Home TVEpisódio Crítica | The Walking Dead – 1X04: Vatos

Crítica | The Walking Dead – 1X04: Vatos

por Iann Jeliel
451 views (a partir de agosto de 2020)

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

O curioso de escrever textos de The Walking Dead em sua primeira temporada, com a série já nos finalmentes de sua décima temporada, é perceber as origens de certos maneirismos e quanto eles eram eficientes, mesmo que tempos depois se tornaram um amálgama para a série passar a ser duramente criticada. Em Vatos temos o primeiro episódio em que o grupo de Rick (Andrew Lincoln) confronta uma outra sociedade formada no apocalipse – premissa essa que posteriormente seria usada como mote de temporadas inteiras –, além de ser a primeira vez que a série utiliza-se de um desenvolvimento estratégico de um personagem específico para ele morrer pouco tempo depois, e sua morte ter mais impacto na narrativa, algo que a série cansou de tanto fazer, que já estava previsível, quando algum personagem ganhava um bom destaque era porque sua morte estava próxima, e voilà, estava mesmo.

Felizmente, dentro da estruturação da temporada, essas características singulares não se comportam como uma fórmula porque existe uma inserção precisa de ambas, em diferentes núcleos, para promover uma continuidade coerente à crescente de vulnerabilidade e descontrole dos personagens com o cenário. Não só Merle (Michael Rooker) não é encontrado nos prosseguimentos do ótimo gancho deixado pelo episódio anterior – gancho que se estenderá para outro momento da série – como a bolsa de armas deixada na rua por Rick em Days Gone Bye é encontrada por outras pessoas porque não existe mais a lei de pertencimento no universo zumbi. A briga por recursos traz uma questão moral forte para o episódio, é um iminente conflito de aparências construídas pela terra sem lei. É inteligentíssimo como Frank Darabont subverte esse conflito para começar a desenvolver seus personagens para além dos estereótipos usados na introdução da série, porque de fato, a lição aqui está no famoso “as aparências enganam”.

E isso está em todo o espectro do episódio, desde os elementos mais simples, como Daryl (Norman Reedus) começar a mostrar seu lado sensível e honrado ao escutar os planos de Rick – diferente de seu irmão, apesar de ambos serem colocados como caipiras preconceituosos no início –, até a ideia de apresentar o que os personagens eram antes do apocalipse acontecer, Gleen (Steven Yeun) que era um entregador de pizza, e os aparentes ladrões das armas (mexicanos) terem sido um zelador e um enfermeiro que não decidiram abandonar um asilo de idosos quando todo mundo já olhava para eles como mortos. Portanto, o conflito dos Vatos, apesar de ser uma introdução de um tipo de intempérie complicada que pode surgir no caminho (os próprios humanos), fornece muito mais um material discursivo e um teste de perda ou continuidade da humanidade àqueles personagens (Rick principalmente) do que um novo desafio com que o grupo do acampamento precisa lidar à frente, até porque os Vatos são resolvidos dentro do próprio episódio. E o próprio Merle também é, apesar de ficar a impressão de que foi ele quem roubou a caminhonete do quarteto que foi resgatá-lo no final, e se foi, não foi para ir em busca de vingança como mostra o fim derradeiro do capítulo, quando ele não aparece.

Contudo, antes de falar desse final que certamente traz a cena mais impactante do episódio, é preciso comentar a primeira cena e como ela articula o arco que gerará o impacto ao ataque dos zumbis no acampamento. A cena do lago estabelece uma continuidade de desenvolvimento à relação das irmãs Amy (Emma Bell) e Andrea (Laurie Holden), a qual já havia sido mostrada que era muito forte na cena de reencontro no último episódio, e agora ganha um caráter mais próximo justamente para que se tenha uma maior parcela de empatia por aquelas personagens em um aparente crescimento de ambas no desenvolvimento da série. No entanto, a cena acaba com um take de Jim (Andrew Rothenberg) cavando buracos em formato de covas, já entregando o destino de uma das duas, mas ao mesmo tempo no desenvolvimento do episódio, sendo um desvio para não tornar o mini arco desenvolvido ali nas entrelinhas, com o aniversário de Amy no dia seguinte e Andrea querendo prepará-la um presente, tão óbvio a uma iminente preparação de tragédia.

Funciona, ao cavar aquelas covas, Jim acaba chamando mais atenção e ganhando um próprio desenvolvimento também, na ambiguidade do que o motiva a cavar compulsivamente no calor do dia, mas confesso que hoje, com a motivação não tendo nada a ver com traumas específicos do personagem, não parece o melhor dos desvios. A explicação de ser uma alucinação coincidente com um sonho que teve de que várias pessoas iriam morrer leva The Walking Dead a um aspecto espiritualista que nunca mais apareceu e nem foi surgido como tal, é apenas uma justificativa mágica do roteiro para deixar tudo fechadinho. Ao menos, como dito, como função dá certo. A morte no final de Amy continua impactante por não ser previsível, mesmo com tudo no texto indicando, fora que a forma visceral como Johan Renck conduz o ataque ajuda muito com a sensação desesperadora de que qualquer personagem pode ir a qualquer momento, mesmo que as mortes mais relevantes, nesse caso, tenham sido preparadas antes, como a de Amy e a de Ed (Adam Minarovich), o marido abusivo espancado por Shane (Jon Bernthal) no último capítulo.

É um fechamento melhor que o episódio como um todo, é verdade, talvez o “menos bom” da temporada, pelos inerentes maneirismos que ele possui e algumas especificações na sua construção. Os Vatos, apesar de fugirem dos grupos vilanescos clichês do restante da série, estão entre os menos interessantes que apareceram nela, e a morte de Amy, apesar de bem-construída e visualmente brutal, possui esse sub-arco desinteressante das covas como empecilho. No fim, Vatos é ainda um ótimo episódio, correspondente ao nível de excelência do restante da série.

The Walking Dead – 1X04: Vatos | EUA, 21 de Novembro de 2010
Direção:
Johan Renck
Roteiro: Frank Darabont (baseado na criação de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard)
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Norman Reedus, Chandler Riggs, Emma Bell, Adam Minarovich, Melissa McBride, Andrew Rothenberg, Juan Gabriel Pareja, Irone Singleton, Jeryl Prescott, Madison Lintz, Maddie Lomax, Noel Gugliemi, Neil Brown Jr., Anthony Guajardo, Gina Morelli, James Gonzaba
Duração: 45 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais