Crítica | The Walking Dead – 7X10: New Best Friends

estrelas 3,5

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

The Walking Dead já fora, em tempos não tão longínquos assim, uma série séria, em seus devidos lugares, sobre a exploração da condição humana em extremos, como, no caso, em um apocalipse. Hoje, indo por alguns caminhos mais fantásticos e explosivos e menos introspectivos, o mágico Reino, por ser uma adaptação direta dos quadrinhos e não ser apenas um “e se alguém instalasse uma monarquia fictícia em meio dos Estados Unidos apocalíptico?” gratuito, acabou sendo acolhido pela mitologia. Agora, podemos acolher com o mesmo carinho esse novo grupo apresentado, que nada tem a ver com nada, quase mitológico? Seguindo uma pista deixada por Gabriel (Seth Gilliam), Rick Grimes (Andrew Lincoln) e sua trupe procuram o sacerdote desaparecido, deparando-se com mais um grupo de pessoas mentalmente questionáveis. Já vimos isso antes, não vimos? Os Canibais. Os Lobos. O Governador. Não podia ser um grupo normal de pessoas como as da Colônia de Hilltop ou as do Santuário, Scott Gimple – showrunner da série?

Mais um grupo de esquisitões, contudo, não figuras imponentes e amedrontadoras como as citados anteriormente, só esquisitões mesmo. O esdrúxulo é transportado a um novo patamar absurdista, porque não apenas o comportamento é excêntrico, como que, visualmente, todos os membros parecem ter saído de um projeto muito ruim dirigido pelo cineasta Tim Burton. A sensação de déjà vu – e inquietante perturbação por causa do bizarro cabelo da líder Jadis (Pollyana McIntosh) – é escanteada um pouco, porque não se pode negar que a morada dessa nova comunidade é esteticamente impressionante – uma novidade exclusiva da série, sem contraparte nas histórias em quadrinhos. A composição do cenário é deslumbrante, carregando um ar fresco à ambientação da série, acostumada com longas rodovias e vastas florestas. O uso de computação gráfica para ampliação do espaço que o lixão ocupa é uma ressalva, em contrapartida ao argumento estético. A imagem projetada é rica em detalhes, mas discernida da realidade.

Uma simples jogada de câmera mais atenciosa, por mais que o estúdio tenha dinheiro para um esmero maior – o comentário também é válido para a tigresa Shiva, que reaparece nesse episódio, mais falsa que nunca – poderia ter mascarado os defeitos especiais. Os méritos permanecem, portanto, na narrativa da temporada. O desenvolvimento do núcleo de Rick em meio a podridão do lixão é exitoso, com Andrew Lincoln arrebatando outra ótima performance. O seu derradeiro sorriso ao final do último episódio recebe uma explicação demasiadamente vaga, sem encorpamento, mas o desempenho do ator é suficiente para a credibilidade referente às atitudes que o personagem toma. O público também depara-se com um tenso e desconfortável combate contra um dos zumbis mais inventivos em bastante tempo de série, o Winslow. A sequência de combate, crendo em algum perigo para o ex-policial, é manchada por Michonne, enormemente expositivas, dando dicas de vitória para Grimes através de um tubo qualquer presente no cenário.

Os roteiristas às vezes parecem estar brincando de escrever episódio, mas pelo menos Danai Gurira, a intérprete da samurai, teve alguma participação na exploração das subcamadas de seu par romântico. O resto não recebe os mesmos serviços do roteiro. Tara (Alanna Masterson), como de costume, está sem nada para fazer narrativamente, colocada para participar de uma estúpida missão de resgate apenas para os espectadores não se esquecerem da garota, questionando-se como a personagem resolverá seu dilema com Oceanside, como se alguém ainda se importasse com isso. Aaron (Ross Marquand), diferentemente de Tara, pelo menos possui alguma explicação para estar com a gangue. Até Rosita (Christian Serratos), a personagem feminina melhor explorada nessa temporada, ganhou pouco espaço. Os ótimos momentos sobram para o Padre Gabriel, que já demonstra ser uma das figuras mais bem desenvolvidas no decorrer dos anos, superior a sua versão original nos quadrinhos, onde é esquecido pelo autor Robert Kirkman.

