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Crítica | The Walking Dead – 11X01: Acheron – Parte 1

por Iann Jeliel
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Acheron - Parte 1

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. 

The Walking Dead volta para a sua décima primeira e última temporada com o pé direito. Depois de um ano anterior inteiramente desorganizado, a narrativa de Acheron – Parte 1 traz um sentimento de que existe um planejamento conciso para o fim e o durante do restante da série. Mesmo que propriamente seja um episódio que avance pouco a história, afinal, os dois objetivos lançados pelos núcleos trabalhados em questão – chegar à comunidade falada por Maggie (Lauren Cohan) para guerrilhar por recursos e descobrir do que se trata aqueles soldados – não foram concluídos, até por ser a primeira parte de um grandioso capítulo. A primordial diferença é que o capítulo não está enrolando seus passos, mas trabalhando cada um cuidadosamente perante supostas limitações orçamentárias.

Dirigido por Kevin Dowling, estreante na série, Acheron – Parte 1 abre com uma sequência de ação surpreendente em vários níveis. Primeiro, e mais óbvio, é por expandir a mitologia da série, ou pelo menos, propor o conceito de zumbis “adormecidos” em uma grande setpiece. Parece um elemento irrelevante, tanto que isso está aí na série desde sempre, mas nunca foi pensado em larga escala de tensão. Um jeito interessante de abrir a temporada e não fazer com que mais uma sequência em busca de recursos pareça esporádica. O legal é que, como foi algo nunca feito antes (que eu me lembre na série), potencializa o tensão no seu primórdio, onde não sabemos exatamente por que o grupo de sobreviventes está tensionado com zumbis aparentemente mortos deitados. A direção sabe maturar bem essa incerteza sobre o morto estar vivo ou não ao brincar com a percepção de movimento de câmera enquanto dá closes nos zumbis no chão.

A boa trilha sonora conduz o suspense até a quebra do despertar dos walkers com uma maquiagem bem autêntica, quando a sequência se transforma em uma ação mais genérica, embora ainda boa, pois se tratando de season premiere, há o grupo inteiro de bons personagens participando dela. Avança-se a abertura, e voltamos a Alexandria, onde é dado enfoque novamente na questão da falta de recursos e na tensão entre Maggie e Negan (Jeffrey Dean Morgan). Unindo o útil ao agradável, o roteiro posiciona a antiga líder de Hilltop, que rapidamente encontra membros da sua antiga comunidade – preenchendo um pouco do vazio deixado pelos fillers passados em que parecia que ela estava sem grupo ou não ligava para eles terem morrido –, a dar a ideia de buscar recursos onde era seu antigo local, tomado pelos misteriosos vilões, denominados Reapers, presentes em Home Sweet Home – ao menos, foi o que deu a entender. A missão acaba reunindo novamente o grupo da anterior, agora com a presença de Negan e dos companheiros visualmente interessantes de Maggie para futuras cenas de ação – duvido que algum ali ganhe aprofundamento neste final –, em que o caminho tomado pela chuva força os sobreviventes a passarem por uma linha de metrô antiga e subterrânea.

Temos então outra setpiece de suspense ainda melhor que a primeira, pois trabalha a limitação espacial da ambientação em conjunto a uma atmosfera bem aplicada do terror do desconhecido, do que há ao fim do túnel e o quão expostos os personagens estão naquele local. A mixagem de som é ótima, nos barulhos misteriosos ao fundo, ficamos apreensivos em descobrir do que se trata, podendo ser uma enchente, como menciona Negan, ou um grupamento de zumbis que os encurralariam facilmente em um beco sem saída. A utilização da claustrofobia e do enclausuramento se misturam nos diálogos de Maggie e Negan, que se sente cada vez mais acuado com uma postura mais sisuda de Maggie a cada fala que o envolve. Acho muito bom que o episódio centra os diálogos nos dois e em Daryl (Norman Reedus), como principal interventor. Imaginei que a problemática entre eles já estaria desgastada demais para funcionar em moldes de tensão a largo prazo, mas que bom que eles não decidiram resolver essa pendência rapidamente e ainda elaboraram uma surpreendentemente apimentada no embate com os desdobramentos finais.

