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Crítica | The Walking Dead – 10X17: Home Sweet Home

por Iann Jeliel
3199 views (a partir de agosto de 2020)
Home Sweet Home

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Num cenário caótico de quedas de audiência e qualidade após a oitava temporada, The Walking Dead tomou dois golpes duros na nona temporada com a perda iminente de Andrew Lincoln (Rick Grimes) e Lauren Cohan (Maggie Greene) no elenco. Lincoln precisava passar mais tempo com a família na Irlanda, e com aviso prévio (até por ser o protagonista), ganhou um episódio inteiro para a sua despedida. Já Lauren nem chegou a ter a mesma dedicatória, pois sua saída ainda dava brecha a um possível retorno no futuro, visto que a personagem não havia morrido ou parecia ter morrido nos olhos dos outros personagens, como foi o caso de Rick. Ela simplesmente abandonou o grupo por motivações genéricas – ela teve desentendimentos sérios com Michonne (Danai Gurira)… Mas quais? – porque a atriz optou por abandonar o show para dedicar sua agenda a outros projetos que via como mais promissores naquele momento, mais especificamente a série Jogo de Espiões da ABC, em que ela era protagonista. Home Sweet Home

Essa série, no entanto, foi cancelada logo em sua primeira temporada, ou seja, era só uma questão de tempo até a atriz decidir voltar para o papel de que ela nunca deveria ter cogitado sair, nem sequer dar uma pausa. Apesar do controle de danos da nona temporada ter reverberado em uma ótima temporada, a carência de personagens de peso ficou nítida nessa décima temporada, que teve uma dificuldade enorme em criar novas possibilidades à narrativa, sobrando tão poucos do grupo original com que a gente se importava (houve outras saídas importantes ainda no caminho, como a própria Michonne) para conduzi-las, tampouco conseguia sustentá-la em formato reduzido de mais desenvolvimento íntimo, buscando melhorar aqueles personagens presentes, que apesar de bons, não tinham calibre para as ambições que a série realmente tinha. Acabou que essas ambições de algum modo foram cessadas ou repensadas pela pandemia do Corona Vírus, o que na pausa da produção a forçou a tomar medidas drásticas para o futuro, anunciando seu fim na próxima temporada e deliberadamente acrescentando seis episódios extras à décima, visando organizar o tabuleiro já para direcionamentos finais.

O primeiro deles, Home Sweet Home, é descaradamente a explicação que ficou por tanto tempo guardada: por que Maggie decidiu abandonar de vez o grupo de sobreviventes em quem tanto confiava. Aposto que nem os roteiristas exatamente sabiam qual seria,  porque era um cenário de incertezas junto à necessidade de continuar avançando a história, ou seja, o retcom acabaria sendo inevitável. E por mais que tente se fazer coerente, graças a vários fatores, a missão desse episódio era muito difícil de convencer dentro da verossimilhança contínua antecessora. Por isso, repito: Lauren Cohan nunca deveria ter saído. Sua personagem poderia ter ficado escanteada, mas era necessário na temporalidade um meio que mostrasse a gravidade do conflito entre ela e Michonne que a fez se afastar do grupo (talvez até apareça dentro do aspecto filler desses seis episódios, mas ainda seria tarde) por conta da presença de Negan (Jeffrey Dean Morgan), vivo na comunidade.

Eu até acho que seja plausível a motivação, a amargura não ter diminuído nem um pingo desde o momento em que Lucille atingiu a cabeça de seu amado Gleen (Steven Yeun), e isso é perfeitamente provado na cena em que eles se encontram. A atuação de Cohan é poderosíssima, tanto que não é necessário nem um diálogo para voltar o convencimento da amargura da personagem, apenas um olhar puramente odioso. No entanto, não deixa de parecer um velho drama, por mais que a intenção seja essa, para tentar retomar a personagem no posto de importância protagonista e ainda dar o gancho para que Negan se torne ainda mais um, só que agora mocinho (ainda nesses seis capítulos, haverá um somente contando sua origem para dar ênfase a isso), ainda é uma dramática tardia, inevitavelmente diluída em peso conforme todo esse tempo. Aliás, o tempo aqui é prejudicial inclusive num aspecto geográfico, que consegue prejudicar ainda mais a compra da motivação antiga de Maggie para o agora.

