Crítica | The Walking Dead – 9X07: Stradivarius

  • Observação:  spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Stradivarius é uma excelente maneira dos responsáveis pela série continuarem a jornada traçada na nona temporada de The Walking Dead. O arco do protagonista, que nos deixou em What Comes After, envolvia a reunião de uma família, que não poderia ficar despedaçada – as comunidades em um acordo de assistências mútuas. O futuro, de certa forma, mostra que os sonhos de Rick e, consequentemente, do seu filho Carl, não se realizaram por completo. Justamente Michonne (Danai Gurira) afastou-se desses pensamentos – um afastamento que, como comenta a Siddiq (Avi Nash), “não é tão simples”. Uma feira está prestes a ser realizada, um grande evento. Alexandria, contudo, não quer participar. Maggie (Lauren Cohan), contrariando as expectativas, não morreu, como o episódio reitera insistentemente, mas o passado, envolvendo esse intervalo temporal de seis anos, está cheio de peripécias misteriosas. A série nos instiga a querer entender algumas causas – a marca nas costas aparece em outro personagem -, porém, não precisa mostrá-las abruptamente para continuar caminhando de uma maneira dinâmica.

A ação caminha concomitantemente ao drama. Michonne não acaba retornando à estaca zero quando o episódio se encerra, estagnando o planejamento dramático acerca da personagem. A co-protagonista ainda permanece rejeitando as alianças com as demais comunidades – notícia surpreendente, aliás -, no entanto, o sentimento é de uma progressão de possibilidades, movimentando os segmentos que retomam uma especialidade similar a de temporadas passadas, quando tudo que estava sendo feito parecia ser importante, parecia ser algo que, no final das contas, continuaria sendo relembrado. Uma cadeia de acontecimentos pode ajudar a movimentar esse desenvolvimento da personagem, essa reconstrução de uma personalidade que indica ter perdido certos princípios. Os mais novos inimigos, a serem apresentados definitivamente em um passo seguinte não muito distante, pode ser um motor extremamente engajante para a proposta da temporada ser concretizada: uma temporada de reconciliação com o novo começo ansiado, ao invés de um retorno ao passado, só que mais perfumado, com moinhos e plantações.

Os inúmeros arcos sugestionados até o presente momento estão unidos, por fim, com a descoberta, por parte de Aaron (Ross Marquand) e Jesus (Tom Payne) – amigos de comunidades rivais, quase como um Romeu e Julieta às avessas -, de uma debilitada Rosita (Christian Serratos), perdida e desidratada nas matas. Michael Cudlitz, que interpretou Abraham em temporadas passadas, debuta como diretor na série, carregando a apresentação de Stradivarius com o sentimento de desnorte entendido à personagem, uma sensação parecida com a do espectador, apesar de, no nosso caso, a confusão ser controlada e envolvente. O que aconteceu com os mortos-vivos para eles estarem falando agora? Já as sequências que se passam na recém-descoberta Hilltop – uma transição esquisita, musicalmente cafona – não possuem a mesma energia que as passadas na estrada. O personagem Jesus, por exemplo, apenas mostra-se realmente interessante quando ao lado de Aaron, relacionamento que pode vir a ganhar mais contornos futuramente. Tara (Alanna Masterson), nas demais ocasiões, possui mais carisma.

Alguns mistérios, portanto, são desfeitos, principalmente os encontrados nos termos de como estaria essa comunidade depois do gigantesco intervalo de tempo. Com o tom proposto, que não consegue conciliar-se perfeitamente aos demais, imensamente superiores, o roteiro também não se encaixa. As coisas soam mais orgânicas, por exemplo, nas interações entre Michonne e Siddiq, assim como entre os membros do grupo novo, mas, principalmente, entre Carol (Melissa McBride), Henry (Matt Lintz) e Daryl (Norman Reedus). Os equívocos citados, contudo, ocupam pouco espaço no episódio – o resto enaltece-se muito mais. O grande mérito é o interesse discursivo similar, de união. A arte como modo de unir as pessoas – quando o antigo grupo encontrou a prisão, em temporadas anteriores, acenderam uma fogueira, contando histórias enquanto a saudosa Beth cantava. A premissa para o capítulo seguinte é simplesmente a procura de alguns personagens por Eugene (Josh McDermitt), mas é mais alarmante e melhor costurada que determinadas guerras passadas. Um mero cachorro, enfim, é a cereja desse bolo empolgante.

The Walking Dead – 9X07: Stradivarius — EUA, 11 de novembro de 2018
Showrunner: Angela Kang
Direção: Michael Cudlitz
Roteiro: Vivian Tse
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.