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Crítica | The Walking Dead – 1X05: Wildfire

por Iann Jeliel
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Wildfire

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. Wildfire Wildfire

Costumo pensar nessa primeira temporada de The Walking Dead mais como um grande filme de Frank Darabont dividido em seis capítulos do que uma adaptação direta das HQ’s de Robert Kirkman. Não só pelos desdobramentos diferentes, aspectos romerianos de estudo social e produção de escala cinematográfica, mas principalmente pelas escolhas estruturais que dividem a narrativa em três atos muito evidentes, que indicam claramente um plano inicial de The Walking Dead ter sido, na verdade, uma minissérie, que fecharia a história que queria contar em seis episódios ou menos. E digo “menos” porque Wildfire é essencialmente o capítulo mais complementador desta primeira temporada pensando numa longevidade do produto, pois a trama pausa para explicações sobre a fisionomia dos mortos-vivos, dentro de uma alongada preparação a caminho do local onde aconteceria a climática desse “filme”.

Contudo, ainda que seja o capítulo com mais aparato de filler, não deixa de ser interessante como a série o encaixa de maneira orgânica no caminho da temporada. Ao explorar as consequências de modo direto do ataque ao acampamento no final do episódio anterior, abre-se uma margem para apresentar diferentes formas de mortes por zumbis – mais especificamente dois, aquele que morre e é mordido, virando zumbi (Amy), e aquele que somente é mordido, mas se mantém vivo (Jim) – e explicá-las de modo didático, sem precisar ser muito expositiva, pela coerência com a decisão dos personagens de se arriscarem a ir ao C.D.C, que naturalmente seria o lugar para essas respostas acontecerem. O prenúncio aqui não só já cria um presságio iminente dessa decisão ser errada no futuro como também possibilita novos passos no conflito de humanização do grupo, que começa a ficar cada vez mais dividido.

É nesse episódio que Shane (Jon Bernthal) se desentende com Rick (Andrew Lincoln), frente a frente pela primeira vez, com Shane apontando a arma diretamente para o amigo e com um olhar psicótico de quem estava louco para puxar o gatilho. Se lembrarmos bem, Shane estava preocupado em perder o posto de liderança ali, e a missão de resgate ao Merle (Michael Rooker) surge como um argumento perfeito para tentar desvalorizar Rick diante das mortes que ocorressem. Rick, no entanto, tem o ponto de que se não fossem as armas, as consequências seriam piores. Pegue esse argumento e junte ao flagra de Dale (Jeffrey DeMunn) do personagem apontando a arma para Rick; Shane é momentaneamente desarmado e levado a apoiar Rick para fazer média, inclusive de maneira conflituosa consigo mesmo. Havia substância para levar esse embate além, mas como a série não se fecharia por ali, a base desse conflito só seria puxada novamente na próxima temporada.

A qualidade dramatúrgica do episódio não está nesse arco, mas, por incrível que pareça, nos arcos direcionados às explicações da funcionalidade do vírus, já que de modo geral eles são desenvolvidos de modo síncrono, até para as explicações ficarem disfarçadas. O drama de Andrea (Laurie Holden) em não matar e não deixar ninguém atirar na cabeça da irmã (Emma Bell) antes que ela vire zumbi não só está lá para mostrar o processo de transformação como também desenvolve a personagem e progride uma nova camada do conflito de humanização iniciado por Morgan (Lennie James) no primeiro episódio, sobre a dificuldade que é desapegar-se daquela representação monstruosa que não é mais um humano. Enquanto isso, Jim (Andrew Rothenberg) foi mordido não só para mostrar como ocorre a morte pela infecção como para dar um pouco mais de significado ao fato de ele ter cavado as covas (podia ser uma premonição de sua morte em especial, o que é bem mais plausível dada a consciência), e também para ser outro exemplo da fórmula da série, que desenvolve bem um personagem em específico para matá-lo em seguida, e sua perda ser impactante.

Não que a morte de Jim seja tão impactante assim, mas ela é das mais simbólicas como representação do abandono da humanidade. A inserção de Sunshine (Adagio In D Minor) traz muito esse sentimento, a batida épica da canção traz a despedida do acampamento para um nível quase transcendental. É como uma partida para uma nova dimensão, em que a única certeza é que civilização ficará para trás. Sem dúvidas, a cena mais forte do episódio junto à fantástica sequência nos portões da C.D.C., mesmo já tendo a informação de que existia alguém ali dentro, apenas um cientista que parecia testar as propriedades do vírus, a construção de tensão deixa a dúvida até o último minuto, na primeira das várias epifanias maravilhosas de Andrew Lincoln esgarçando desespero e angústia num dos seus vários e marcantes monólogos.

A porta se abrindo com a luz apanhando todos aqueles personagens é a segunda memória positiva de inspiração a Lost, um gancho muito parecido com o de John Locke em Deus Ex Machina recebendo a luz da escotilha como a última esperança naquela série do destino, e nesta, da humanidade que o próprio episódio melancolicamente havia colocado poucos minutos atrás como perdida. Esse final incrível e o gancho simplesmente fenomenal para o último capítulo colocam Wildfire para mim como um pouco melhor que Vatos, ainda que sejam episódios de mesmo patamar que como toda a temporada jamais abandonam a excelência em qualidade.

The Walking Dead – 1X05: Wildfire | EUA, 28 de Novembro de 2010
Direção:
Ernest R. Dickerson
Roteiro: Glen Mazzara (baseado na criação de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard)
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Norman Reedus, Chandler Riggs, Emma Bell, Adam Minarovich, Melissa McBride, Andrew Rothenberg, Juan Gabriel Pareja, Irone Singleton, Jeryl Prescott, Madison Lintz, Maddie Lomax, Noah Emmerich, Viviana Chavez
Duração: 45 minutos

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