A décima temporada volta a ter uma distribuição de elipses pessimamente organizada na montagem. Quer dizer que esse tempo todo Maggie estava a menos de um dia de caminhada de Alexandria, vivendo com outro grupo aleatório do qual sobrou menos de meia dúzia? Que por sinal, ela vê vários morrendo nesse episódio e reage tipo: “Whatever”. Chega a ser egoísta para uma pessoa que, como bem descreve Kelly (Angel Theory), gosta de cuidar dos outros. Ok, se pararmos para pensar, é boa essa limpa de personagens para não termos mais secundários inúteis somente para encher o elenco, mesmo assim, é difícil não perceber a tentativa forçada de redução de números somente porque não há mais recursos. É só pegar a desculpa do que aconteceu com Georgia (Jayne Atkinson), aquela senhorinha que em The Key foi introduzida como líder de uma comunidade grande com direito a conhecimento e recursos que poderiam ser a deixa para a Nova Ordem Mundial, simplesmente não ter dado em nada. Fora que, como os sussurradores depois de Alpha morrer, a ampla população de Alexandria simplesmente desaparece. Na caminhada do fim, pelo jeito, precisa haver menos gente, mas seria bom ser mostrado organicamente como ocorreu essa diminuição.

Falta isso a Home Sweet Home, organicidade. The Walking Dead vem pulando várias etapas e de vez em quando funciona, quando o objetivo é realmente ser prática, como foi no último episódio. Não que aqui o objetivo não seja organizar um cenário de maneira prática também, mas a construção exige uma maturação de tempo que pelo visto a série não consegue mais fazer sem apelar aos mesmos ciclos. Uma nova ameaça é estabelecida nesse capítulo, um novo grupo psicótico que provavelmente foi o mesmo a capturar Connie depois da caverna. Um desafio que estará ali só para providenciar os acontecimentos que precisam acontecer. Maggie e Negan precisam se entender, Hershel Neto (Kien Michael Spiller, a carinha toda de Gleen) é a ponte para isso, visto que Negan parece se entender bem com os jovens do grupo, e algo me diz que ele será capturado por esse novo grupo, Negan o resgatará e essas pazes finalmente possam acontecer – no mínimo, será algo do tipo. A grande questão em branco vai mais para a motivação específica desse grupo para com o grupo de Maggie, sendo o único elemento de gancho incerto o suficiente para sustentar a atenção do público de forma unitária entre esses episódios extras, com claro caráter de filler.

No fim, apesar de todos esses problemas mencionados, Home Sweet Home não chega a ser um episódio ruim. O núcleo da missão de resgate a Hershel, por exemplo, possui uma construção interessante de tensão da ameaça, que de invisível passa a ser fisicamente desafiadora até mesmo para Daryl e Maggie. Mesmo com aquele fim tosco do vilão explodindo à queima-roupa e não machucando ninguém ao redor, não anula a boa ação do capítulo, que tem outra cena interessante de matança de zumbis que rendeu um baita corte no braço de Maggie (pena que não deu tanto pano pra mangá depois, uma infecção ou algo do tipo) e peripécias visualmente divertidas do novo personagem “ninja” (Elijah – Okea Eme-Akwari), em seu método “massa véi” de matar os mortos-vivos. E claro, e mais importante, Maggie voltou, só de vê-la interagindo novamente com o grupo, já traz um ar diferente, de esperança para esse fim de ciclo, valorizar toda a história que o seriado construiu até aqui.

The Walking Dead – 10X17: Home Sweet Home | EUA, 28 de Fevereiro de 2021
Direção: David Boyd
Roteiro: Kevin Deiboldt, Corey Reed
Elenco: Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Jeffrey Dean Morgan, Cailey Fleming, Cassady McClincy, Angel Theory, Nadine Marissa, James Devoti, Okea Eme-Akwari, Brianna Butler, Kien Michael Spiller
Duração: 42 minutos

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16 comentários

Destruidora de mundos 3 de março de 2021 - 23:44

Eu acredito que twd deu uma perdida por algumas temporadas, não sabia bem o que era, nem o que queria contar.

