Crítica | The Walking Dead – 10X15: The Tower

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Eu não posso prometer nada. Porque não sei o que vai acontecer.

De acordo com o prolongamento excessivo de tramas dos 3 antecessores capítulos da temporada, já estava claro que tudo se resolveria somente no último episódio, que acumulou tanta coisa a se resolver que não teve tempo nem de ser finalizado a tempo de fechar a temporada na data prevista, considerando a situação do corona vírus. Então, diante de tais circunstâncias, ao menos a enrolação da vez veio com acompanhamentos dramáticos minimamente efetivos e uma execução não tão preguiçosa, tentando extrair o máximo de conteúdo dali, mesmo que oficialmente os avanços da história tenham sido os mínimos possíveis. 

Indo núcleo a núcleo, a primeira observação pertinente a se fazer é a respeito da “Princesa”. No texto do episódio passado, mencionei que ela poderia ser a Stephanie, porque era uma possibilidade remotamente possível, já que a série não segue exatamente os passos das HQ’s e muitas vezes mistura acontecimentos originais e adaptados. De acordo com a construção que vinha sendo a temporada até então, o público médio ou aqueles (como eu) que não acompanham os spoilers dos outros episódios poderiam imaginar, pela progressão narrativa, que aquela cidade seria o ponto de encontro da personagem do rádio com Eugene, logo, a “desconhecida” (dos não conhecedores dos quadrinhos) poderia ser quem o trio estava procurando. A cena final daquele episódio não era tão clara como primeira cena desse, que realmente a estabelece como uma nova personagem e uma barreira de percurso da verdadeira missão.

Continuando a olhar por essa perspectiva imediatista, a interrupção do objetivo para a apresentação de uma nova personagem perto do episódio mais decisivo da temporada é, no papel, um artifício absurdamente apelativo de enrolação. Inclusive, essa introdução não fundamenta qualquer projeção de uma futura importância da figura para os desdobramentos principais, ficando centrada numa aventurinha meio “inútil” e tradicional da busca por recursos que na prática eles nem precisavam, poderiam ir andando rumo ao ponto de encontro e não tinham quaisquer motivos para confiar nela mais do que nas próprias pernas, que diga-se de passagem, foram bem rápidas para sair do território de Alexandria e avistar uma nova cidade nunca antes vista. Contudo, surpreendentemente o núcleo funciona, principalmente por conta da performance de Paola Lázaro, carismática e excêntrica nos maneirismos, uma personificação devidamente bem-vinda num contexto em que sobraram poucos personagens interessantes.

A interação dela com Ezequiel, Eugene e principalmente Yumiko os fortaleceu de alguma forma, trazendo à tona o antigo debate humanista de empatia e confiança retomado pela introdução do grupo de Magna e um pouco esquecido ao longo dos episódios seguintes, resgatado agora com um bom humor ácido genuinamente funcional da figura (a cena do campo minado foi bem divertida). Segundo a intenção de apresentar uma nova comunidade, não soa tão enrolativa a pausa para ver como os personagens lidam com ela, porque de certo modo já serve como um teste. Teoria dramática que permanece nos demais núcleos, que escolhem o recorte de prolongamento mais útil à história. Escolhe-se pular todo o campo estratégico da fuga de Alexandria com a chegada dos sussurradores para aprofundar relações específicas que ficaram pendentes. É um tipo de saída de roteiro que não incomoda tanto e deixa os problemas para outros episódios que poderiam ter mostrado tais explicações (Como o Aaron conseguiu carregar o Luke? Eles conseguiram. Como o Luke se recuperou? Recuperando-se. O Negan foi aceito? Sim. Dentre outras que ficaram subentendidas), primeira vez que a temporada usa as elipses com organização.

