Home TVEpisódio Crítica | The Walking Dead – 10X19: One More

Crítica | The Walking Dead – 10X19: One More

por Iann Jeliel
4170 views (a partir de agosto de 2020)
One More

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Mesmo que Home Sweet Home e Find Me não tenham sido episódios tão bons, The Walking Dead vinha mostrando que não trouxe esses episódios extras à toa para completar sua décima temporada. Cada um possui uma ideia muito clara que visa a tentar recuperar algo que a série tinha perdido e precisa retomar para sua reta de despedida. No caso, o primeiro tinha como intuito recolocar a importância de Maggie na sua volta à série; o segundo buscava valorizar dramas incompletos de Daryl, e One More, como o próprio título menciona, é “mais uma” situação condicionada a expor o dilema de humanidade que a série cansou de trabalhar, mas já não vinha executando bem há algum tempo. Presa em ciclos intermináveis de guerras entre comunidades, em algum momento a série se esqueceu da origem de intuito narrativo que faz com que esses conflitos aconteçam, secundarizando o que antes era sua principal fonte de conteúdo enquanto dramaturgia, e pior, tornando-a um mártir para si, cansando o público com o mesmo discurso sem novas formas de abordá-lo.

Não que One More seja digno dos episódios mais originais da série, mas certamente é o que possui uma das construções mais cuidadosas em escolhas desses últimos arcos. As escolhas começam acertadas já nos protagonistas, Aaron (Ross Marquand) e Padre Gabriel (Seth Gilliam) nunca foram dos personagens mais aproveitados por The Walking Dead desde que surgiram, apesar de possuírem características particulares que poderiam trazer facilmente questões que revigorariam o explorar da desumanização do cenário apocalíptico, a exemplo de Aaron, em quem a homossexualidade jamais foi pauta de uma trama importante (e não é agora também porque não convém). Portanto, isolá-los numa aventura já parece bem estimulante como uma oportunidade de conhecer mais deles, contudo o episódio não se resume a colocá-los numa busca por recursos aleatória que geraria conversas para contextualizá-los – como foi naquele contestado episódio do cervo falso de CGI lá da sétima temporada, com Michonne (Danai Gurira) e Rick (Andrew Lincoln) –, mas também propõe conflitos que os tirem da zona de conforto.

Tudo bem que Gabriel é mais tirado dessa zona do que Aaron especificamente, já que o capítulo foca precisamente nas consequências rodadas ao personagem na sua queda de fé, puxando a hipocrisia que o fez emergir na série. Se lá no começo da quinta temporada ele foi capaz de se trancar numa igreja para salvar a própria pele, aqui em seu passado levemente comentado, o roteiro tangencia precisamente a origem de sua complexidade moral ao ter tido má influência de outro reverendo na sua formação religiosa como princípio para o exercício de tensão mais à frente no episódio. O texto surge espontaneamente numa conversa em que ele decide beber com Aaron um vinho caro, fazendo-o ser questionado sobre “pecados” cometidos – juntamente com a questão da paternidade, que é uma ponte conectiva entre os personagens –, expondo sua nova posição pessimista enquanto religioso que será usada como arma pelo novo personagem, Mays (Robert Patrick), habitante do armazém onde eles encontraram a bebida e outros recursos que os captura mediante a uma liberdade condicionada a uma prova da natureza não confiável do ser humano, quando colocados ao limite.

A partir desse momento, o episódio ganha muita força. A direção de Laura Belsey matura muito bem cada etapa da discussão ideológica que vira um perigoso jogo de roleta russa, no qual, como raramente é visto na série ultimamente, temos o real benefício da dúvida se realmente um dos dois não poderia sair morto dali, já que, como dito, eles realmente não tinham tanto peso assim para serem considerados personagens imortais. E o mais importante, o episódio não precisou matar nenhum dos dois para ser impactante. Bastou um roteiro bem amarrado, implementando a narrativa do irmão de Mays como um perfeito motivador para a tortura psicológica que ele estava fazendo com a dupla, forçando Gabriel a tentar manipulá-lo contradizendo seu argumento de sentimento pessimista para sair da situação, não conseguindo, deixando-o cada vez mais desesperado à beira de uma morte para assim reverter seu discurso de forma honesta, e logo depois de sair, desmentir tudo como uma manipulação, matando o personagem a sangue-frio, ainda se arrependendo depois que encontrou seu irmão ainda vivo em outro cômodo do armazém, confirmando que foi uma manipulação, mas também que foi algo de dentro do personagem.

