Crítica | The Walking Dead – 9X13: Chokepoint

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Há tempos que The Walking Dead não trazia uma sequência de ação tão interessante. O confronto entre Daryl (Norman Reedus) e Beta (Ryan Hurst) é dos mais viscerais já gravados para a série, clímax de um episódio que equilibra seus pontos mais leves com os seus pontos mais dramáticos. Usando o próprio cenário, que é muito rico, embora seco – sem muitos acessórios -, como parte do combate em questão, Liesl Tommy torna toda a sequência enervante. O combate vai se metamorfoseando com o tempo, adequando-se a novos espaços em cena. Lembra um pouco a vez em que Rick e Negan se enfrentaram, na temporada passada. Mas, agora, a cena é conduzida com muito mais competência, sem precisar recorrer a uma iluminação soturna para mascarar a ineficiência cinematográfica do processo. E Beta é amedrontador, uma excelente adição ao elenco.

Esse visual mais claro, proporcionando um mapeamento espacial mais compreensível ao público, margeia um dos enquadramentos mais bem produzidos da temporada, quiçá da série. Um dos Sussurradores, que invadem um prédio em busca de Lydia (Cassady McClincy), se esgueira por trás de Daryl – o plano remete a Psicose, quando Norman Bates surgia atrás da cortina do banheiro -, e tenta o matar, apenas para ser alvejado antes. Terror eufórico e contente em ser terror – por isso que até mesmo escolhi essa imagem para marcar a crítica do episódio. Chokepoint marca uma mudança de paradigma na série, paralelamente. Daqui em diante, Norman Reedus, em seu papel de Daryl Dixon, já participou de mais episódios que o “saudoso” protagonista, Rick Grimes. E não poderia ser outro episódio, senão esse, o responsável por consolidar esta mudança.

Como a temporada já entendeu até então ao personagem, Chokepoint é um capítulo de transição ao espírito de Daryl, que torna-se, portanto, um ser sinceramente guerreiro, arriscando-se para proteger quem precisa – no caso, a jovem Lydia – e um tanto quanto estratégico, sem mover-se por soluções narrativas mais artificias. O cachorro é um substituto realmente natural. O ar cômico, usado pontualmente nesse núcleo, marca essa humanização, como quando Connie (Lauren Ridloff) contraria o personagem. Daryl está mais associável. A sua intromissão num beijo entre Henry (Matt Lintz) e Lydia colabora para isso. Os demais personagens são pegos por uma atmosfera comum, contudo, que permanece satisfatória aos interesses sugeridos, como a recusa de Lydia em matar um dos seus. Ao salvar Henry, ela emancipa-se. O casal está mais crível agora.

Já o utópico Reino é visto de uma maneira que é surpreendentemente espirituosa, assim como eficientemente executada. Rompe o que antes soava, por um instante, pouco relevante. Tudo parte de uma construção de mística envolvendo a feira. No episódio, Hilltop está indo para o evento premeditado, no entanto, termina esbarrando no caminho com um grupo de zumbis e uma árvore caída. O ótimo roteiro, porém, usufrui de um tempo corrido para criar uma costura narrativa impressionante. Eddie Guzelian e David Johnson aproveita esse trecho do episódio para sustentar uma sub-trama muito pequena, envolvendo Earl, Tammy e o bebê que adotaram. Essa jornada curta de Hilltop irá referir-se diretamente, mais para frente, ao que acontece com Carol (Melissa McBride) e companhia, precisando se desvencilhar de uma ameaça bem parecida aos Salvadores.

Nascida em Bounty, a trama envolvendo um anseio por trazer cinema à feira, mostra-se relevante. Conclui-se com coesão, por conta da certeira apresentação dos Salteadores. Sombras misturadas a manequins – suspense e sugestão. O texto, contudo, não é perfeito. Certas passagens são pedagógicas. Os roteiristas perdem uma oportunidade dramática ao questionar, narrativamente, as esperanças de Ezekiel (Khary Payton) com o futuro do mundo. Um método mais pessoal e verdadeiro, menos expositivo, ajudaria. Em contrapartida, Payton acaba tendo que reiterar suas vontades e angústias verborragicamente, ao invés de ser guiado pela sua interpretação pura. Mesmo assim, Chokepoint é um ponto altíssimo em termos de coesão dentro da série, mostrando um novo dia, esperançoso, para The Walking Dead, mais aterrorizante, entusiasmante e promissor.

The Walking Dead – 9X13: Chokepoint — EUA, 10 de março de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Liesl Tommy
Roteiro: Eddie Guzelian, David Leslie Johnson-McGoldrick
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee, Ryan Hurst
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.