Quais seriam essas relações? A primeira e mais significativa é entre Negan e Lydia, que já havia tido seu micro desenvolvimento quando a pequena sussurradora não estava sendo aceita em Alexandria e via em Negan uma figura de proteção, que agora era o responsável por assassinar sua mãe. A cena de desabafo é muito forte, acompanhada de uma excelente entrega emocional de Cassady McClincy, contracenando com o sempre ótimo Jeffrey Dean Morgan, dá finalmente um peso significativo à morte que até então parecia ter sido um acontecimento comum a todo mundo, pelo menos a série deu esse feedback com dois bons nomes de elenco. A outra é entre Daryl e Judity, pós-despedida de Michonne, honestamente algo que eu nem esperava que seria tocado de novo nessa temporada, mas felizmente estava errado. 

Tem o sustento humanista, com Daryl ensinando as táticas de rastreamento para a menina e no percurso matando a sangue-frio um dos sussurradores rendidos, fazendo “Rickzinha” questionar diretamente a ele o que aconteceu com seu senso humanista, que tinha voltado quando todos estavam juntos. Em outra tocante cena de excelentes atuações, Judith desabafa e expõe um medo que representa todos os “Walkers”, até quando as pessoas com que nos importamos vão continuar nos deixando? Daryl responde que não sabe do futuro, não prometendo nada, um diálogo extremamente remetente à situação atual da série, que nem mesmo Norman Reedus está garantido na continuidade, uma mensagem subliminar dos produtores admitindo que eles não sabem exatamente o que fazer para o futuro, porque “coisas” podem acontecer. Ah, antes que me esqueça, também vale para a situação prática dos personagens, aglomerando perdas que vão tirando o lado humanista, fazendo-os quase perder a empatia sobre as mais atuais.

Existem outras interações não tão significativas, Carol ganha um diálogo com Kelly para mostrar que está arrependida, embora a outra como representante do grupo de Magna, como demonstrou a própria Magna no episódio passado, não guarda rancor dela. Foi uma cena boa, mas uma tecla já batida. Aaron e Alden perseguem Beta e os sussurradores, sendo os guias de um plano que em nenhum momento é contextualizado, um “seguro” de informações perigosas de cair em conveniência para o próximo episódio, quando a ação finalmente deve acontecer. Beta, como bom capacho, vai caindo aparentemente no plano que envolveria Ocean Side (enfim, lembrada), mas obviamente isso não duraria tanto, e por forças sobrenaturais ele consegue ser guiado ao desconfiômetro e deixa o gancho de conseguir captura da dupla (que em condições normais de temperatura e pressão não teriam chance alguma de escapar da morte iminente, porque Beta não tem nada a perder, mas duvido que isso aconteça) e chegar na torre onde os alexandrinos estavam escondidos e agora encurralados pelo boss final e seus vários “minions” zumbis.

Antes que me esqueça, houve essa elipse também, aparentemente ele conseguiu juntar não só uma nova horda como a antiga e os sussurradores desaparecidos, embora ainda seja de tamanho irregular, às vezes do tamanho de uma fileira, outras preenchendo Alexandria toda. Enfim, em vias de orçamento e principalmente tempo, já que não há uma nova data para acontecer, é para no clímax ser gigante, épica ou minimamente recompensadora. Sobre o episódio, é como dito, não teve avanços, é o episódio todo para a princesa mostrar onde estão as bicicletas, Daryl fazer uma rodagem no perímetro e Beta encontrar seus inimigos. Contudo, a execução é detalhista (lembraram até que o cachorro “Dog” do Daryl existe, o bichinho foi completamente ignorado), cuidadosa (nos planos detalhe para alcançar os sentimentos necessários das cenas) e bem dirigida (teve até plano sequência) por Julia Ruchman, preenchendo bem os espaços deixados em branco e conduzindo o terreno para o fim legítimo do arco.

The Walking Dead – 10X15: The Tower — EUA, 05 de abril de 2020
Direção: Julia Ruchman
Roteiro: Kevin Deiboldt & Julia Ruchman
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.