Com a troca de Showrunner, foi muito evidente a melhora, não chega a ser uma GRANDE melhora, mais esta conseguindo manter a atenção da galera que a acompanha por anos.

Vejo muita gente falando sobre o orçamento,eu inclusive ja falei muito sobre, mais segundo uma entrevista de um dos maquiadores, a Amc está investindo pesado na conclusão da série e na produção da trilogia do Rick que aparentemente vai finalizar a história de todos os personagens.

Me vejo novamente transbordando de hype e ao mesmo tempo com um pé atrás rsrs. Ótima critica como sempre.

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Iann Jeliel Pinto Lima 3 de março de 2021 - 23:44

Muito obrigado pelo elogio! Espero que esteja certo, tomara que eles invistam bem para fazer uma última temporada digna de série!

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Guilherme 3 de março de 2021 - 03:25

Ae Iann, comentei lá nas suas reviews da temporada 1 , muito bem feitas , parabéns.

Voltando a falar do ep 17 teve umas coisas que esqueci de comentar , vc disse que a população de Alexandria diminuiu por conta dos sussuradores mas n e vdd , tá maior doq nunca pq as pessoas do reino , hilltop e santuário estão lá , nesse ep só não apareceu por conta das limitações de pessoas no set.

Descobri uma informação adicional interessante do Reaper desse ep, ele é interpretado pelo mesmo ator que fez um Salvador na 7 temporada que não morreu , será esse grupo uma formação dos salvadores remanescentes caçando a maggie por vinganca? No arco dos sussuradores da hq os salvadores chegam em Alexandria dps do 10×16 das hqs e o Negan convence eles a não atacar e acaba ganhando a confiança de rick , talvez eles adaptem essa trama para Maggie e Negan , seria interessante isso!

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Iann Jeliel Pinto Lima 3 de março de 2021 - 03:26

Olha só, que excelente informação! Obrigado meu caro, é uma teoria que faz total sentido e muito provável que seja o que aconteça. Também faz sentido o pessoal não aparecer pelas limitações de pessoas no set, BUT, essa baixa população não é de hoje, então, sigo com esse questionamento.

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Blindônico 3 de março de 2021 - 03:25

O episódio nem precisava jogar um novo inimigo, foi completamente desnecessário
Ao invés de ficarem enrolando nisso com uma traminha sem graça, podiam ter focado unicamente em um episódio repleto de diálogos, flashbacks de Maggie durante o salto temporal e mais cenas com Hershel Jr
Umas ceninhas breves ali e aqui com zumbi pra cumprir tabela e pronto

Ao invés disso jogaram essa traminha do povo de Maggie que ninguém conhece e nem liga, sendo perseguidos por um grupo inimigo novo genérico, com uma história deles andando até Alexandria “opa vamos dormir aqui” *briguinha com zumbis*. O que REALMENTE prestou no episódio (além das atuações) foi:
-diálogos sobre a família dela, sobre Hershel Jr e sobre Negan
-As poucas informações sobre Elijah e a indicação de que ele vai ter uma amizade com Kelly

E só. No máximo eu diria que foi um episódio legalzinho… é muito massa Maggie estar de volta, mas acaba sendo só isso mesmo. Toda a trama do episódio não leva a lugar nenhum.
5.5/10

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Iann Jeliel Pinto Lima 3 de março de 2021 - 03:25

Se desse nota quebrada talvez seria uma mesma nota. Concordo com suas colocações, ainda que goste da ação do episódio, havia outras maneiras de aproveitar seu caráter filler do que inventar um novo grupo inimigo.

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Blindônico 3 de março de 2021 - 23:44

As cenas de ação até que são boas, mas isso não sustenta episódio, uma pena

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Iann Jeliel Pinto Lima 3 de março de 2021 - 23:46

Pra mim sustentou, mas não é dos episódios que mais defendo nessa temporada não.

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Blindônico 3 de março de 2021 - 23:48

Foi o segundo mais fraco da temporada pra mim

Iann Jeliel Pinto Lima 5 de março de 2021 - 17:47

Qual seria o primeiro?