A ambiguidade de Gabriel ao final evolui bastante o personagem. Deixa em aberto como seu sentimento ficará num futuro para decisões grandes, mas essencialmente o fecha nessa nota ainda mais complexada de um representante religioso cheio de contradições que serve a dar uma palavra em que acredita, mas ao mesmo tempo não cumpre seu próprio acreditar. Já Aaron fica mais como contraponto, é revelado que ele ainda tem esperança numa vida após aquilo, e isso é o que o motiva a seguir em frente, fazendo-o até estar disposto a se sacrificar se for para manter a esperança em outro, incluindo Gabriel. O episódio não vai muito além disso, porque quando surge a oportunidade, decide se preocupar mais com o exercício de tensão, onde ele realmente mais brilha. Acredito que tinha material para fornecer um conectivo também a ele naquilo tudo, mas a parte do contraponto já funciona, dá química à dupla (que provavelmente terá ainda mais uma aventura) e naturalmente Aaron sai melhorado também com a melhora de Gabriel.

Quem diria que teríamos um dos melhores episódios da temporada com esses dois? One More reitera o espírito de recuperação que The Walking Dead busca agora, pelo jeito, derradeiramente para o seu final, e acaba sendo recompensado por insistir em uma ideia acima de uma possível postergação de mais episódios que não levam a trama a lugar nenhum. Mesmo sendo filler, existe um caminho a ser seguido, um caminho que precisa revitalizar o que essa série já foi, se quiser encerrá-la com a dignidade que merece.

The Walking Dead – 10X19: One More | EUA, 14 de Março de 2021
Direção:
Laura Belsey
Roteiro:
Erik Mountain, Jim Barnes
Elenco:
Ross Marquand, Seth Gilliam, Robert Patrick
Duração: 
47 minutos

Você Também pode curtir

14 comentários

Bruno 30 de março de 2021 - 15:55

A segunda parte até que foi um pouquinho interessante, mas a primeira parte só não foi mais insuportável que o episódio anterior.

Pra mim, TWD tá lembrando os tempos em que esteve no fundo do poço

Responder
Celso Lopes 29 de março de 2021 - 22:54

Só dois pontos meu caro. Eles bebem uísque e não vinho. Mas o mais importante é que há um equivoco quando vc diz que houve má influência na formação de gabriel. O intuito do mentor é faze-lo entender que ele tem que ser um com os seus paroquianos.

Responder
Junito Hartley 16 de março de 2021 - 00:11

O que salvou o episodio foi a reviravolta na parte final do episodio, ate entao tava devagar demais, ate entao eu daria 2 estrelas, no final eu dou 4 estrelas, padre gabriel me surpreendeu.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 14:52

Acho que o arrastado inicial é proposital para criar o clima, então acaba sendo um ponto positivo. Adorei a reviravolta também!

Responder
Eu Apenas 16 de março de 2021 - 00:11

Padre Gabriel era aquele personagem que quando entrou na série, todo mundo esperava que morresse KKK ele era medroso, fraco e traiçoeiro. Agora, virou um cara frio e calculista que não foge de uma briga.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 14:53

Quando ele apareceu, achei que ia morrer no episódio seguinte e olha no que deu.