Chega ao fim do túnel, novamente temos o suspense bem construído de início, com um chão recheado de zumbis plastificados que podem estar ou não vivos, com o bônus do atrito entre Maggie e Negan, que se solidifica com a qualidade do texto nos monólogos e com a chegada por detrás de um grupo grande de zumbis, que podem ou não ter sido responsáveis pelos barulhos de início. Diferentemente da primeira, aqui a ação não parece tão genérica pela construção prévia da ambientação. Os personagens tomando cuidado com o chão ao mesmo tempo em que precisam alcançar logo o trem para tentar abri-lo, os zumbis aproximando, e as coisas fugindo do controle. No final, sobra para dois dos protagonistas, que acho difícil morrerem logo de princípio assim, mas que fazia tempo que um episódio de The Walking Dead, sem aviso prévio, não colocava genuinamente em risco a vida de um deles, ah se fazia. Daryl menos, porque o imagino escapando por outro local do outro lado do trem para resgatar seu cachorro (e acho bom que resgate mesmo!). Já Maggie, a dúvida é mais forte, mas ainda que sobreviva e mais provável que vá, o que isso pode deslanchar para o embate entre ela e Negan é interessantíssimo.

E a cena é muito boa, porque as atuações ali captam que Negan não fez por maldade, mas fez por ser um sobrevivente nato. Instintivamente, foi uma atitude para fechar a construção inteira do episódio em colocá-lo como vulnerável. O mesmo para Maggie, que reluta até o último segundo em pedir ajuda pelo sentimento de ódio ainda mais carregado depois de Negan mencionar Gleen (Steven Yeun) novamente. Fico feliz que Acheron – Parte 1 opte por não fazer o fácil, que seria colocar Negan para resgatá-la e as pazes virem facilmente a partir daqui. Lembrou aquela velha e pessimista The Walking Dead das antigas temporadas em certo nível, embora como dito, duvido que na prática resulte em fatalidade para qualquer um dos lados ou algo diferente de uma união no final entre eles, mesmo que forçada, ao menos o caminho coloca isso realmente em dúvida a ponto de achar que possa ter chances de acontecer algo não previsível aí. Além de, logicamente, ser um baita gancho de início de temporada para puxar a audiência novamente e com uma belíssima execução, tornando difícil não ficar intrigado.

Falando um pouco do outro núcleo conduzido por Eugene (Josh McDermitt), Ezequiel (Khary Payton), a Princesa (Paola Lázaro) e Yumiko (Eleanor Matsuura), temos uma repetição menos misteriosa, embora ainda incerta da introdução de A Nova Ordem Mundial feita em Splinter. A montagem faz um ótimo trabalho em intercalar entrevistas entre todos os personagens, com diversas perguntas estranhas feitas a eles sobre quem eram antes do apocalipse. Há um mesmo teor de ambiguidade daquele episódio, mas sem um direcionamento circular e com o quarteto interagindo mais. Entre a desconfiança metodológica e a esperança dele não ser hostil, aproveita-se parcela do episódio mencionado em que a Princesa – que já está virando uma das minhas personagens favoritas – pega informações de alguns dos soldados para que eles possam elaborar um plano para escapar dali numa boa. Legal como isso é cessado no mesmo momento em que o episódio conecta e contextualiza o questionário, no final, com o painel da memória do apocalipse, onde fotos de sobreviventes são expostas a demonstrar que ali pode ser realmente um berço para a nova civilização.

Não sei se gosto tanto da escolha de Yumiko para conduzir essa trama que é tão relevante no material original, afinal, ela ainda é uma personagem terciária na série. Contudo, como eu mesmo acredito, cada obra em sua mídia, e tal mudança puxada para esse lado me faz crer que, até pela falta de vários dos grandes personagens, muita coisa vai mudar ao longo da saga, logo, aumento também minha desconfiança do que pode acontecer com Maggie, além de ficar curioso sobre qual será o destino de Ezequiel com seu câncer. Independentemente das respostas, Acheron – Parte 1 é um ótimo episódio, recheado de bom e inventivo suspense, além de bem escrito e organizado tecnicamente. Daqueles para reacender a chama de empolgação com a série, que ainda tem lenha para queimar, pois serão oito episódios este ano, mais oito no início do ano que vem mais oito no fim do ano que vem, totalizando vinte e quatro desta que será a maior temporada da série, e por isso imagino que vá ser dividida em três partes com arcos em comum. Pelo menos o primeiro deles já parece bem promissor e com qualidade encaminhada.

The Walking Dead – 11X01: Acheron – Parte 1 | EUA, 22 de Agosto de 2021
Diretor: Kevin Dowling
Roteiro: Jim Barnes, Angela Kang
Elenco: Norman Reedus, Lauren Cohan, Melissa McBride, Christian Serratos, Josh McDermitt, Seth Gilliam, Ross Marquand, Khary Payton, Jeffrey Dean Morgan, Callan McAuliffe, Eleanor Matsuura, Cooper Andrews, Nadia Hilker, Cailey Fleming, Cassady McClincy, Paola Lázaro, Dan Fogler, Angel Theory, Margot Bingham, Michael James Shaw, C. Thomas Howell, Jackson Pace, Glenn Stanton, Okea Eme-Akwari, Laurie Fortier, James Devoti
Duração: 44 minutos

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