Stark 3 de março de 2021 - 03:25

Eu acompanhei TWD fervorosamente até o começo (ep. 4 ou 5) da sétima temporada, mas aí cansei de toda essa inconsistência e larguei.

A série tem episódios MUITO bons, mas a qualidade deles oscila muito, intercalando episódios horríveis com ruins, com outro péssimo, com um meia boca e paaaah: um mindblower, pra logo em seguida tudo voltar a ficar ruim novamente. E sim, sei apreciar um bom desenvolvimento de personagem e narrativa mais lenta (tanto que sou fã de Better Call Saul, que mt gente torce o nariz por ser mais ‘devagar’), e que TWD acerta quando o faz sem encheção de linguiça.

De vez em quando leio as críticas de TWD aqui, com spoiler e tudo, e até hoje não vi nada que me convencesse voltar a investir meu tempo nessa que já foi uma das minhas séries preferidas.

Já Fear TWD, assisti as 2 primeiras temporadas, mas a decepção com a série-mãe também me desmotivou a continuar, ainda que aparentemente a derivada tenha acertado o tom posteriormente.

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Iann Jeliel Pinto Lima 3 de março de 2021 - 03:25

Eu concordo em partes. Acho até onde você falou a série bastante regular em alto nível, depois começa a ficar realmente inconsistente. Espere a série acabar pra dar uma nova chance e enquanto isso vai lendo as reviews que tô fazendo por episódio das primeiras temporadas!

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Guilherme 1 de março de 2021 - 10:41

Olha eu achei excelente viu , não é que eu sou puxa saco da série , critiquei muitos ep dessa temporada ( principalmente na primeira parte ) mas acho que esse episódio 17 trouxe um ar fresco que a série precisava , percebi uma dedicação melhor nos diálogos, as cenas de ação , a trilha sonora , as novas câmeras , tudo tá diferente do resto da série inteira , quanto a cena da granada , realmente eu tb achei meio tosco , porém eu vou pesquisar mais sobre isso e ver se sei lá as vezes pq ela tava dentro do colete a explosão ficou mais contida , até pq na hr que o daryl acorda ele coloca algo dentro da roupa dele , mas enfim provavelmente e um defeito mas mesmo assim , a câmera focando na maggie com o barro subindo e muito bem feito

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Iann Jeliel Pinto Lima 1 de março de 2021 - 16:18

Um ar fresco eu sinto também, mas eu acho que o tempo diluiu muito o impacto dos dramas que ele propõem. Sobre a cena da granada, nem de longe foi meu incomodo no episódio, mas acho que poderia ser mostrada melhor geograficamente. O fato deles sobreviverem tão perto só estranho por isso pra mim.

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Guilherme 1 de março de 2021 - 10:41

( acho que meu comentário foi excluído ) Eu achei muito bom , percebi uma dedicação grande nos diálogos , cenas de ação com gore , principalmente aql que o Elijah amassa o zumbi, a nova fotografia parece coisa de filme , acho que o 10×16 teria sido ainda melhor se no aspecto técnico seguisse esse episódio , a cena da granada realmente deve ter sido uma falha , considerando que qualquer ser a 5 metros dela morre e definitivamente sofre o impacto a menos de 15 metros e todos estavam perto , mas mesmo assim , gostei dos novos vilões , os personagens novos são carismáticos ( principalmente o cole ) e não ficou devendo na ação , ancioso pra ver sua review do ep do Negan , vc escreve bem dms!

Nota do ep: Pra mim e 8.5 ou 9/10

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Iann Jeliel Pinto Lima 1 de março de 2021 - 16:18

Sim, há dedicação, é a caminhada para o fim, tem que ter. Mas eu ainda acho que certas questões ficaram diluídas com o tempo e aí é uma falha acumulativa mais do que do episódio, que possui falhas dentro dele também, na questão geográfica. O que me incomodou na cena da granada não foi exatamente eles não se machucarem, mas não mostrar com exatidão como eles escaparam, o que dá essa impressão anterior de um modo estranho.

Ademais, agradeço pelos elogios! Depois busque minhas críticas por episódio da primeira temporada aqui no site. Ficaria bem feliz se aparecesse comentando por lá. Abraços!

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