Crítica | The Walking Dead – 9X15: The Calm Before

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Qual a história a ser contada diante de um massacre como esse, aniquilando-se as vidas de uma dezena de pessoas? O episódio em questão, The Calm Before, é um prenúncio indesejado às conclusões inesperadas, mas que sempre estiveram à espreita dessas pessoas, como a morte em si constantemente está. Ninguém quer que histórias sejam interrompidas. Ninguém quer que histórias cheguem ao fim abruptamente, por nada, sem mais, nem menos. O prólogo ao episódio, por sua vez introdutório ao que representa o capítulo, é um extraordinário demonstrativo desse suspense enervante que irá aterrorizar o mais calmo dos momentos. Nos é apresentado dois personagens novos, que conseguiram sobreviver ao apocalipse e encontraram esperanças em Hilltop, apenas para, anos depois, serem mortos indiscriminadamente por Alpha (Samantha Morton).  Essa é uma cruel antagonista, antagônica à humanidade, à vida humana como antes era.

Em grande parte do seu tempo, The Calm Before se pautará numa tranquilidade esperada. Angela Kang, por meia temporada, nos conduziu a acreditarmos em uma feira onde que as relações humanas podem se tornar ordinárias novamente, contudo, ainda assim importarem. O que é mais adolescente, para o arco do casal adolescente, do que ciúmes adolescentes? O roteiro assinado por Geraldine Inoa e Channing Powell exemplifica situações de ingenuidade, como essa. Quando pensei em que filme esses personagens assistiriam, nunca imaginei que fosse ser um desenho animado qualquer, o que, em contrapartida, é mesmo o mais natural para uma comunidade – comunidades, na verdade – revivendo a inocência. E temos a pequena Judith (Calley Fleming) brincando com Jerry (Cooper Andrews) e certas palavras, como namorado e namorada, sendo estranhas para esse mundo.  À Lydia (Cassady McClincy), o amor dos Reis ao Príncipe é estranho.

Querendo capturar esse sentimento de unidade a um grande grupo, Laura Besley vai caminhando com a sua câmera por entre as interações que acontecem na feira, buscando mapear o senso das dinâmicas, inocentes, que acontecem nesse meio. As irmãs então se comunicam através da língua de sinais, sem precisar realmente nos notificar do que está sendo conversado. Isso parte de uma natureza menos urgente, mais pacífica. The Calm Before, no entanto, anseia que, paralelamente à apresentação da quietude, quer trajar uma impaciência. O temor pela presença de Alpha é algo inerente aos espectadores, pois os personagens são inocentes a isso. Quando Ezekiel (Khary Payton) aproxima-se da mulher com peruca – um disfarce extremamente convincente -, o público começar a presumir o que acontecerá. Quem irá morrer? Será que alguém irá morrer? Os mortos irão surgir, porém,  para um outro grupo, que saiu em patrulha das fronteiras do Reino, ameaçadas.

Enfim, o monólogo de Siddiq (Avi Nash) é uma conclusão até consideravelmente piegas. Coloca todos aqueles mais próximos aos assassinados no massacre num mesmo grau, com lágrimas escorrendo e não um desespero subjacente, quietos ao som de palavras inspiradoras. Possivelmente, seria interessante ver um ou dois personagens ausentes daquele espaço enlutado, conferindo um ar de mais autenticidade à cena. O Rei Ezekiel, por exemplo, poderia manter-se confinado no seu quarto, querendo estar sozinho, e não no exterior do Reino, ambiente onde não ganha nenhum enquadramento no seu rosto. Mas, ao mesmo tempo, também é interessante o que a série promove pontualmente com esse massacre, não uma recaída – o que seria, nesse passo, colocar o evento na season finale -, mas um outro obstáculo a ser superado. Siddiq, por sua vez, quer contar uma história diferente a uma narrativa de que a crença na humanidade é ultrapassada.

Consequentemente, uma música bem comovente, acompanhando a cena de uma resistência que sabemos ser fracassada, cria uma das sequências mais carregadas emocionalmente da série. Ozzy (Angus Sampson) não conseguirá assistir ao seu filme, justamente o que o fez estar presente nesse caos. Curioso que esses três personagens, supostamente insignificantes, sejam donos de uma particularidade dramática do episódio. Personagens que mal chegaram, no caso dos Salteadores, e um personagem originalmente antagonista, no caso de DJ, arriscando suas vidas por outras. Isso é realmente muito bonito. E também temos a mãe que não poderá ver o seu menino, ainda um bebê, crescer. E uma líder que não poderá provar o seu valor. E, por fim, a morte de Henry (Matt Lintz), uma das coisas mais arrasadoras que a série já fez – a cena com Daryl tentando impedir Carol de vê-lo, sem vida, fere.  Eles não envelhecerão, mas tornarão-se símbolos.

The Walking Dead – 9X15: The Calm Before — EUA, 24 de março de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Laura Belsey
Roteiro: Geraldine Inoa, Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Katelyn Nacon, Khary Payton, Cooper Andrews, Matt Lintz, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee, Ryan Hurst, Rutina Wesley
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.