Home TVEpisódio Crítica | The Walking Dead – 11X02: Acheron – Parte 2

Crítica | The Walking Dead – 11X02: Acheron – Parte 2

por Iann Jeliel
1333 views (a partir de agosto de 2020)

Acheron

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. 

A segunda parte de Acheron é um pouquinho inferior à primeira, mas considerando este episódio dividido em dois como um só, a qualidade promissora da temporada final mantém-se como realidade. Isso se vê comprovado já no levantamento honesto do gancho utilizado como divisor dos capítulos, em que Maggie (Lauren Cohan) tem uma quase morte digna daquela fatídica cena da lixeira de Gleen (Steven Yeun), mas não fica enrolando, gastando um suspense desnecessário sendo que sabermos que ela não iria morrer. O impacto da cena serviu como cliffhanger no episódio passado e neste serve para maturar a expectativa sobre o que irá acontecer com Negan (Jeffrey Dean Morgan), sabendo da posição vulnerável do personagem naquele grupo construída anteriormente e agora ainda mais, quando há o reencontro dos dois depois de tê-la largado para a morte.

Por isso, é importante para o episódio não mostrar o que aconteceu para Maggie escapar da enrascada em que se meteu, logo de cara. A abertura do capítulo fornece sutilmente isso, através da geografia debaixo do vagão, acompanhando a mesma sequência do escorregão sob uma perspectiva de baixo, fornecendo os atalhos que a levariam a sair dali, mas segurando o como, e no fim, nem o demonstrando, para construir a verossimilhança da fuga em nossa mente sobre a capacidade da personagem, e não pela situação em si. Isso é importante para compreendermos quem é essa nova Maggie, totalmente fria e desalmada e por que ela nessa condição vai acabar entendendo a decisão de Negan como sobrevivente. Não só isso – e aí parece um pouco estranho, mas faz sentido –, a escolha de Negan em deixá-la parece ser a base para ela começar a confiar nele, seguindo sua nova ideologia, também baseada numa liderança – apesar de autoritária – presa pelo melhor da sobrevivência momentânea do todo que lidera ou precisa cuidar, independentemente do quão desumanas forem as decisões para manter isso.

Não diria que o conflito entre os dois está por resolvido, mas a solução para o início do apaziguamento não deixa de ser outra grande surpresa deste início de temporada. Para um núcleo ao qual não dava nada antes, por achá-lo desgastado, passei a dar depois da criação dessa situação anterior, e antes mesmo de ter a chance de aproveitar suas consequências, elas são reinterpretadas de uma forma plausível. Há de se parabenizar o texto de The Walking Dead por isso, apesar de não gostar tanto de a série sempre ter que implementar um reforço, ainda não tendo a coragem de deixar as amarras psicológicas totalmente subentendidas. Assim, come um tempo fornecendo um diálogo, meio que expositivo/explicativo, de Maggie contando uma macabra história em sua trajetória – as mulheres vivas, mas desfiguradas – e como ela reagiu a essa situação, para reiterar o quão ela está tranquila com seu senso de crueldade. Uma crueldade levemente colocada como maléfica, ao que indica a construção cenográfica da ótima fotografia do episódio, direcionando a luz vermelha do sinalizador em seu rosto enquanto contava a história, mas longe de ser puramente maniqueísta.

Para mim, só a sequência em que ela deixa Gage (Jackson Pace), aquele garoto que fugiu no episódio passado, morrer nos vagões, praticamente em vão, já deixa claro como funciona sua mente de agora e como ela transferiu essa mentalidade para o seu povo. Aliás, que grande morte, hein? Daquelas com a cara de The Walking Dead das antigas, imageticamente bem chocante, gore, gráfica. Mesmo para um personagem abaixo do terciário, a construção da situação é bem empática para se tornar perturbadora depois, com o menino se matando na faca para tentar não sofrer sendo devorado vivo, e pelo menos Alden (Callan McAuliffe) insistindo para reverter a situação, representando um pouco do nosso sentimento pelo garoto, que apesar de não ser carne boa – ele fazia parte daqueles bullies de Lydia (Cassady McClincy) na nona temporada –, como o próprio Alden fala, não merecia morrer por tão pouco e de tal maneira.

