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Crítica | The Walking Dead – 2X10: 18 Miles Out

por Iann Jeliel
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18 Miles Out

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

18 Miles Out poderia ser facilmente o episódio de season finale desta segunda temporada e confesso que em algum lugar do meu subconsciente, eu gostaria que ele fosse realmente. Mesmo que os capítulos subsequentes consigam ser ainda melhores. Mesmo sendo inviável em termos adaptativos, afinal o envolvimento de Robert Kirman na produção dificilmente mudaria os rumos destinados ao embate entre Shane (Jon Bernthal) e Rick (Andrew Lincoln), apesar de já ter mudado o de Sophia (Madison Lintz) por exemplo, que viveu bem mais tempo nos quadrinhos, Esse caso, era diferente, foi um elemento surpresa para os acompanhadores da série vindo das HQs e um movimento que não alteraria tanto a timeline primordial dos eventos da história unitária entre as diferentes mídias. Fora que o caso de Sophia foi elaborado desde o início da temporada, assim como, o que tudo indicava, o maior desenvolvimento de cada um dos xerifes para a derradeira resolução possuísse mais peso dramático, a meu ver, praticamente ausente nas páginas do gibi.

Shane é meu personagem favorito da série até hoje. Acho que a série deve muito a forma como ele foi desenvolvido para alavancar outros personagens, especialmente o Rick a um próximo passo de mentalidade de sobrevivência no apocalipse. Um passo que só era possível de ser realizado com a morte de Shane, diante do que havia se tornado o triangulo amoroso com Lori (Sarah Wayne Callies) e os impasses de liderança com o Rick, não tinha como mantê-los vivos e juntos por muito tempo, algo que gostaria muito de ver acontecer – se essa fosse a season finale, a ideia não seria descartada. Em Triggerfinger a transição derradeira para o embate havia sido feita para ser resolvida no episódio seguinte, que porventura, já começa na putaria, com os dois sendo perseguidos por um monte de zumbis em um lugar completamente desconhecido, machucados e ensanguentados, indicando que a merda realmente aconteceu, porque não tinha como segurar mesmo. Aí é que entra o mérito de 18 Miles Out, que faz acontecer o Rick vs Shane de forma animalesca e empolgante, mas que o resolve sem ser daquela maneira inevitável indicada, embora deixe em aberto que as divergências não acabaram, podendo acontecer ainda essa parte inevitável no último episódio da temporada.

No entanto, esse “cessar-fogo” é conduzido de maneira plausível e inteligente, utilizando ao seu favor estrutura de bottle episode, que mesmo sem o avançar a trama, proporciona um desenvolvimento circular de maior complexidade para a rivalidade. A briga não ter acabado em fatalidade agora, faz sentido no círculo indicado pela conversa inicial pós-abertura, onde os dois personagens abrem o jogo sobre todos os assuntos pendentes – Shane confessa que matou Otis (Pruitt Taylor Vince) derradeiramente –, numa cena que vale destacar, é mais um show a parte de ambos os intérpretes ao dar a ideal sensibilidade ao momento. Rick inicialmente desabafa em tom ameaçador, impositivo até, para deixa claro que a divergência ideológica os separando é meramente instintiva, onde Rick acha que deve sujar as mãos deve ser somente quando for necessário e em último caso, porque senão, ele provavelmente já teria o matado quando soube na traição com Lori, só não o fez porque levou em conta o contexto dos acontecimentos e o histórico de Shane como o amigo. Ele busca fazer com que Shane compreenda sua posição através desse fato, justificando sua tomada de frente como líder.

Obviamente que a tensão acumulada e gigante entre os dois não se resolveria os problemas com uma conversa somente, tanto que a missão secundária promovida pelo episódio, em que eles vão para quilômetros longe da fazenda, soltar o refém Randall (Michael Zegen), está aí para dar ruim, para mostrar que mesmo Shane cabisbaixo ouvindo tudinho que o Rick falou, ele não engoliu nada. Porque assim que o jovem admite conhecer Maggie (Lauren Cohan), possivelmente sabendo a localização da fazenda de todo modo, Shane de novo age por instinto e sem pensar duas vezes, toma a frente da liderança com a arma para assassinar o garoto a sangue frio, gerando outro atrito com Rick que quer levá-lo de volta a fazenda e decidir lá o que fazer com ele, assim iniciando a pancadaria – detalhe, é Rick quem dá o primeiro soco –, que levou a cena chamativa inicial do episódio, em que a continuidade de desdobramentos fica completamente incerta e eletrizante.

Só não chega a ser mais tenso, porque a montagem precisa transitar com outro núcleo, também interessante do episódio, mas que inevitavelmente acaba por quebrar um tanto a linha rítmica intensa da ação de Shane e Rick. Falando nele em isolado, basicamente consiste em um quadrângulo feminino envolvendo Beth (Emily Kinney), Maggie, Andrea (Laurie Holden) e Lori. As três citadas estão cuidando de Beth, ainda debilitada após os eventos chocantes, mas discernida do que aconteceu e com pensamento suicida perante a falta de perspectiva futura no apocalipse. Maggie como sua irmã, tenta convencê-la a não fazer isso, enquanto Andrea acha que ela deve tomar suas próprias escolhas, empatizando com o momento da jovem a qual ela já passou quando perdeu sua irmã. Lori fica no meio termo, quer convencê-la de não se matar, mas não pode prometê-la um futuro melhor, apenas tentando a iludir com discurso de que vale a pena ficar pela familia dentro de uma perspectiva mesquinha, apontada por Andrea, de que ela não perdeu ninguém.

