Crítica | The Walking Dead – 9X14: Scars

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Há cinco temporadas atrás, justamente cinco temporadas atrás, The Grove apresentava ao público do seriado de zumbi mais comentado do mundo um dos seus episódios mais chocantes. Uma garotinha assassinava a sua irmã e, em seguida, era assassinada por Carol (Melissa McBride), enquanto contemplava algumas flores. Scars termina por ser um paralelo interessante e provavelmente intencionado por Angela Kang, ao passo que, aqui, Michonne (Danai Gurira) é a envolvida em acontecimentos tão perturbadores quanto. Mas existe uma gigantesca diferença no valor narrativo que cada um dos episódios depositou sobre tal momento tão impressionante visado.

The Grove, anteriormente, era antecipada por uma construção de quase uma temporada inteira, baseando-se nos personagens envolvidos e seus vínculos. Já o passado que é mostrado em Scars – e diferenciado do presente através de uma outra paleta de cores – cria um elo dramático completamente novo, entre Michonne e a nova personagem apresentada, Jocelyn (Rutina Wesley). Ou seja, o poder dramático de uma nova linha narrativa, apesar de situada no passado, é subtraído pela metade de um episódio completo. O que funciona, porém, é justamente os relacionamentos no presente, entre Judith (Calley Fleming) e sua mãe, lidando com a raiva da garotinha às normas.

Scars é um episódio sobre essas duas personagens, enquanto os demais são apenas passageiros – e literalmente na verdade, porque Lydia (Cassady McClincy) e os outros estão apenas cuidando dos ferimentos de Henry (Matt Lintz). Mas Daryl Dixon (Norman Reedus) é igualmente subaproveitado, o que contraria uma ideia de que esse passado chocante teria o afetado proporcionalmente, em vista da sua não-participação no que experienciou Michonne. O que quer que aconteceu – e aconteceu, como saberemos -, o papel do besteiro é apenas o de artifício, ponte para proposições narrativas, ou seja, encaminhar Judith à verdade e origem das regras que rejeita.

Pois o saudoso Rick Grimes (Andrew Lincoln), relembrado no começo do episódio, sugeriu um outro futuro para sua filha, que não aquele que a menina, hoje, presencia com os seus próprios olhos. Portanto, a revolta é mais que justificável, e Michonne, ao invés de impor normas, precisa educar e fazer a garota compreender a importância delas. Esse arco, em decorrência a essa ideia, torna-se bastante natural à premissa, mesmo que precise ser reiterado com mais obviedade durante uma conversa entre a mãe da garota e o ex-vilão Negan (Jeffrey Dean Morgan). Já o que movimentou Michonne a ser tão rígida atualmente, outra parte do todo, não é orgânico o suficiente.

O massacre das crianças, em consequência à traição de Jocelyn, seria supostamente suficiente, mas é complicado nos convencermos do seu impacto. Enquanto a direção se esforça para ser a mais sugestiva imaginável, evitando a exposição de cadáveres infantis – troca-os, no processo de edição, por um massacre de mortos-vivos -, Danai Gurira é quem segura verdadeiramente a carga desses eventos recontados. O desespero é sentido pelos olhos da artista, em uma das suas melhores passagens pela série até então. Contudo, a montagem minimiza o impacto, sem comunicar o passado com o presente. É mais uma desculpa narrativa que uma verdade dramática.

E Scars também é um episódio menos caprichoso no texto. Calley, no entanto, mostra que é competente ao conseguir extrair momentos singelos das suas falas, principalmente na conclusão com a sua mãe. O que a série precisava era, em contrapartida, sinceramente organizar a traição dessa amiga de Michonne, antiga conhecida da protagonista, como um acontecimento destruidor. Nos compreender os efeitos que Jocelyn causou no relacionamento materno em questão, além da esperança, após a “morte de Rick”, que a presença da mulher permitiu a “viúva” sentir. Isso tudo é raso. Ao menos, tais flashbacks conciliaram-se com coerência às propostas narrativas no presente.

The Walking Dead – 9X14: Scars — EUA, 17 de março de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Millicent Shelton
Roteiro: Corey Reed, Vivian Tse
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Tom Payne, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee, Ryan Hurst, Rutina Wesley
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.