Crítica | The Walking Dead #193: A Casa de Fazenda (Final da Série em Quadrinhos)

Em um mundo dominado pelos mortos, somos forçados a finalmente começar a viver.

  • Há spoilers somente das edições anteriores.

Exatamente como as grandes mortes em The Walking Dead, a longeva série mensal em quadrinhos da Image Comics acabou de surpresa, sem nenhuma preparação ou aviso prévio. A 193ª edição da saga em preto e branco iniciada exatamente em 08 de outubro de 2003 é, de acordo com anúncio de seu criador Robert Kirkman na véspera da publicação, a última. Isso até ele decidir fazer alguma continuação ou spin-off ou simplesmente preencher o espaço que ele cria aqui, com seu digníssimo encerramento.

Esse espaço vem do que descobrimos logo no começo da edição especial de 81 páginas (71 mais 10 páginas de uma despedida por escrito do autor e algumas artes): há um salto temporal gigantesco, o mais significativo da série, que nos leva para um futuro em que Carl Grimes, filho de Rick, o grande protagonista que falecera na edição anterior, já é um adulto casado e com uma filha de seis anos e vivendo na casa de fazenda do título em um mundo em que os desmortos são significativamente mais escassos. Essa escassez é tão grande, aliás, que há uma geração inteira que não os conhece, com o jovem Hershel Greene sendo dono de uma espécie de circo itinerante que apresenta os “monstros” para um público curioso pagante. Um desses desmortos escapa, anda lá pelas terras de Carl e é devidamente morto na base da espada e uma muito conhecida, aliás. Tudo certo, não é mesmo? Não. Não nesse futuro, já que Carl destruiu propriedade privada de valor e, com isso, ele vai a julgamento. Parece surreal depois de 16 anos lendo as HQs da série, mas faz sentido se pararmos para pensar, ainda que seja impossível afirmar que Carl errou.

Seja como for, a ocorrência que mencionei é o pontapé inicial, a desculpa, por assim dizer, para uma história de encerramento que tem um viés otimista, que revela um mundo em reconstrução e que passeia pelo máximo de personagens que sobreviveram todas as desgraças do passado e/ou seus descendentes, alguns reverenciando Rick Grimes e outros não, mas tudo, sempre, gravitando ao redor do legado dele, algo que Charlie Adlard materializa brilhantemente com sua arte constantemente da mais alta qualidade, sem grandes variações ao longo de todos esses anos desde que, a partir da edição #7, ele assumiu o cargo original de Tony Moore. Não é, de forma alguma, a maneira que eu, pessoalmente, acharia que Kirkman acabaria sua magnum opus, mas, talvez, a mensagem que diz que somos sim capazes de nos reinventar, de sobreviver e de melhorar, seja muito mais interessante e duradoura do que algo triste, niilista e auto-destrutivo que teria sido a minha aposta. Positivo ou negativo, o que importa mesmo, porém, é que Kirkman efetivamente dá um fim aos 16 anos em que ele nos mostrou diversas vezes – como George A. Romero antes dele – que o grande inimigo da raça humana não é externo a ela. Muito ao contrário, nosso fim está unicamente dentro de cada um nós, ainda que em graus maiores ou menores, dependendo do caso.

(1) O crime e (2) o julgamento.

Além disso, Kirkman estabelece muito claramente que The Walking Dead é Rick Grimes. Muito especulou-se qual seria o futuro das HQs sem seu protagonista – assim como especulou-se e especula-se muito sobre o futuro da série de TV sem ele – e a resposta está aqui nessa edição singela, mas bonita e edificante, que transforma Rick, merecidamente (na maioria dos casos), em uma lenda, em um homem que representa a salvação da humanidade ou, pelo menos, aquele que iluminou o caminho para que a humanidade se salvasse. No lugar de encher o derradeiro número com ação, o autor trabalha de forma contemplativa, um olhar para o futuro, sem deixar de lembrar do passado, como deve ser sempre o caso e, no processo, ele reconstrói esse seu universo da mesma forma que a expansão para o oeste – debaixo do Destino Manifesto, para o mal ou para bem – construiu os EUA, com direito a ferrovia e cidades de uma rua só.

Kirkman também aproveita para nos relembrar que não devemos esperar um apocalipse zumbi para começar a viver de verdade, para observar o comum, o ordinário, para dar valor às pequenas coisas. Cada vez mais dependemos de serviços de entrega de comida, abrindo mão da experiência de comprar os ingredientes e cozinhar. Ficamos ansiosos esperando encomendas que compramos por impulso em sites. Não mais apreciamos o que temos, pois precisamos ter o que não temos e por vezes nem podemos ter e muito menos precisamos. Isso o autor joga em nossa cara de maneira inclemente e até didática quando finalmente a narrativa que engatilha a história volta em seu final, mas esse é um daqueles momentos em que textos expositivos são realmente bons e funcionam como bem-vindos tapas na cara para acordarmos do torpor zumbificante.

The Walking Dead marcou época e será lembrado por muito tempo, provavelmente entrando no restrito panteão de séries longas em quadrinhos que marcaram, mudaram e, sobretudo, acresceram à indústria. Resta saber se, para muito além de uma história de desmortos cheia de surpresas imprevisíveis e aterradoras, soubemos extrair as lições esperadas.

The Walking Dead #193: A Casa de Fazenda (The Walking Dead #193: The Farm House, EUA – 2019)
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Charlie Adlard
Arte (tons de cinza): Cliff Rathburn
Letras: Rus Wooton
Capa: Charlie Adlard, Dave Stewart (cores)
Editoria: Sean Mackiewicz, Arielle Basich
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: 03 de julho de 2019
Páginas: 81

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.