Home TVTemporadas Crítica | The Walking Dead: World Beyond – 1X07: Truth or Dare

Crítica | The Walking Dead: World Beyond – 1X07: Truth or Dare

por Iann Jeliel
1192 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há SPOILERS. Leiam aqui as críticas de World Beyond e, aqui, as de todo o universo The Walking Dead.

Não dá para dizer que World Beyond finalmente engrenará depois daqui, mas fato é que Truth or Dare é o capítulo isoladamente mais equilibrado da série até o momento, capaz de firmar com coerência sua proposta jovial, mas num nível de maturidade que confirme sua presença na hostilidade do universo The Walking Dead. Começou suspeito, é verdade, com aquela enjoada trilha sonora melosa que, como havia dito em alguma das outras críticas, é o ponto mais fraco da série, capaz de invalidar completamente o tom do episódio pela breguice. A trilha está presente em demasia nos primeiros minutos, que dão múltiplos close-ups na face de Silas encarando Percy & Iris no maior clima de novela mexicana, de um triângulo amoroso que só de pensar a respeito leva ao constrangimento.

Além disso, o início indicaria mais um filler, onde a narrativa em si pouco avançaria e mais uma vez teríamos o espaço para o desenvolvimento dos personagens, no princípio, de alguma forma direcionada a esse triângulo amoroso e a Huck, protagonista em flashbacks. Pelo primeiro, não dá para saber muito a proposta ainda, afinal, trata-se de uma cena num barzinho parecida com a cena de abertura psicodélica em sonho. A impressão eficientemente passada é de que sua dramática de alguma forma se relacionaria também a um romance cessado, e essa ponte forneceu dois materiais perfeitos de desvio para o que o episódio realmente buscaria. Antes disso, preciso mencionar que para a narrativa principal, tudo continua muito fácil, a exemplo do “mágico” que já entrega ao grupo de bandeja a localização de vários postos de combustível da CRM, e pela lógica descoberta, Iris descobre facilmente onde seu pai estaria – nossa, como você é inteligente, Iris, parabéns! -, ou seja, menos esse desafio daqui para frente.

Enfim, vamos ao que de fato é bom no episódio, e começa a partir de quando os jovens passam a brincar de verdade ou desafio. É uma cena muito melhor do que parece, a configuração do olhar de Silas muda quando ele impede que Percy continue na sua pergunta a Hope, que vira um gatilho para um belo suspense de revelar a verdade ou não para Elton de que ela matou sua mãe. Se esse se tornasse o mote do episódio, já o tornaria bom, afinal, foi o conflito com maior potencial que a série estabeleceu até aqui. Mas o capítulo vai além e realmente desenvolve esse suspense numa dramática complementadora ao passado de Huck, não à toa escolhido para ser o flashback da vez.

Huck era militar nos primórdios do apocalipse e precisou tomar uma atitude difícil que criaria uma casca para ser quem ela é no momento. E o legal é que dentro do que se conduz nesse flashback, passamos a crer que a tal atitude era de ser forçada a matar os civis por ordens de seus superiores, que não tinham mais como conter a situação. Em contraponto, o terceiro ato do episódio, quando Huck precisava salvar Hope de um sobrevivente hostil (finalmente um apareceu) que a fez de refém no local onde havia combustível escondido da CRM. Hope, que mais cedo contou seu segredo para Huck, o que era condizente com o laço estabelecido por elas, e só deixou toda essa situação criada com o sobrevivente ainda mais tensa e consequente.

Na resolução espelhada, Huck o mata mesmo prometendo sua salvação, em contrapartida, vemos que ela no passado não matou os civis, e sim seus companheiros militares. Ou seja, a casca criada em tese por uma boa atitude a levou à frieza de ser uma sobrevivente. Mas ela relembra isso por meio da cicatriz no rosto, do lado inverso à cicatriz no rosto daquele seu amigo no bar, o que deixa implícito que ela o amava. Sem precisar dizer nada, apenas com a sugestão das imagens, o episódio consegue transmitir perfeitamente a densidade dramática da personagem, dentro da intenção da série em não precisar confirmar dramas com apelo gráfico. Michael Cudlitz até a mostra dando o tiro, mas não mostra quem está levando, porque a dor está em quem é mostrado.

Escolha perfeita do diretor, que se demonstrou com esses dois últimos capítulos ser o nome de melhor calibre para conduzir a série. Mesmo que Shadow Puppets tenha se fechado de uma forma decepcionante, era um episódio de ideias muito claras, assim como esse que conclui com apenas uma situação bem-construída de tensão, também a dramática de culpa de Hope, que reconheceria o egoísmo de contar para Elton em que ela fica em conflito desde o gatilho do Verdade ou Desafio. Pode até não ter acabado o arco ainda, pois é possível Elton descobrir de uma outra forma, até porque há um pequeno clima de romance não correspondido por parte dele acerca de Hope, mas da parte dela, o conflito já fez sua parte em evoluí-la. E felizmente, diferente de Shadow Puppets, Michael Cudlitz teve a oportunidade de acabar com o gosto da desesperança.

Ainda não gosto de Silas, de longe o pior do quarteto, mas o gancho final que consta dele ter matado Tony, e aparentemente tentado matar Percy por ciúme, é um ótimo jeito de se acabar um episódio, mesmo que a motivação no grosso seja absolutamente infantil. Há a desculpa boa aí de aproveitar seu lado psicótico que não foi bem desenvolvido em Tyger and the Lamb e agora pode ser, dentro de um conflito raiz de The Walking Dead, o que fazer com quem matou pessoas próximas? Aliás, se não houver nenhum outro pormenor por trás, esse pode ser o fim do “quarteto” projetado nos primeiros episódios, porque como confiar em Silas novamente, como lidar com um conflito emocional presente? Até agora, tudo era sobre bases do passado. Enfim, pode até ser que todas essas possibilidades não sejam aproveitadas para os próximos capítulos, mas o mérito de Truth or Dare em ter tomado essa linha maior de risco por uma construção equilibrada permanecerá independentemente disso.

The Walking Dead: World Beyond – 1X07: Truth or Dare | EUA, 15° de Novembro de 2020
Direção: Michael Cudlitz
Roteiro: Eddie Guzelian
Elenco: Aliyah Royale, Alexa Mansour, Hal Cumpston, Nicolas Cantu, Nico Tortorella, Annet Mahendru, Scott Adsit, Ted Sutherland, Gil Perez-Abraham, David A MacDonald, Paul Teal, Michel Curiel, John-Paul Steele
Duração: 43 minutos

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