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Crítica | The Walking Dead – 10X18: Find Me

por Iann Jeliel
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Find Me

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Na minha cabeça, depois da saída de Rick (Andrew Lincoln), era muito claro que Daryl (Norman Reedus) assumiria o protagonismo da série. Afinal, em quesito de peso do nome, era o segundo personagem mais popular de The Walking Dead, apesar de nunca ter chegado nem perto da lista de melhores em termos de complexidade dramatúrgica, principalmente naquele período em que o personagem estava entre um enorme hiato de tramas que realmente se interessavam em aprofundar a pessoa por trás do secundário “fodão” das cenas de ação. Tudo isso justificava ainda mais o fato de ele assumir o manto de protagonista, que em certa medida, apesar de tentativas, não chegou a realmente acontecer. Houve boas tramas e relações implementadas aqui e ali, mas que logo mais estagnavam em busca de uma próxima para dar mais certo. Assim, na oportunidade de trazer mais seis episódios extras de caráter filler, Find Me tenta revigorar todas essas tentativas anteriores de drama ao Daryl e centralizá-las em uma unidade sentimental em comum de consequência ao personagem.

A ideia é ótima, mas infelizmente acaba sendo tímida demais em sua execução. Até gosto da proposta realmente mais espiritual do episódio, que acaba apelando muito pouco para o expositivo, apesar de sempre deixar muito clara a sua proposta. Todo o início ali com Carol (Melissa McBride), diferente de outros momentos de enrolação, traz uma melancolia sobre a redundância da relação, uma barreira sentimental na dupla que será descascada ao longo do capítulo na perspectiva de Daryl, através de um retcom sobre o que ele viveu quando estava procurando por Rick nos rios. O episódio acaba indo a vários lugares nessa escolha, ficando até mesmo difícil de decifrar qual é seu verdadeiro intuito. Primeiro, parece ser um piloto do spin-off prometido entre Carol e Daryl. Depois, vai para a origem da relação de Daryl com o “cachorro”, mas seria filler demais. Então, essa origem se dá na primeira história de romance explícita do personagem que viveu tanto tempo sozinho. Só que esse romance é no meio do ápice de da culpa carregada por ele pelo que aconteceu com Rick. Ou seja, são muitas vertentes dramáticas a serem amarradas, ainda com a inicial de Carol, e o nó acaba ficando folgado.

O grande problema é a organização da montagem. É um episódio episódico dentro de si. Falta tempo para resolver cada parte direito e uma organização que faça sentido. Acho muito estranho que todo esse tempo o personagem tenha rondado uma mesma área, parte também do problema geográfico que essa décima temporada tem. Não fica claro, por exemplo, que o personagem decidiu realmente se isolar pela culpa, fugir um pouco de sua realidade, tentar um novo começo. Assim, fica difícil acreditar no romance com Leah (Lynn Collins), porque apesar do teor distante ser a base para a aproximação dos dois, não parece realmente um desejo de Daryl recomeçar com ela, pelo menos a impressão passada não parece plausível. Contudo, a questão geográfica também não leva a crer que o principal objetivo dele era o Rick, a desolação do personagem é muito ambígua, então não dá para saber se ele realmente acreditava que podia encontrá-lo ou se só estava fazendo isso para se martirizar. Falta momento de abertura dentro do flashback que direcionasse melhor para que lado corria o sentimento do personagem.

Ele até grita quando perde o mapa, demonstra empatia na reação na cena de desabafo de Leah, mas é muito pouco. Aliás, aquele era o momento certo para dar uma abertura mais escancarada e sentimental ao personagem que resultaria no romance, mas a cena corta para um novo salto temporal que já vai direto para a separação dos dois pela mentalidade dividida de Daryl. Poxa, quer dizer que vocês fazem um filler só para o personagem viver finalmente um romance e nem mostram isso? Mancada! Entendo que é pelo caráter pessimista, e como dito, distante de sua personalidade, mas era o momento para abrir isso, tornar mais complexo o personagem, como um dia aconteceu quando ele viveu uma aventura com Beth (Emily Kinney), lá na quarta temporada. Isso só vai acontecer realmente no fim, num desabafo contido, mas sem dúvidas poderoso com a Carol para fechar o distanciamento do início do capítulo.

