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Crítica | The Walking Dead – 2X07: Pretty Much Dead Already

por Iann Jeliel
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Pretty Much Dead Already

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Lembro muito bem da primeira vez que assisti Pretty Much Dead Already, o episódio que diria ser o responsável, por me tornar fã dessa obra deliciosa apocalíptica. Como não comecei a assistir a série na época exata do lançamento, ou seja, não acompanhei o clima de episódios semanais, imagino que o impacto diante do efeito buscado pela construção dos capítulos anteriores e relativamente contestados por suposta enrolação, dessa primeira parte da segunda temporada, ficou devidamente intensificado pela sequência em maratona, sem a desvantagem de esvair com o tempo estimado entre o lançamento de um novo episódio, por vezes, baixando a poeira de uma narrativa que ainda estava buscando essa conexão mais próxima com o público e seus personagens, numa continuidade aparentemente pouco sequencial de eventos.

A primeira mid season finale, certamente foi um divisor de águas nesse sentido, ao resolver a penca de conflitos e expectativas plantadas (os) anteriormente e enfim, explodi-las para um caminho definitivo onde a imoralidade se torna um princípio fundamental de sobrevivência. Como dito na crítica passada, Secrets já havia preparado o terreno para haver essa explosão com o último segredo dos zumbis no celeiro a ser descoberta pelo grupo e não enrola muito em trazer teias de outros eventos a culminar nessa revelação, como foi no episódio anterior. Logo de cara, Gleen (Steven Yeun) solta a bomba e o clima já volátil entre todos do grupo tem sua intensificação imediata, especialmente pela parte de Shane (Jon Bernthal), que já vinha numa construção separada de descontentamento com a posição de liderança de Rick (Andrew Lincoln) pelo pouco pragmatismo adotado pelo amigo na resolução de problemas, por vezes, criados circunstancialmente por ele, quando abraça um suposto pretexto de responsabilidade moral equilibrado, “obrigatório” enquanto líder.

Rick passa boa parte do episódio, ainda tentando convencer democraticamente Hershel (Scott Wilson) de que eles não podem serem expulsos da fazenda, principalmente por conta da gravidez Lori (Sarah Wayne Callies), mesmo que o senhor, a partir do momento que sabe que todos estão sabendo do celeiro, parece decidido que o certo é mandar o grupo de volta para o apocalipse, em que eles possam encontrar a “própria fazenda”, para terem a liberdade ideológica que ele não abre mão, de acreditar que os zumbis são pessoas doentes ao invés de mortos sem alma, com alguma salvação possível, seja médica ou divina. Descobrimos mais sobre a motivação do personagem quando Maggie (Lauren Cohan) vai confrontá-lo sobre essa decisão irredutível, usando seu pretexto de humanização que o faz até resgatar zumbis, ou no caso as “pessoas” em sua cabeça, como descobrimos mais a frente no episódio, que não são teoricamente de sua responsabilidade de salvamento, para evidenciar a hipocrisia que ele teria ao querer mandar o grupo de Rick embora do seu território, sem querer se responsabilizar sobre o futuro provavelmente mórbido consequência dessa decisão, como expõe sua filha ao contar de que foi atacada e quase morreu para um deles na farmácia.

Aquele ataque serviu perfeitamente como derrocada para ela perdoar Gleen pela atitude de ter contado para todo mundo tão facilmente. O roteiro devidamente converte o fato deles estarem cada vez mais gostando um do outro, para resolver a “traição” de confiabilidade de maneira plausível a confirmar o romance, algo colocado como premissa para uma aliança dos grupos posteriormente ao que se desdobrará aos eventos seguintes, conduzidos por Shane. O personagem, além de descobrir que Lori está gravida é novamente negado por ela, desta vez, também pelo suposto direito que ele tem sobre a “guarda” da criança, considerando as chances de ela ser dele e não de Rick. Aliando esses fatores ao fato de Rick não está tomando uma atitude mais urgente para o caso do celeiro, Shane passa por uma escalada de rebeldia, buscando resolver a situação a sua maneira. Dale (Jeffrey DeMunn)  inclusive, meio que antecipa esse movimento, tentando esconder as armas no pântano para impedir que Shane no calor do momento tome uma atitude irracional antes que Rick e Hershel se resolvam, mas não adianta muito.

