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Crítica | The Walking Dead – 2X01: What Lies Ahead

por Iann Jeliel
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What Lies Ahead

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. 

“Ei, eu não preciso de todas as respostas. Só um aceno. Um sinal!” What Lies Ahead

Rick Grimes” 

Após um final ironicamente “otimista” de primeira temporada, em que o grupo conseguiu fugir do C.D.C antes de explodi-lo, garantindo uma nova chance de a sobrevivência lá fora, What Lies Ahead inicia a segunda temporada, literalmente, mostrando o que vem daqui para a frente: um cenário de completo pessimismo e vulnerabilidade daqueles personagens perante a grandiosidade daquele universo zumbi. Se a premissa antes baseava a narrativa em uma progressão concreta do ponto A (acampamento) até o ponto B (C.D.C), na fé de encontrar o resgate, aqui, quando é proposto uma continuidade disso a um ponto C (Forte Benning – um novo porto-seguro), logo de cara, o roteiro a quebra, em forma de uma aparente sequência de situações casuais como um mero desvio de atenção – há quem diga que aqui começou a enrolação de The Walking Dead, particularmente uma afirmação que acho absurda –, valorizando o foco de sobrevivência, mas que por trás, denomina a dramaturgia com outra potência, quando é reunida aos conflitos internos e desgaste moral daquelas pessoas.

Trata-se sim de um drama acumulativo e contínuo dos eventos e perdas anteriores, só que reiniciado, diante de uma circunstância até mais banal, justamente para derrubar o senso conjunto ou isolado restantes de esperança contida naquele grupo. Só que o melhor dessa construção cética, é como ela começa despretensiosa e aos poucos vai se energizando em densidade na medida que os eventos ficam sequencialmente mais frustrantes. Todo o clima melancólico da ligação de rádio do Rick (Andrew Lincoln) para o Morgan (Lennie James) dizendo que vão abandonar a Atlanta é uma pista boa da caminhada pessimista. Quem é inocente, se depara com essa cena e acha que no fim dos episódios eles podem se encontrar, mas quando olhamos para o Rick optando por não contar a ele o que o cientista Edwin Jenner (Noah Emmerich) o contou – ou seja, sem contar pra nós –, dá pra sentir que é ali onde mora o verdadeiro plot da temporada – e realmente era e ele irá fechar o raciocínio negativo, mas falaremos disso depois. Fato é, que é impressionante mencionar, o quanto The Walking Dead no início possuía atmosfera, ele conseguia colocar um cemitério de carros como o cenário mais hostil do planeta.

Os problemas, na verdade, começam a surgir já dali. Um radiador superaquece e eles são forçados e tentados, a explorar aquele mar de veículos em busca de recursos. A direção conjunta de Gwyneth Horder-Payton e Ernest Dickerson cria boas distrações nos primeiros quinze minutos ao desenvolver aqueles personagens explorando os carros e pouco a pouco se separando, sendo posicionados geograficamente em posições estratégias perigosas, onde a demora de avanço das cenas é igualmente proposital, para colocar a sensação de nervosismo crescente do que pode acontecer. O mar de carros, logo vira um mar de mortos. Um mar bem modesto, é verdade, principalmente diante do que veríamos em temporadas posteriores, mas por ser uma primeira vez (tá, houve do acampamento, mas foi diferente, aqui realmente foi onde apareceu o primeiro bando grande de zumbis), ainda com todos os personagens em nível de seres humanos, dentro de um terreno de imensa coragem da série em inserir elementos do acaso no roteiro para prejudicá-los, torna essa uma das melhores sequências de tensão da série inteira, eu diria.

Como a filmagem não esconde os detalhes da sequência, mostrando grupo se escondendo debaixo dos carros e esperando cada zumbi passar, fora outras microssituações, como Andrea (Laurie Holden) presa no banheiro com um deles à espreita (cena fantástica!) ou o T-Dog (Irone Singleton) com um ferimento passível de morte tendo que usar junto a Daryl (Norman Reedus), um walker por cima do corpo para escapar da manada, sentimos está presenciando toda situação junto a eles. Quando tudo começa a ficar calmo e a direção é perfeita na manipulação desse sentimento de que passou, Sofia (Madison Lintz) si cedo demais da proteção debaixo do carro e é avistada por dois únicos zumbis, que começam a persegui-la pela floresta. Rick, sem pensar duas vezes, vai atras de resgatá-la, mas uma pena, que ele ainda não era o Rick badass do futuro, já que pena bastante para derrotá-los, tendo que se separar da Sofia para conseguir separar os zumbis e assim conseguir matá-los – algo impensável com o que o personagem se tornou depois. Na separação, temos um frame que evidência Sofia não o obedecendo, saindo do local nas árvores onde ela deixou, cortando depois que Rick esmagar os zumbis para lá de novo, só que com ela desaparecida.