Apesar dessa imundície tosca de seres humanos que terminam cercando a gangue de Rick Grimes, o saldo desse núcleo, confuso teoricamente, é positivo, por não ter sido descabidamente estendido, como se costuma fazer na série, e por, além disso, ter sido produtivo para o andamento da história, utilizando de utensílios narrativos funcionais para movimentar-se. O destaque de New Best Friends, contudo, está em Daryl e Carol, personagens que se reencontram, enfim, depois de mais de meia temporada separados, embora sejam ótimos amigos – melhores amigos antigos. Os diálogos entre os dois transformam o reencontro em uma das situações mais verdadeiras da sétima temporada até então. Os desempenhos de Melissa McBride e de Norman Reedus são excepcionais, corroborado com a maravilhosa química que os atores extraem das trocas entre os seus personagens. Porque Daryl poupa Carol da revelação da morte de amigos próximos, a situação é tornada mais bela e honesta – mesmo desonesta na prática.

Já o episódio em si começa com um tenso encontro visando a entrega de produtos do Reino para os Salvadores, que cobram metade de tudo colhido nas comunidades que “protege” de si mesmos. A reunião é carregada com a possibilidade de desentendimento entre os personagens em questão, que acaba, previsivelmente, se consolidando como uma verdade comportamental, subindo os ânimos, a exemplo, do sempre alerta Richard. A construção desse personagem, particularmente, está muito boa, interessantíssima, e a série parece encaminhá-lo a caminhos ainda mais sombrios que os atuais, porque o seu plano para conseguir convocar Ezekiel (Khary Payton) para a Guerra Total – icônico volume dos quadrinhos, com a conclusão desse enredo todo – é, apesar de frio e duro, compreensível. O suspense, criado com Daryl e com consequências ainda não palpáveis perfeitamente, um pouco sombrias, sobre quem seria o sacrifício necessário para chamar a atenção do Rei, é construído muito bem, minimamente curioso, instigando à resolução.

O núcleo do majestoso Reino é, em contrapartida, recheado de outros pequenos arcos que ou não se movimentam ou giram em torno de si mesmo, sem espaço para uma conectividade com demais narrativos. O caso de Morgan, por exemplo, interpretado pelo talentosíssimo – às vezes desperdiçado – Lennie James, que até este ponto em questão não teve oportunidade de ser efetivamente explorado na temporada, após o competente desfecho de seu personagem na passada. A sensação é de uma redundância massiva, porque, pensando cautelosamente, o posicionamento de Morgan sobre a violência já fora previamente justificado, mas em termos narrativos é fracasso da intelectualidade não aprofundar ainda mais a mentalidade do personagem  – apesar de termos o visto perder sua arma de proteção, grande coisa. O Rei, por outro lado, não ganha a oportunidade de ficar rodando em círculos, pois seu personagem, até esse dado tempo, só teve espaço para traçar rascunhos de desenvolvimento ainda no campo das presunções.

New Best Friends, assim sendo, é um passo para frente, mesmo que curto, no prosseguimento da trama principal. Uma considerável evolução na exploração de questões secundárias envolvendo o Padre Gabriel, Carol, Daryl e Richard, gerando alguns ótimos momentos, que decretam a absurda qualidade do elenco do seriado, maior que a série propriamente dita, esta persistindo em clichês, ou seja, em eventuais briguinhas entre antagonistas e mocinhos. A criação de uma nova “amizade” acaba sendo o suporte estrutural desse capítulo. Apesar de a busca por alianças ir amadurecendo futuros bons frutos, pergunta-se: é por esse caminho que o público realmente quer que The Walking Dead caminhe, sendo realmente preciso alongar uma marcha para a guerra com o implemento de novos grupos, que provavelmente não serão explorados profundamente, ou o seriado deveria voltar às propostas que tornaram a quarta, a quinta e pedaços da sexta temporada tão aclamadas? The Walking Dead, mesmo sendo sobre zumbis, perdeu humanidade.

  • Nota de Rodapé: Após Guilherme Coral substituir Ritter Fan na crítica do último episódio, chegou a minha vez de entrar no lugar do nosso querido editor, mas dessa vez por definitivo. Mãos à obra.

The Walking Dead – 7X10: New Best Friends (EUA, 19 de fevereiro de 2017)
Showrunner: 
Scott M. Gimple
Direção:
Jeffrey F. January
Roteiro:
Channing Powell
Elenco: 
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Alexandra Breckenridge, Ross Marquand, Austin Nichols, Tovah Feldshuh, Michael Traynor, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Corey Hawkins, Kenric Green, Ethan Embry, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, Jeffrey Dean Morgan, Khary Payton, Steven Ogg, Debora May, Sydney Park, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Nicole Barré, Pollyanna McIntosh
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.