E se a tensão já não estava suficiente quando tememos pela vida de Dale como aquele olhar sociopata de Shane idêntico a cena do espelho após matar Otis (Pruitt Taylor Vince), ela passa a ser constante quando o personagem explode completamente no temperamento, chamando todos do grupo para fazer a limpa no celeiro, assumindo o discurso de liderança no mesmo momento em que Rick chega de uma missão de captura dos zumbis com Hershel, que pretendia analisar a partir dali a obediencial de Rick com relação aos seus costumes, independente da concordância ou não. Abre-se o espaço, para uma das sequencias mais catárticas da série inteira, onde Shane atira nos zumbis na frente de Hershel, perplexo ao ver que eles se mantem em pé, tomando um choque de realidade perante a sua crença, que ainda não tinha sido testada. A carga emocional chega ao topo quando o celeiro é aberto e todo o grupo começa a atirar nos zumbis perante a reações incrédulas da familia de Hershel sobre a violência direcionada a aqueles que eles ainda acreditavam ser seus familiares, no entanto, ainda teríamos a cereja do bolo ao descobrir que a desaparecida Sophia (Madison Lintz), estava lá dentro o tempo todo.

Há quem diga que tal reviravolta seja facilmente telegrafada pelo pouco disfarce levantado pelo episódio quando vai no núcleo de Daryl (Norman Reedus) e Carol (Melissa McBride), que novamente discutem as possibilidades e esperanças de encontrar ela viva, sem exatamente saírem em alguma missão de procura novamente. De duas, uma, ou a resolução desta trama seria pulada para a próxima metade da temporada, que se fosse apresentar uma resolução pessimista, seria simplesmente a encontrar morta e pronto, algo que seria extremamente frustrante, ou ela estaria no celeiro. Mas o episódio é tão bem construído que só pensamos nessa possibilidade quando acontece, quando a brilhante direção da experiente Michelle MacLaren, vinda de nada mais nada menos de Breaking Bad, propõem uma pausa longa ao final do último zumbi morto, num close-up de lenta revelação a criança zumbi saindo do celeiro, imageticamente de forma alusória a aquela que Rick mata no estacionamento lá no piloto da série.

Um espelhamento perfeito para promover o primeiro passo da transformação de Rick, condicionada pelo restante da temporada, ao verdadeiro “tipo de homem” para esse mundo praticamente morto – dicotomia dele com o Shane discutida durante todo o capítulo e de onde saí o título Pretty Much Dead Already. Ele percebe também por este choque de realidade, observando a reação de Carol desesperada vendo a filha daquele jeito (ela e o Daryl precisavam está nessa cena, justificando o porquê de eles não terem saído em outra missão), vendo Lori protegendo seu filho Carl (Chandler Riggs) das imagens que retirariam toda a esperança que o fez confrontar o ceticismo de Shane mais cedo, tal como o pai, convencido que valia a pena continuar buscando a menina, dentre um turbilhão de emoções refletidas por ele naquele momento vendo a consequência de seus atos “benevolentes”. A partir dali não daria mais realmente para ser essa pessoa, tanto que depois de fazer a leitura, toma a dianteira autoritária da situação e fecha a matança colocando uma última bala na cabeça de Sophia zumbificada.

É uma conclusão arrebatadora, de deixar qualquer um completamente investido na história e no que vier dela daqui para frente, como foi meu caso, mas que se mantém igualmente poderosa numa revisitada, onde pode-se perceber mais claramente que Pretty Much Dead Already faz muito mais do que recompensar esperas e expectativas, como alavanca The Walking Dead enquanto dramaturgia para outro patamar, representando o ápice da segunda temporada, que por sua vez, representa a máxima da qualidade que a série atingiu até hoje.

The Walking Dead – 2X07: Pretty Much Dead Already | EUA, 27 de Novembro de 2011
Diretor: Michelle MacLaren
Roteiro: Scott M. Gimple, Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Jeffrey DeMunn, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Irone Singleton, Madison Lintz, Lauren Cohan, Emily Kinney, Scott Wilson, Jane McNeill, James Allen McCune
Duração: 43 minutos

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