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Crítica | The Walking Dead – 1X02: Guts

por Iann Jeliel
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Guts

“As coisas estão diferentes agora. Não existem mais “crioulos”, nem branquelos idiotas. Existem nós e os mortos. Sobreviveremos trabalhando juntos, não separados.” Guts Guts Guts

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Partindo exatamente do ponto que finalizou o excepcional piloto, Guts é o tipo de episódio que começará a estabelecer convenções a serem usadas pela série toda, enquanto estrutura narrativa e dinâmica de tramas. A primeira temporada de The Walking Dead, nas mãos de Frank Darabont, trazia muitas características do cinema romeriano, portanto, seriam elas as convenções destrinchadas nesse segundo capítulo, seguindo seus próprios termos, misturando com os princípios adaptativos e fidedignos de seu material fonte (as HQ’s). Trata-se de um episódio de núcleo, em que há uma problemática zumbi cercando um ambiente em específico, mas o principal conflito está nas relações humanas internas nesse ambiente, tensões baseadas na divergência ideológica de estereótipos ali contidos.

Não é um shopping, mas a loja de departamento onde todos os primeiros personagens secundários ficaram presos e cercados por “walkers”, é um cenário equivalente ou minimamente remetente à ambientação de O Despertar dos Mortos, principalmente considerando a escolha de personagens que farão a primeira dinâmica. Temos o negro (T-Dog), o asiático (Gleen), o mexicano (Morales), o caipira (Merle), a branca (Andrea), a negra (Jacqui) e o xerife (Rick Grimes). Tirando Rick (Andrew Lincoln), Gleen (Steven Yeun) e Andrea (Laurie Holden), todos esses personagens foram criados exclusivamente para a série de TV, e suas representações estereotipadas, principalmente considerando só este episódio, estão ali reunidas justamente para trazer o exercício de tensão entre classes sociais como destaque à frente dos zumbis.

Ora, a série será justamente sobre isso. E não pensem ser algo ruim, o melhor The Walking Dead está aí, nesse estudo sobre a desumanização natural do humano quando a caótica toma conta e o controle social não existe mais. No episódio, isso é um processo, aqueles personagens começam e são introduzidos de um jeito e terminam menos humanos porque precisam sobreviver, nem que tenham que (em olhares realistas, pensando naqueles personagens, naquele momento) esquartejar uma pessoa para que possam ter cheiro de mortos e consigam passar por eles. Esse processo vai ser prolongado em aspecto macro, já adianto, por toda a série. Uma gradual de desumanização à medida que as situações vão ficando mais extremas. Contudo, independentemente desse caminho, o podre do humano já estava presente antes do apocalipse, e Merle (Michael Rooker), dentro do seu estereótipo, representa primordialmente isso.

Talvez a maior tensão do episódio não seja a caminhada camuflada de Rick e Gleen no meio dos zumbis encobertos por entranhas – apesar de ser, sem dúvidas, o grande momento do episódio –, mas todos os acontecimentos envolvendo Merle. Desde a disseminação de preconceitos a T-Dog (Irone Singleton) e Andrea até o conflito moral que os demais personagens ficam em ter ou não que abandoná-lo acorrentado no prédio para conseguirem escapar. O episódio por meio dele mantém uma tensão constante e ainda por meio de diferentes angústias, fora a elaboração do plano de fuga dali. O legal é que antes da resolução encontrada que já mencionei, os personagens vão tentando alternativas trabalhando em equipe até chegarem na conclusão final através de uma linha singular e natural de diálogo de que valia a pena tentar disfarçar o odor, mesmo sem nenhuma certeza de sucesso, e a gente compra aquilo como uma decisão plausível.

A incerteza – por mais que narrativamente soubéssemos que ao menos Rick não iria tão cedo – traz um aspecto de vulnerabilidade formidável à dramaturgia da série. Ninguém chega a morrer nesse episódio, e nem precisava, a sinergia de qualquer coisa que podia acontecer pairava no ar a todo momento, e sentíamos a perspectiva de perda porque o desenvolvimento estava calcado diretamente nos seus arquétipos, ou seja, um desenvolvimento frontal que absorvia a personalidade e o carisma situacionalmente para uma importância dentro daquele episódio. Fora que o roteiro sempre dava flertes com inserção de intempéries que sempre tinham impressão de pista falsa. Às vezes eram, às vezes não. A chuva, por exemplo, não foi, choveu no meio da caminhada, o que forçou Gleen e Rick a saírem correndo dos zumbis, enquanto a libertação de Merle foi. O episódio inteiro ficou remoendo tanto o sentimento nos personagens que por um acaso eles perderam a chave e o deixaram algemado em cima do prédio, o que certamente gera uma ótima tensão acumulativa para os próximos capítulos – junto à tensão do piloto de Shane (Jon Bernthal) e Lori (Sarah Wayne Callies) estarem transando, o que o episódio faz questão de lembrar em sua primeira cena.

Mesmo que esse efeito romeriano na primeira temporada não crie personagens tão interessantes pensando em aspecto de continuidade seriada, traz isoladamente para cada capítulo um valor dramatúrgico único e condizente com o aspecto cinematográfico da série. Minha cena favorita do episódio nesse sentido é antes do corpo do zumbi ser esquartejado, Rick pega sua carteira rememorando a pessoa que foi transformada. É um tipo de cena que valoriza o aspecto simbólico daqueles personagens, que junto à imprevisibilidade narrativa nos dão brecha para termos sentimentos por eles, mesmo sendo desconhecidos. E se a convergência da humanidade num cenário desumano foi a chave motivacional para o pai ter criado os mortos-vivos, seu filho televisivo o deixaria orgulhoso em outro episódio.

The Walking Dead – 1X02: Guts | EUA, 07 de Novembro de 2010
Direção: 
Michelle MacLaren
Roteiro: Frank Darabont (baseado na criação de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard)
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Chandler Riggs, Michael Rooker, Emma Bell, Andrew Rothenberg, Juan Gabriel Pareja, Irone Singleton, Jeryl Prescott
Duração: 45 minutos

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