Há uma conversa entre as duas com um embate social romeriano bem interessante, a onde Lori é a conservadora que acha que homens tem de resolver a situação e ela tem de ajudar lavando os pratos e passando a roupa numa rotina – apesar de ter saído em desespero uns episódios atrás achando que o marido não dava conta de resgatar Hershel (Scott Wilson) – e Andrea é a independente que quis aprender a atirar por conta própria, tendo sua relevância na proteção do grupo e acha que todo deve tomar suas próprias escolhas, mesmo que ela tenha desrespeitado esse principio quando impediu que Maggie e Lori estivesse por perto para que Beth tomasse sua escolha. O movimento a separou da casa, definitivamente a colocando do lado de Shane na história, mas apesar disso, Beth escolheu viver e no fundo Lori admitiu que ela realmente tinha que tomar essa decisão por conta própria, algo que a fez crescer acima do rotulo de terciária, passando a ser uma promissora personagem mais humana para o futuro.

Voltando a Shane e Rick, havia muitos caminhos a acontecer: Randall podia fugir e se tornar de novo o problema, com a dupla tendo que voltar a fazenda e se preparar para uma provável invasão do outro grupo, com Shane depois daquela conversa decidindo ir embora com Andrea, ou, os dois salvando geral promovendo o reagrupamento unido de todos; Randall podia morrer, o problema dissolver e Shane e Andrea se sentindo excluídos, tacariam a própria vida para lá; Randall podia salvar os dois, incitando para ele ser um novo personagem do grupo, após ganhar a confiança de ambos. Rick podia deixar Shane preso no ônibus com os zumbis e sair dali apenas com o Randall, o que possivelmente tornaria Shane o vilão, voltando para a fazenda sozinho e iniciando a rebelião incitada nos episódios anteriores; Enfim, em algum momento, todos esses caminhos que comentei são possíveis e só de serem, ficamos mais tensionados na execução do acontecimento presente – como foi na cena em que Rick parece que vai realmente largar Shane lá no oníbus –, contudo, toda a sequência volta à estaca zero estabelecida pelo dialogo de Rick lá no início do episódio.

Ele até pensa em abandonar Shane, mas se depara com os dois corpos policiais zumbis comentados mais cedo por ele, que não estavam com indícios de mordidas – pista da revelação do que foi que o cientista dr. Edwin Jenner (Noah Emmerich) do CDC contou a Rick em TS-19 –, fazendo-o lembrar de que Shane é muito mais do que um problema, ele é seu amigo. Assim, em tom menos ameaçador e calmo, Rick retoma a conversa entre os dois, pedindo para que Shane dê um voto de confiança aos termos por ele estabelecidos, admitindo que no fim das contas, a tendência era que tomasse a medida ideal de assassinar Randall, mas que isto não fosse uma decisão tomada tão facilmente. Pelo menos, temporariamente, isso é compreendido por Shane. Aparentemente naquele momento ficou tudo certo entre os dois, muito por sinal de gratidão de Shane ao ver que o amigo apesar de tudo, voltou por ele, dando um último lapso de humanização ao personagem a sua inevitável caminhada de sociopata. Enquanto isso, Rick ganha casca enquanto líder. É nesse episódio que ele cria a famosa estratégia de matar zumbis com armas brancas para não atrair mais com os sons dos tiros, uma tarefa não tão fácil de se realizar como foi demonstrado em vários momentos, em especial aquela cena excelente dele mantando zumbis empilhados em cima de si, em que não teve como não usar arma.

Mesmo sendo um episódio engarrafado, há progresso, e melhor, há noção do progresso aparente dentro de si. A cena icônica de Shane olhando pela janela e vendo um zumbi andando entre os pastos, para na volta ele observar esse mesmo zumbi, ao som da sensacional Civilian de Wye Oak praticamente no mesmo lugar, é um indicativo imagético disso. Queria que no fundo, tivessem escolhido um caminho com Shane e Rick juntos por definitivo e que isso fosse o clímax subversivo da temporada, mas entenderia essa decisão para muita gente como decepcionante, completamente na contramão da obra original e ilógica a construção do que vem sendo a temporada. 18 Miles Out entrega um pré-clímax extremamente tenso e satisfatório, com os momentos de ação de mais tirar folego dessa temporada.

The Walking Dead – 2X10: 18 Miles Out | EUA, 26 de Fevereiro de 2012
Diretor: Ernest R. Dickerson
Roteiro: Scott M. Gimple, Glen Mazzara, Angela Kang
Elenco: Andrew Lincoln, Jon Bernthal, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Lauren Cohan, Emily Kinney, Michael Zegen
Duração: 43 minutos

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