Crítica | The Walking Dead – 9ª Temporada

“Nós não concordamos com essa fronteira. Essa fronteira é dela, não nossa.”

  • Observação: Há spoilers da temporada e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-off, Fear the Walking Dead.

A nona temporada de The Walking Dead começou sendo, antes de seu início até, uma temporada de gigantescas mudanças já nos seus bastidores. O seu vasto cenário agora sustentaria-se, por inúmeras questões específicas, em enormes interferências externas ao processo criativo da série. E a primeira dessas alterações estruturais, após dois anos consecutivos muito mais fracos e cansativos – que resultaram em quedas na audiência -, tornou-se logo a substituição de showrunner. Angela Kang entrou e Scott M. Gimple saiu. Curiosamente, essa mudança mostrou ser uma decisão bem-vinda a um programa que estava perdendo a qualidade de outros anos. Kang retomaria uma coesão discursiva, uma progressão narrativa e uma qualidade textual que antes estavam em escassez nessa terra pós-apocalíptica. O que seria desse novo começo, então?

Com muita competência, a nova showrunner conseguiu manejar a saída justamente de Rick Grimes (Andrew Lincoln), o protagonista tão querido dessa série tão assistida. Esse foi um segundo evento externo a ser orquestrado, transformando o curso de The Walking Dead. O sonho que Carl Grimes acreditou e Rick compreendeu, com a sua suposta morte, tornou-se ainda mais poderoso e marcante. Um símbolo a permear todo o curso da temporada, sempre pensando nas melhores soluções possíveis, algumas complicadas e arriscadas, e não necessariamente nas mais fáceis. O seriado usa de seis episódios, os seis primeiros – com alguns meses os distanciando da oitava temporada -, para orquestrar essa trajetória de esperança à Rick enquanto “vivo”, visando união entre as comunidades. O que é o melhor a ser feito frente a impasses tão complexos?  Lutar.

Quando cai, em Who Are You Now?, uma outra passagem de tempo acontece, insinuando uma descontinuação daquela ideia passada. Deve ser retomada, mesmo que a natureza, os vivos e os mortos obriguem os personagens a pensarem o contrário. Michonne (Danai Gurira) torna-se uma contradição ao seu passado e precisará retomar sua crença antiga. Já Norman Reedus cresce na série, não apenas por roubar um espaço como protagonista, porém, por ganhar um papel extremamente interessante. Daryl Dixon culpa-se pelo passado, por não ter acreditado no seu amigo. Ganhará, portanto, uma jornada de redenção ao lado de Lydia, nova personagem apresentada na série, vivida muito bem por Cassady McClincy. A garota não quer mais morar com a sua mãe, comandante dos assustadores Sussurradores,  mais novos antagonistas apresentados.

Responder a um chamado por ajuda, por socorro, mostra ser uma urgência – e serão vários, a começar por Magna e sua equipe sendo resgatados pela pequena Judith (Calley Fleming), uma amostra do que seu pai pensaria no presente. Essa ambiguidade entre o que é certo e o que é necessário será uma questão discutida em inúmeros momentos, sempre explorando, ao mesmo tempo, a ambientação como uma nova preocupação das comunidades. Uma necessidade por uma ponte. Uma necessidade por um encanamento. Uma necessidade por se proteger ao inverno. Lydia, no entanto, será mesmo o maior enfoque de Kang, culminando nas ameaças dos Sussurradores – iconograficamente bem explorados. Esses são sobreviventes que rejeitam o retorno à vida do passado, preferindo uma adaptação, uma evolução em frente ao caos que surgiu.

O massacre nas estacas é um profundo choque emocional aos personagens, contudo, como Siddiq aponta (Avi Nash) – envolvendo-se em uma trama terciária, sobre um quarteto romântico, que é inofensiva, sem nunca prejudicar o ritmo da série – precisa ser visto com outros olhos. Os olhos que enxergam guerreiros, não mortos. Samantha Morton, excelente como usualmente, é, nesse caso, a assustadora Alpha, chefe de uma alcateia, e não de uma comunidade. O sonho de Rick Grimes é uma bobagem, como a mulher aponta? O retorno do cinema e da música – episódios que se dedicam a olhar para a cultura preenchem a temporada – é desnecessário? Devaneios de uma criança e, consequentemente, do seu pai enlutado? O último capítulo da temporada, porém, argumenta o contrário. Encontra uma guerra de neve como conclusão ao terror.

The Walking Dead – 9ª Temporada – EUA, 2018/2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Norman Reedus, Andrew Lincoln, Danai Gurira, Lauren Cohan, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Alanna Masterson, Tom Payne, Christian Serratos, Seth Gilliam, Katelyn Nacon, Ross Marquand, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Pollyanna McIntosh, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee, Ryan Hurst, Rutina Wesley
Duração: 16 episódios com por volta de 50 min. cada

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.