Crítica | The Walking Dead – 9X16: The Storm

  • Observação: Há spoilers do episódio e da série. Leiam, aqui, as críticas de todas as demais temporadas, dos games e das HQs. E, aqui, da série spin-offFear the Walking Dead.

Há algo estranho no inverno, que aumenta ainda mais a melancolia e os piores sentimentos, os mais tristes possíveis, que as pessoas carregam. Um epílogo para essa nona temporada, The Storm é uma consequência entristecida, quiçá a mais entristecida que The Walking Dead já apresentou em anos de série. O Reino pode até ter sobrevivido às perdas, mas não sobreviveu à natureza, a um pessimismo que não possui cura, naturalmente executando um término a certas esperanças, a certos reinados. A calmaria de antes, interrompida com o massacre nas estacas, ganha a sua tempestade consequente, em uma temporada que recorrentemente brincou com um outro inimigo para os nossos personagens – os perigos naturais. Angela Kang enfim nos apresenta neve em uma série – ambientação constante nos quadrinhos – que recorrentemente usou de passagens de tempo para pular esse período. Um desamparo então surge. Mas como enfrentá-lo?

O episódio em questão, mesmo com o peso que uma season finale carrega, rejeita criar novos confrontos objetivos com os Sussurradores. Tornam-se ameaças fantasmagóricas, invisíveis como é a fronteira criada por Alpha (Samantha Morton). Para muitos, essa soará como uma conclusão um tanto anti-climática, quando, na verdade, o clímax da temporada já aconteceu – em The Calm Before – e só sobraram as consequências mesmo, a serem solucionadas em meio a muita neve e gelo. Esse é um episódio conciso em si, criando uma premissa na superfície que é nova até: a necessidade dos moradores do Reino, caído, se mudarem para outra comunidade, em vista da infraestrutura do espaço ter se deteriorado com o tempo. Isso, aliás, conversa imediatamente com um ponto apresentado episódios antes, quando Henry (Matt Lintz) estava para emigrar do Reino e a questão da estrutura da comunidade, seus encanamentos e afins, tornava-se uma pauta urgente.

Mas, agora, Henry morreu e temos um pretexto para os personagens repensarem os seus relacionamentos, enquanto precisam enfrentar uma nevasca no meio do caminho, entre o Reino e Hilltop. Ezekiel (Khary Payton) perdeu a sua morada e o seu príncipe. Carol (Melissa McBride) perdeu mais um criança. É comum para pais que perdem filhos terminarem por se separar. Como também é comum para esses sobreviventes, após tanto tempo juntos, se unirem ainda mais em frente a situações tão extremas. Muito mais do que juntar peças de vários episódios em um quebra-cabeça orgânico, Angela Kang enxerga as possibilidades que possuem em frente a essa nova ambientação. Como os mortos-vivos se comportam no inverno? Como os sobreviventes, ora, sobrevivem? Um suspiro em termos de criação, margeando ótimas cenas comandadas por Greg Nicotero,  como o momento paranoico em que mortos congelados se parecem com Sussurradores.

Pois até mesmo uma cena com Daryl (Norman Reedus) tentando matar um errante, que é realmente gratuita para o episódio – momentos de tensão com pouca tensão -, se justifica em termos imaginativos, com o besteiro terminando o serviço com uma estalactite sendo cravada no crânio do morto-vivo. Também temos os mortos que surgem de dentro da neve e o andarilho preso a um pequeno monte. Greg Nicotero captura a névoa sem precisar sumir completamente com o resto do cenário. O episódio é um dos visualmente mais interessantes da série. É um cenário de caos, como a nevasca que também atinge Alexandria paralelamente promove – e que desenrola-se para uma outra necessidade narrativa, em decorrência da explosão de uma chaminé. Mas o maior caos é o que acontece no interior dos personagens. O problema não é o frio congelante, no entanto, o cão estar perdido na neve, sozinho, e Judith (Calley Fleming) não conseguir encontrá-lo.

Os problemas vão se ressignificando com o tempo, com as questões a serem expurgadas pelos personagens tornando-se mais urgentes. O capítulo assemelha-se até mesmo com Them: uma sobrevivência crua, com dramas pungentes e situações naturais aparecendo ao acaso, enquanto os personagens precisam progredir em meio a um cenário apocalíptico. Lydia (Cassady McClincy), por exemplo, está insatisfeita em ser vista com suspeita. A garota terminará precisando superar suas intenções suicidas. É uma cena muito boa a da menina quase entregando seu braço a um zumbi – me relembrou dos quadrinhos, onde Carol se matou assim. Carol (Melissa McBride), por sua vez, só observa a situação. The Storm encerra a temporada sem pretender ser um episódio explosivo e estimulante, porém, um grande capítulo que conclui, uniformemente, várias das tramas que Angela Kang abriu no decorrer desta temporada. O que continua é a esperança – o cliffhanger.

The Walking Dead – 9X16: The Storm — EUA, 31 de março de 2019
Showrunner: Angela Kang
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Angela Kang, Matt Negrete
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Calley Fleming, Melissa McBride, Josh McDermitt, Christian Serratos, Seth Gilliam, Ross Marquand, Khary Payton, Cooper Andrews, Traci Dinwiddie, Callan McAuliffe, Kerry Cahill, Rhys Coiro, Avi Nash, Matt Mangum, Aaron Farb, Mimi Kirkland, Briana Venskus, Mandi Christine Kerr, Jennifer Riker, Jeffrey Dean Morgan, Eleanor Matsuura, Nadia Hilker, Dan Fogler, Lauren Ridloff, Cassady McClincy, Samantha Morton, Steve Kazee, Ryan Hurst, Rutina Wesley
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.