Julia Ruchman
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.