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Crítica | The Walking Dead – 2X03: Save the Last One

por Iann Jeliel
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Save the Last One

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead. 

Save the Last One pode até ser um episódio repetitivo dentro de seu principal escopo discursivo, ainda que seja um aprofundamento sobre esse dilema sempre presente de valer a pena ou não, lutar para viver nesse mundo apocalíptico. No entanto, The Walking Dead estruturalmente começaria a investir em certas dinâmicas na sua montagem, que tornariam esses princípios de roteiro requentados para uma pequena evolução justamente como um disfarce dentro de uma nova estimativa de desumanidade de algum personagem. Nesse caso, estamos falando da bombástica atitude de Shane (Jon Bernthal) em matar a sangue frio Otis (Pruitt Taylor Vince), como uma escolha mais “fácil” diante da circunstância, desesperadora de ter de levar os equipamentos para salvar Carl (Chandler Riggs).

O episódio já captura nossa atenção como uma primeira cena dele carreira no banheiro raspando o cabelo, indicado diretamente sua sobrevivência ao gancho do encurralamento que ficou no episódio passado, mas incitando a curiosidade para saber por qual contexto ele escolheu mudar de visual. Depois disso, a montagem do episódio brincará quase que sacanamente, em todas as cenas que ele aprece, elementos que justificariam sua atitude, mas somente por pequenos flashs. Se essa escolha diminui a intensidade do episódio, algo relativamente proposital, ela é a responsável pelo efeito de virada derradeiro para a caminhada de sua vilania seja tão impactante. E aí, eu digo que é relativamente, porque no fundo, essa montagem só se justifica para o parâmetro de focar na continuidade do desenvolvimento dos personagens, especialmente de Rick (Andrew Lincoln) e Lori (Sarah Wayne Callies) sobre a situação de Carl. Não deixa de ser verdade, ainda que no fundo eles que são os secundários ao final quando tem a virada.

Sendo ou não, o desenvolvimento é bem orquestrado na continuidade. Há um belíssimo diálogo entre os dois no quintal falando justamente sobre se vale a pena lutar para mantê-lo vivo, sendo que o futuro que o reserva é só de desgraça. Até que ponto vale querer salvar Carl ou procurar Sofia (Madison Lintz), se ambos cresceriam tendo uma percepção moral completamente distorcida da sociedade, perdendo a capacidade lúdica da infância, sem projeções otimistas de vivências. Lori questiona isso em Rick que oferece a resposta do cervo como rebate plausível naquele momento, visto que Carl acorda e a primeira coisa que ele fala não é sobre ter levado um tiro e sim de ter chegado tão perto do animal. O episódio aproveita esse debate e retoma parcialmente o dilema de Andrea (Laurie Holden), que é basicamente o mesmo depois que sua irmã morreu. Bota-la para interagir com Daryl (Norman Reedus) foi uma sacada circunstancial inteligente para fechar sua dramática anterior e jogar seu desenvolvimento para frente como uma futura personagem importante com tomadas próprias de decisão.

Resolve-se seu conflito com Dale  (Jeffrey DeMunn) e a arma que ele pegou, deixando claro que Andrea vai seguir em frente, além de aproximar Daryl e Carol (Melissa McBride) pela primeira vez, com essa empatia que o caipira fodão adquiri a ponto de sair a noite para procurar sua filha. Interações simples que parecem não avançar a história, mas trazem um background muito rico posteriormente. Gleen (Steven Yeun) e Maggie (Lauren Cohan) interagem a primeira vez nesse episódio, onde um dá suporte ao outro a melancolia dos tempos difíceis que vivem. Já de cara, há uma sutil e interessante tensão sexual ali estabelecida na continuidade do debate de valer a pena ou não viver, ligada ao censo religioso também captado pela temporada no What Lies Ahead. “Quantos foram os que rezaram e não foram atendidos?”, questiona Maggie. O roteiro dessa segunda temporada era realmente afiadíssimo nos diálogos, até nos seus momentos mais calmos, que quando beiram a ficar demais, a montagem intercala novamente com um novo trecho de tensão. Nesse caso, com Shane e Otis lutando para fugir dos zumbis, colaborando a trazer as sequências de ação do episódio, que sempre eram muito decentes na proposta inicialmente realista (recarregamento da arma, cansaço pelo peso carregado, torção no tornozelo após queda alta).

Em derradeira cena dos dois fugindo quase sem balas, corta para Carl sofrendo uma convulsão e Hershel (Scott Wilson) dizendo que não há como esperar mais para a cirurgia. No mesmo momento Shane chega sozinho com os equipamentos, dizendo que Otis não conseguiu sobreviver. Até compramos essa ideia no princípio, porque a tensão estava mais em Carl, mas o foco pouco a pouco vai sendo direcionado em Shane e as fantásticas expressões ambíguas de Jon Berthal. A comemoração da possibilidade e vida de Carl, ganha ares estranhamente fúnebres que ganham total sentido quando se fecha a montagem na cena inicial do banheiro, revelando como que Otis não sobreviveu. Não só fica a tensão por Shane em ser descoberto futuramente, mas de Shane em saber que ele passou de uma barreira e que está disposto a fazer tudo para o bem do grupo… ou será só da Lori? Há uma cena que ele a observa junto a Carl recuperado, que fica muito implícito o que lhe motivou. E não, não foi apenas salvar o filho do seu melhor amigo, mas principalmente, a chance de reconquistar a mulher dele, a qual se apaixonou, provavelmente sobre qualquer custo.

Save the Last One pode até ter um gancho melhor do que episódio total, mas seu cliffhanger definitivamente o alavanca, junto ao aumento de potencial para o resto da temporada, com Shane – particularmente meu personagem favorito da série – virando essa chave de maneira espetacular.

The Walking Dead – 2X03: Save the Last One | EUA, 30 de Outubro de 2011
Diretor: Phil Abraham
Roteiro: Scott M. Gimple, Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Irone Singleton, Lauren Cohan, Pruitt Taylor Vince, Scott Wilson, Jane McNeill
Duração: 43 minutos

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