Responder
Mateus Damiames 16 de março de 2021 - 00:10

Finalmente uma apresentação de personagem boa, tudo estava perfeito até o padre matar o Mays, um cara badass que tinha sofrido traicao mas tinha voltado a ser bom depois do jogo, mas ai a serie vai e mata ele no segundo seguinte, como voces gostam disso? aceitam personagens horriveis, esse padre é um bobão que só chora, tem uma mina que é muda e tem que ficar falando em libras com ela, eles matam todos os personagens bons, até o fucink carl, de bom nessa série só resta Daryl, Carol e Negan, verdadeiros guerreiros baddass igual era o rick, ai quando eles acertam na apresentação de um novo personagem vão la e matam ele na hora, por isso twd está essa merda chata, só firula e firula, conversa e conversa, com personagens sem carisma algum pq nao passamos dez anos da série vendo eles crescerem, preferem matar os bons e deixar esses novos que nao tem historia, nem desenvolvimento, nem nada pra acrescentar, mano tem uma mina que usa um estilingue????? sério que lixo, vcs apoiam ainda essa patifaria, depois que o negan matou gleen a série nunca mais foi a mesma, vtnc, e continuam errando, jogando fora os personagens bons e deixando os idiotas pra estrelarem episodios, um episodio inteiro só do padre e do aaron? eles nao merecem um EP desses são coadjuvantes e mais nada, não são fortes, não são lideres, são dois bundao, namoral the walking dead só decepciona.

Responder
Junito Hartley 17 de março de 2021 - 13:34

O padre teve uma evolução similar a da Carol que vc coloca como uma das coisas boas da serie e critica ele kkkkk

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:02

Sim, e a Carol involuiu com o tempo.

Responder
Eu Apenas 18 de março de 2021 - 05:08

Nunca vi comentário tão birrento.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:02

Faz parte kkk

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 15:01

Raivoso em colega? Entendo algumas de suas frustações, mas vamos dividir a resposta de seu comentário em tópicos.

1) Apresentação boa do Mays, mata-lo, melhor ainda. Não há mais tempo para uma última temporada jogar novos personagens e tentar da relevância, mas se pode criar bons personagens para que alavanque outros, como foi o caso do Gabriel especialmente nesse episódio.

2) A série ta carente de personagens com carisma mesmo e vejo ela tentando recuperar isso com algumas escolhas. Acertadas ou não, eles estão tentando. Hoje, diria que só o Negan é um personagem de casca. Nem Daryl ou Carol ainda estão totalmente recuperados.

3) Eu não apoio ou deixo de apoiar TWD. É só ver minhas demais criticas, venho criticando a série quando necessário e nesse caso, elogiando quando necessário.

4) Sobre essa coisa da enrolação, não adianta muito reclamar. A proposta era fazer 6 fillers mesmo, então será assim, até no mínimo, o inicio da próxima temporada. Dito isso, era aproveitar esse tempo para tentar desenvolver personagens com pouca relevância como o Gabriel e Aaron e pra mim, nesse sentido, o episódio funciona.

Responder
Guilherme 15 de março de 2021 - 10:44

Salve Iann, curti tb achei o melhor de todos, tenso, gosto deles voltarem aos velhos tempos e ir procurarem comida, não que isso aumente minha nota no ep, mas certamente me agradou e que atuação foda do Ross e do Seth, e claro, do querido T-1000. A cena da roleta russa é facilmente uma das mais tensas da serie, gosto tb do jeito que o padre convence o Mays a ceder e depois mata ele, muito parecido com Rick/Shane ou Rick/Negan. Fora que o Aaron era um personagem muito largado na história e nesse ep ele passa de um figurante eterno pra um personagem foda e que eu me importo de vdd. Bom ainda temos 10×20,21 e 22

Johnny O´dell disse que o 20 e o 22 são os melhores e que o 21 é um dos piores da série inteira de tão entediante kkkkkk vamos ver que perigos nos aguardam, abraços.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 21 de março de 2021 - 14:52

Salve Gui, sempre presente. Estamos de acordo, pelo menos a cena da roleta russa é a mais tensa da temporada e a dicotomia do padre, lembra muito Rick/Shane mesmo, que representa o ápice da série.

Sobre os próximos episódios, estou com boas expectativas, justamente para o 20 e 22, vamos ver no que dá!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais