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Crítica | The Walking Dead – 10X20: Splinter

por Iann Jeliel
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Splinter

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. Splinter Splinter Splinter

Essa estrutura de fillers dos últimos episódios da décima temporada é curiosa. Se por um lado, é frustrante não ter avanço da história prestes a acabar, por outro lado, é um momento oportunidade para a série voltar a testar experimentações narrativas isoladas. A segunda metade da quarta temporada está entre meus momentos favoritos de The Walking Dead, onde tinha uma sequência de bottle episodes que conseguiam ter um valor próprio e ao mesmo tempo preparar terreno para grandes arcos de intensidade posteriores. Claro, apesar de serem episódios assumidamente engarrafados, aqui não é o mesmo cenário. Já repeti algumas vezes nos meus textos, sobre o ciclo de recuperação de coisas perdidas que a série vem vivendo, e esses seis episódios extras, pareciam essencialmente, a tacada final desse ciclo para preparar um contexto favorável a última temporada. Contudo, Splinter é um caso que vai na contramão dessa revigoração, propondo, mesmo que de forma econômica, uma progressiva da narrativa, ainda que em caráter experimental.

Gostei muito da apresentação da princesa (Paola Lázaro) em The Tower. É um tipo de personagem que faz falta na série. Carismática, de personalidade excêntrica, com potencial para ser grande e cascuda. Dar espaço para seu desenvolvimento antes da próxima temporada era uma ótima pedida para dar base a esse potencial, ainda que, complicado de se realizar no ponto de vista continuo da série, visto que, o gancho dado pela “seasson finale” meio que obrigava o voltar desse núcleo, em introduzir o grandioso arco da Nova Ordem Mundial, onde claramente não se tem condições de realizar por agora, nas condições da produção em meio a pandemia. O caminho mais fácil era o flashback, mas o episódio opta pelo risco, de não só, passar esse desenvolvimento no meio da introdução do arco mencionado na continuação dos eventos segurada, como fazer isso em um só lugar, fechado, com uma personagem nova tendo devaneios. As chances de cair na morosidade era grande, mas o roteiro tem recursos o suficiente para apresentar sua proposta com substância e uma execução instigante em todas as suas frentes.

Mérito da intérprete por conseguir sustentar muito bem a ambiguidade entre o real e o ilusório da personagem principal. Se seu jeito louquinho era conquistador, e aqui, ele não se torna gratuito. Mesmo que ache um tanto forçado a forma expositiva que o primeiro diálogo expunha diretamente a origem de sua dramática, o caminhar do restante do capítulo consegue muito bem trabalhar essa ideia de maneira consequencial no imagético. É um capítulo que vai obedecendo a mente confusa da sua personagem sem abandonar a linearidade das ações. Soluções aparecem de forma muito fácil para que ela escape daquele armazém, mas vão sendo substituídas por questões morais plausíveis envolvendo aqueles que acabará de conhecer: Eugene (Josh McDermitt), Ezequiel (Khary Payton) e Yumiko (Eleanor Matsuura). Isso vai criando um conflito interno na mente da personagem, a desnorteando sobre cada nova escolha a fazer, enquanto o episódio vai acompanhando esse raciocínio, de maneira quase surrealista, confundido nós como público a ficar na dúvida, sobre a personagem, mas principalmente do que ela vê.

O twist de que ela estava criando aquelas situações e conversas em sua cabeça, é não só, surpreendente, como efetivo, no drama inicial como realmente uma pauta importante, e efetivo para manter o senso de gancho do que vai acontecer a seguir dessa expansão de mundo. É na verdade, quase uma extensão do gancho, que funciona devidamente pela tensão escalonada ao diálogo entre a Princesa, enfim, lúcida e o soldado que ela captura. É uma cena daquelas que o desconfiômetro vai ao topo, gerando uma constante tensão até que não se desminta o que estava sendo dito. E o melhor, a dúvida se o soldado está falando a verdade persiste até o fim – ambiguidade construída desde antes na ótima cena do interrogatório –, para quando “confirmada”, seu “desmentir”, torne a continuidade do gancho anterior ainda mais impactante, dando até para ficar na dúvida, se aqueles personagens vão mesmo sobreviver, ou no mínimo, a sensação é que algo grande vem.

Apesar de chegar num mesmo ponto de partida, tudo faz muito sentido em Splinter considerando a estrutura que escolhe, seja na correlação com a origem motivadora da personagem, seja na forma mesmo, que vai se modificando sobre esses conformes e tornando esse episódio diferente de outros que trabalham alucinações de forma genérica, preguiçosa ou gratuita. Foi um chute certeiro no limiar que podia escolher ser obvio desde o início para não correr riscos, ou deixar tudo para o final sendo passível de ser incoerente. A ideia correu no timing certo e equilibrado. Nada brilhante, mas objetivo (não lembro de um episódio na série mais curto que esse) e inventivo o suficiente para cumprir tudo aquilo que se propôs.

The Walking Dead – 10X20: Splinter  | EUA, 14 de Março de 2021
Direção:
 Laura Belsey
Roteiro:
Julia Ruchman, Vivian Tse
Elenco:
Paola Lázaro, Jessejames Locorriere, Cameron Scott Roberts, Erik Bello, Josh McDermitt, Khary Payton, Eleanor Matsuura
Duração: 
40 minutos

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