A culpa é jogada toda na sua cara (com toda a razão, apesar de a culpa ser dos roteiristas incompetentes que prejudicaram a personagem), e o episódio acaba num distanciamento iminente entre os dois amigos que logo mais será resolvido, afinal, a série deles continua confirmada e há um episódio só da Carol vindo aí para ela se redimir de novo. Esse efeito de diminuição do peso do drama por uma consequência de reversão certa poderia até ser passível se houvesse uma evolução correspondente no desenvolvimento de ambos os personagens, principalmente de Daryl. Em se tratando de flashback, que passou a ser usado somente nesta temporada na série, porque nitidamente as ideias acabaram, Daryl volta a uma mesma estaca anterior, no caso, o presente, bem como suas últimas tramas. A diferença é que sabemos realmente como ele está e antes só imaginávamos, mas o lidar dele com as situações essencialmente não muda, ou sabemos que a mudança, esse cancelamento de Carol, não vai dar em nada.

Assim, sobra muito pouco a Find Me. Leah vai voltar em outro momento para vemos esse Daryl momentâneo que queria voltar com ela? Ou ele ainda quer? E quanto a Connie, o que vai ocorrer quando ela voltar? Tudo isso são dúvidas que não são pensadas como ganchos, são possibilidades que, imagino eu, nem a própria Angela Kang decidiu se vai usar. Ela se arriscou num formato poético que valeu a tentativa de recuperação a um grande personagem, mas que ainda não possui nenhum efeito prático para a série como um todo e que não chegou nem a ter seu efeito específico dentro do episódio, também por deficiências acumuladas durante a temporada.

The Walking Dead – 10X18: Find Me | EUA, 07 de Março de 2021
Direção: David Boyd
Roteiro: Nicole Mirante-Matthews
Elenco: Norman Reedus, Melissa McBride, Lynn Collins Find Me Find Me
Duração: 42 minutos

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4 comentários

Sussurrador 10 de março de 2021 - 12:20

Muito longe de ser tão bom quanto o “Laura” do Fear The Walking Dead esse episódio me lembrou muito aquele!

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:21

De acordo. Aquele episódio é um dos melhores de Fear.

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Guilherme 8 de março de 2021 - 20:59

Olá Iann, discordo de alguns pontos, como por exemplo quando vc disse que cada momento dos saltos temporais passa muito rápido e falta desenvolvimento, na minha opinião isso é praticidade assim como no episódio 16, ambos personagens não veem pessoas com muita frequência e são muito ruins nas interações kkkk, eles esperam meses pra ter uma conversa de um minuto e demoram mais meses pra eles se abrirem e relacionarem de uma vez, tudo isso eu compreendi em 10/15 minutos, sem enrolação.

Esse ep tb valoriza o salto temporal que antes era vago mas agora temos uma noção muito maior do que aconteceu naquela época ( pelo menos com o Daryl ), até tivemos a origem do famoso cachorro chamado cachorro hahah

Um dos pontos altos tb que eu achei foi a relação Daryl e Carol que na minha opinião tava cansada com os dois passando pela mesma coisa de sempre, por exemplo quando a Carol tinha as ideia maluca e o Daryl tentava a convencer do contrário e sempre dava merda e eles brigavam, sempre isso. Nesse ep eu gostei que eles colocaram uma ´´comédia´´ nessa relação, por exemplo quando a Carol pega o peixe e solta um ´´Há´´, acho bacana ver que a Alpha enfim saiu da cabeça da Carol.

O ponto mais alto pra mim foi esse ep valorizar o protagonista da série ( Daryl ), personagem que na 2 temporada ganhou destaque e depois que a Beth sumiu se tornou o Braço direito do Rick e só isso. O 10×18 foi provavelmente o episódio da série inteira que mais desenvolveu o personagem.

Vou sair dps escrevo outros pontos, quero ver sua opinião sobre isso.

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Iann Jeliel Pinto Lima 10 de março de 2021 - 12:20

Bons pontos que você trouxe amigo.

Eu até concordo com você com a noção temporal de elipses melhor utilizada aqui, mas acho que o episódio ainda é disperso por não criar um foco circunstancial mais direto.

E aí, eu discordo de ti quando você enxerga a praticidade do 16. Ali era um outro contexto, de um final que não poderia ser tão grandioso e conseguiu se ressolver no objetivo

Aqui é um episódio de meio, assumidamente um filler, então é preciso ter o aproveitamento temporal do desenvolvimento. Acho que acabou ficando mais na intenção mesmo, o efeito, pra mim, soou artificial.

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