E aí pensamos, esse será o restante do plot do What Lies Ahead… Bem, sim e não. Sim, porque a procura obviamente se torna pauta, conflitante ao fato de que eles têm de sair daquele cemitério o mais rápido possível. Não, porque na prática não é essa premissa que toma em conta da tela, mas sim o julgamento consequência. A partir da metade, o episódio passa a tocar em dramas acumulados anteriores, só que respaldados diretamente ao questionamento local do episódio, do sacrifício da moral de um para manter a esperança de todo o grupo. Andrea e Shane (Jon Bernthal), um pouco mais deslocados dos demais nesse sentido. Tanto que são eles que pegam essa parcela da tela e depois pensam em se juntar para fugir dali. Andrea tem seu conflito com Dale (Jeffrey DeMunn) por ele não a deixar carregar ou não uma arma, com medo de que ela queira se matar pois era o que ela iria fazer no C.D.C e não fez para poupar a vida dele – algo que faz link ao problema do momento. Shane por outro lado, vem se autodepreciando no processo de desapego aos sentimentos que adquiriu por Lori, descontando um pouco disso na sua relação com Carl (Chandler Riggs). Algo que Lori (Sarah Wayne Callies) o questiona, por está prejudicando esse sentimento de união que o grupo precisa ter naquela situação de Sofia – novamente o link – que vira uma prioridade mote para esses outros conflitos não explodirem.

Dale é fundamental para isso quando mente a todos dizendo que o motor não está preparado no dia seguinte de busca a Sofia, ele sabe que aquilo seria motivo de uma explosão no grupo, que certamente começaria a se questionar o valer a pena de procurar Sofia. Lori é outra que ao final, dá sua colaboração ao reiterar a Carol (Melissa McBride), o fardo nas costas de Rick, mesmo que ela não houvesse culpa também de culpá-lo pelo desaparecimento da filha. É interessantíssimo como nessa missão, depois de várias e frustradas tentativas de encontrá-la, a finalização seja numa igreja com o desabafo desses dois personagens. Carol abalada, pede perdão por ter desejado a morte do marido (Adam Minarovich) abusivo e mesmo com ele já morto, volta a suas amarras de culpa, enquanto Rick, o mais cético dali, antes e durante o apocalipse, apesar de carregar os últimos fios de esperança, implora pela figura divina por um sinal que dê motivo de esperança. Se realmente Sofia fosse ou mesmo o encontro com Morgan lá da primeira cena fosse o plot, esse episódio acabaria com o Carl olhando o cervo de perto e ficaria o gostinho de esperança para nós próximos, as coisas se acertarem, afinal é uma season premiere, não dá para entregar tudo, para o bem ou mal, de uma vez só. Certo?

The Walking Dead diferente do que diz algumas pessoas, essa época era extremamente pragmática – ainda que engane em episódios seguintes com a mínima de possibilidade de ou o Morgan aparecer, ou a Sofia ser encontrada – e já deixa muito claro que o cenário é daí para a pior. O tal sinal divino que Rick buscava vem na forma de um tiro absolutamente aleatório no cervo que leva Carl junto, finalizando o episódio com um gancho absolutamente chocante e imprevisível para o futuro próximo, visto que, nessa época, dada a vulnerabilidade extrema aos personagens, as chances daquilo se converter em morte, mesmo sendo o filho do protagonista eram gigantes. Então, para quem julga a segunda temporada e a época What Lies Ahead dentre outros episódios foram julgados por enrolação, pense no que ele apresentou e corresponda ao que aconteceu adiante na temporada. Nunca foi sobre encontrar a Sófia, mas sim sobre o que não a encontrar iria desencadear. A esperança, simbolizada por ela como criança inocente e futuro da humanidade, a partir de agora, desapareceu. Veremos, até onde, ou o que esses personagens irão se tornar, sem ela.

The Walking Dead – 2X01: What Lies Ahead | EUA, 16 de Outubro de 2011
Direção: Ernest Dickerson, Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: Robert Kirkman, Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Irone Singleton, Madison Lintz
Duração: 68 minutos

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