Crítica | The Walking Dead – 9X11: Bounty

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Os acertos de Bounty são expandidos quando vistos sob uma vertente menos narrativa, pouco significante até, e mais na abordagem dos gêneros que compõem a série The Walking Dead. O terror era uma das chaves do seriado em seu começo. Aqui visando o gore – uma violência mais gráfica -, Bounty acompanha, numa das tramas contadas no episódio, algumas sequências em um cinema da região. A missão de Ezekiel (Khary Payton) é conseguir levar filmes para a Feira, que programa acontecer em breve. Matt Negrete comanda esses momentos do episódio, no entanto, através de um senso mais espirituoso. Consegue, assim, promover entretenimento sob uma ordem mais sincera com a proposta narrativa desses eventos, que não trajam muita seriedade importante.

Essa aventura de Ezekiel e membros do Reino é secundária, como o próprio Rei comenta. Bounty, no entanto, está intercalando essas sequências com a troca de reféns entre Hilltop e os Sussurradores. Um momento supostamente enervante, por se tratar de riscos graves de casualidades, e até remeter ao episódio Too Far Gone, da quarta temporada – aquele em que Hershel Greene era morto. Um senso de paranoia mais latente é retirado para dar margem à comédia que está regendo o outro núcleo de Bounty, completamente contrastante – e até por uma razão mais concreta. Durante um olhar no passado do Reino, as interações são carregadas com um bom humor mais suave. Já depois, a música possui um papel essencial, consolidando o cerne.

Mas, em termos dramáticos, Bounty fica devendo ao espectador o imenso desconforto de Lydia (Cassady McClincy) em ter que rever a sua mãe, que a machucava. Os diálogos não convencem uma mudança de postura que poderia vir carregada de uma carga mais tensa, um pouquinho até de sentimentalismo. Henry (Matt Lintz), por outro lado, recebe maior atenção, uma quantidade maior de texto, enquanto a garota permanece secundária a uma narrativa que tem muito mais a ver com ela. Dito isso, Alpha, em contrapartida, é melhor aproveitada. Samantha Morton é incisiva em seus pedidos, sem descambar um único momento para um tratamento mais emotivo sobre sua personagem. Quando um bebê, a exemplo, começa a chorar, Alpha dá suas ordens gestualmente.

Mesmo assim, o que Angela Kang quer verdadeiramente com essa trama do Reino, em oposição as suas vontades na outra margem do rio, é compreender a esperança nos olhos do Rei, até mesmo trazendo um flashback que é coeso com as intenções do episódio em contrastar-se. Tudo está dando certo para as comunidades, compreende o iludido Ezekiel, que nem mesmo sabe que Jesus (Tom Payne) morreu. Jerry (Cooper Andrews) possui filhos agora, e o seu Henry está sob os cuidados do confiável Daryl (Norman Reedus). Mas, pelo visto, o Rei não passou pelo mesmo caos que as outras comunidades passaram no passado. Seu coração sonhador permanece, enquanto Daryl já aceitou que existe muita “merda” no mundo que nunca será arrumada. Qual é a realidade?

O auge do comando de Matt Negrete termina sendo sequências inspiradas, e não a coesão dos tons, apesar da função consciente da discrepância entre cada um deles. O roteiro também não é muito bom, enquanto Enid (Katelyn Nacon) investe numa abordagem didática sobre o apocalipse que, na altura do campeonato, soa indulgente demais. Bounty entende perfeitamente, porém, como mudar o escopo perceptivo do espectador através de como os seus personagens percebem o mundo. Em frente a uma coadjuvante que é surda, o som é limitado drasticamente ao público, então encarando uma experiência mais claustrofóbica sob as condições sonoras da cena. O próximo episódio parece que irá reiterar essa experiência sensorial. Sonhemos como Rick sonhou.

The Walking Dead – 9X11: Bounty — EUA, 24 de fevereiro de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Matt Negrete
Roteiro: Meera Menon
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.