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Crítica | The Walking Dead – 1X03: Tell It to the Frogs

por Iann Jeliel
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  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Tell It to the Frogs a princípio não traz grandes movimentos para a história. O recorte temporal do episódio basicamente vai mostrar a chegada de Rick (Andrew Lincoln) e o grupo de sobreviventes que acabou de conhecer ao acampamento em que eles estavam alojados, e vai até o início do dia seguinte, quando eles em grupo decidem uma nova missão de investida a Atlanta para o resgate de Merle (Michael Rooker), abandonado algemado no terraço do prédio, como relembra a cena inicial, e de busca pelas armas de Rick caídas no meio da rua no primeiro capítulo. Ou seja, é um típico episódio de meio de temporada que mais organiza subtramas e tensões acumuladas e dá a elas novos direcionamentos que serão vistos nos próximos capítulos, em vez de avançar a história em termos práticos.

No entanto, dentro dessa função e na forma como ela é feita, Tell It to the Frogs é tão magistralmente construído que não é preciso avançar a história para que evolua narrativamente. É tudo uma questão de como preencher aquele espaço com conteúdo relevante, e o que não falta aqui é isso. A começar pela brilhante cena inicial do reencontro de Rick com sua família e todo o misto de emoções nela inclusa, a qual a experiente diretora Gwyneth Horder-Payton doma com enorme sensibilidade. Mesmo que nunca tenha sido desenvolvida a relação familiar entre eles, toda a questão simbólica da distância em um contexto improvável de apocalipse, do perdão quase que automático à crise mencionada do casamento, do encontro clássico entre pai e filho pequeno e a forma específica como a diretora junta tudo isso na filmagem, valorizando as sutilezas nas expressões extremamente autênticas de surpresa, alívio e alegria nos atores envolvidos, torna essa cena emocionalmente poderosíssima.

Lembra muito as cenas de reencontro que Lost tinha, principalmente no efeito de aconchego sobrenatural dado àquela trilha sonora, ainda que aqui seja uma trilha meio genérica para a situação, a condução passa a mesma sensação pois acreditamos no amor envolvido naquelas relações, dada a construção cinematográfica dos personagens anterior àquilo. Contudo, o melhor espectro da cena está no seu lado sombrio e no gatilho de orgulho perigoso que ela solta quando analisamos a óptica de Shane (Jon Bernthal) sobre o acontecimento. A atuação de Bernthal é ainda mais fantástica do que a do trio naquele momento porque passa um misto de espanto pela surpresa e alegria por ver que seu melhor amigo está vivo, mas também de desespero pois sabe que aquilo é o início da queda do mundinho que ele havia minimamente construído. E o ponto mais forte do episódio é como ele lida com essa ambiguidade de Shane e põe a dúvida se ela foi sempre presente ou começa a ser criada pelo mundo sem leis.

Independentemente de qual seja a resposta, fica claro que ele vai ser o primeiro a ter uma jornada clara de desumanização naquele grupo, como mostra a cena final do espancamento de Ed (Adam Minarovich), marido abusivo de Carol (Melissa McBride), que provêm da parcela romeriana do episódio, a respeito de tensões socialmente relevantes levantadas e potencializadas pelo universo zumbi, nesse caso, os relacionamentos abusivos e o papel da mulher na sociedade – o qual a diretora do episódio pelo visto conhece muito bem. Aquilo é todo um resultado de perdas da cabeça de Shane que não ficam com origens claras. Ele perde Lori, o que seria até aceitável para ele se ambos se mantivessem em paz um com o outro, mas não é possível, dada a revelação do final do episódio que foi ele que disse a ela que Rick havia morrido, e assim, ele também perde Carl (Chandler Riggs), com quem mantinha uma relação próxima quase de paternidade, além de começar a perder o controle e a liderança do acampamento para Rick, que mal chega e já começa a tomar decisões que modificam aquela dinâmica em que Shane acredita.

Ele até tenta mostrar justamente dando regulagem a Ed na fogueira no início do episódio, de que é ele que manda ali indiretamente, mas não adianta muito porque no dia seguinte Rick decide e ainda junta um grupo para o resgate de Merle. E aí lembremos do que eles conversaram no carro, antes do acidente que deixou Rick em coma, sobre os relacionamentos que estavam vivendo no momento: será que Shane mentiu por orgulho sobre a morte de Rick para conseguir facilmente ter o que sempre quis e se perturbar ao longo do episódio pela culpa de ser orgulhoso, ou porque realmente se sentiu injustiçado pela situação? Dado o quanto ele foi fundamental para a sobrevivência de Lori e Carl, o que Rick reconhece e agradece imensuravelmente, só para esquentar ainda mais o clima dessa tensão. É um arco macro simplesmente colocado de forma primorosa pelo episódio!

Sem contar que ainda nele toda essa tensão “principal” envolvendo o resgate de Merle traz consigo cenas também muito icônicas. Em especial, falo da apresentação de seu irmão Daryl (Norman Reedus), que de mero irmão de Merle passou a ser um dos personagens mais queridos da série, trocando pancadas com o xerife, junto à apresentação de outro ponto importantíssimo da fisiologia dos zumbis e o fato de só morrerem pelo cérebro. Curioso como apenas um deles tenha dado tanto trabalho para matar, mesmo praticamente todos os homens do acampamento em cima dele, e esse fato, junto ao fato de ele estar chegando nas montanhas que antes não chegavam, já cria outra tensão interessante para o futuro próximo da temporada. Fora a tensão deixada por Rick, que nem pensa duas vezes em largar a mulher e o filho novamente para cumprir seu senso de justiça, com Daryl, com Merle, com Morgan – que estava indo para Atlanta – como se tudo fosse tão fácil de dar certo.

Ora, mas é claro que The Walking Dead iria fazer questão de mostrar que não seria tão fácil assim. Mesmo com o cenário favorável de apenas um dia de diferença e com cadeado protegendo Merle dos zumbis, o quarteto voluntário Rick, Daryl, Gleen (Steven Yeun) e T-Dog (Irone Singleton) ao chegar no telhado se depara apenas com sua mão decepada, acabando o episódio ali junto ao total descontrole emocional de Shane. Fica claramente aquele gosto de que as coisas geralmente não vão sair como nos planos dos personagens. Melhor do que ver como no mesmo episódio, é imaginar o que mais pode dar errado no próximo, tanto em relação a essa missão quanto em relação ao descontrole de Shane. Por isso que digo e repito, não é preciso contar muito para contar bem uma história.

The Walking Dead – 1X03: Tell It to the Frogs | EUA, 14 de Novembro de 2010
Direção:
Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: Frank Darabont, Charles H. Eglee, Jack LoGiudice (baseado na criação de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard)
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Norman Reedus, Chandler Riggs, Michael Rooker, Emma Bell, Adam Minarovich, Melissa McBride, Andrew Rothenberg, Juan Gabriel Pareja, Irone Singleton, Jeryl Prescott, Madison Lintz, Maddie Lomax
Duração: 45 minutos

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