É aquilo, para aquele momento, na cabeça de Maggie, não valia a pena salvá-lo. Não tinha tempo para abrir a porta antes da horda considerável de zumbis chegar e os forçar a usarem os poucos recursos restantes ali para eles. Era seguir em frente, tanto que quando Negan dá a conversa mole, eles compram porque associam que ela gostaria que eles seguissem sem ela, e em qualquer momento, se estivesse viva, ela os encontraria depois. A questão é cada líder ter que arcar com as consequências, e o caminho do vagão da frente no fim das contas estava bloqueado, forçando-os a ter que enfrentar os zumbis de todo modo. Mais uma vez, a direção de Kevin Dowling soube valorizar o espaço confinado para potencializar a periculosidade dos zumbis a um status novamente relevante, entregando outra setpiece grandiosa de ação, que só não é mais tensa porque o roteiro ficou amarradinho demais.

Era claro que Daryl (Norman Reedus) correndo por fora dos vagões iria salvá-los em qualquer momento. Ao menos, o timing para isso acontecer é, assim como o de Maggie reaparecer, certeiro. Só depois de imageticamente a expectativa do “como” nos capturar para dentro do suspense. Por isso é bem empolgante a cena quando ele chega, naquele plano bonitão pegando a lateral do metrô, e ele sequenciando head shots nos mortos-vivos. Contudo, as desventuras dele sozinho antes no capítulo não são tão interessantes. Gosto do teor contemplativo dele observando aqueles murais elucidativos, dando uma prévia do que tematicamente será explorado na Nova Ordem Mundial, no caso, a luta de classes distorcida de um ambiente apocalíptico, mas analisando por isolado, essa cena  não se conecta em nenhum ponto do episódio em si e para isso toma um tempo, até convertido em atmosfera, mas disperso de uma utilidade momentânea em trama.

Poderia já puxar esse tema no outro núcleo de Eugene (Josh McDermitt) e companhia lá com os oficiais da supercomunidade, mas o assunto não chegou a ser tocado. Preferiu concentrar no fechamento da tensão de ambiguidade do destino deles ali. Dessa vez, questiono como eles conseguiram voltar para as suas celas sem serem pegos. Acho que seria algo necessário mostrar, partindo do princípio que houve uma construção de certa dificuldade da fuga no episódio passado. Não chega a ser incômodo, mas estafa um pouco do objetivo de fechar o suspense com o mesmo grau de incerteza. Ainda que enxergue a finalidade da proposta em ressignificar o perigo daqueles soldados com mais clareza, quando Yumiko (Eleanor Matsuura) confronta os entrevistadores, ou a Princesa (Paola Lázaro) vai ao banheiro acompanhada, há um lado, principalmente na perspectiva de Eugene, de que estavam separando o grupo e os levando para o mesmo destino incerto do “represamento”, ao qual aquela família com que se comunicaram anteriormente foi e não voltou.

É verdade que esse clima leva a uma ótima cena de desabafo de Eugene e à primeira participação mais chamativa de Mercer (Michael James Shaw), colocando-o como um personagem importante desse arco. Funciona muito no teor emocional, une mais aquele quarteto, dando-os mais relevância – Yumiko depois da cena desse episódio definitivamente não é mais terciária –, além de fornecer um belo gancho com Eugene enfim se encontrando com Stephanie (Chelle Ramos). Contudo, que a condução fosse levada tão na prática quanto fica o sentimento, não sugerido dessa forma tão objetiva pela montagem. Algo que funciona na parte do metrô, porque essencialmente é um exercício de gênero isolado para desenvolver personagens e circunstância, não avançando a história de fato, já que o objetivo de chegar na outra comunidade para cuidar da problemática dos Reapers ficou somente para resolver no próximo episódio, de maneira mais empolgante agora com a bagagem do clima de vulnerabilidade adquirida.

O belo gancho com aquele ataque de frente que o diga. O estímulo e curiosidade para saber o que vai acontecer é inegável, comprovando o comprometimento – pelo menos em Acheron como um todo – desta última temporada em resgatar o apreço técnico e narrativo de The Walking Dead, mesmo que dentro de limitações de orçamento, como foi a nona temporada. Tomara que continue sendo bom assim ou melhor até o grande final!

The Walking Dead – 11X02: Acheron – Parte 2 | EUA, 29 de Agosto de 2021
Diretor: Kevin Dowling
Roteiro: Jim Barnes, Angela Kang
Elenco: Norman Reedus, Lauren Cohan, Josh McDermitt, Seth Gilliam, Khary Payton, Jeffrey Dean Morgan, Callan McAuliffe, Eleanor Matsuura, Paola Lázaro, Michael James Shaw, C. Thomas Howell, Jackson Pace, Glenn Stanton, Laurie Fortier, Okea Eme-Akwari, James Devoti, Chelle Ramos, Carrie Genzel, Marcus Lewis, Matthew Cornwell, Mariana Novak, Marcello Audino
Duração: 50 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais