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Crítica | Thor (2020) – Vol. 1: O Rei Devorador

por Ritter Fan
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É muito raro a Marvel Comics conseguir lidar de maneira bem-sucedida com tramas de escala realmente cósmica. Não digo que faltam histórias que tentam alcançar o escopo necessário, mas meu ponto é que elas normalmente acabam razoavelmente confinadas a situações específicas que não permitem que a majestade do evento seja explorada como deveria. Claro que há exceções e Aniquilação, Aniquilação: Conquista e Infinito são as primeiras que me vêm à mente, ainda que estas sejam saga, mais afeitas a essa abrangência. Arcos narrativos com a magnitude necessária dentro de “meras” publicações mensais normais como por exemplo Vingadores vs Thanos são incrivelmente raros.

Mas a boa notícia é que Donny Cates parece muito determinado a abraçar de maneira massiva o lado cósmico da editora de maneiras novas, divertidas e ambiciosas. Mesmo com sua pegada interessante sobre Thanos, a criação do Motoqueiro Fantasma Cósmico, seu run em Guardiões da Galáxia, da completa “cosmicalização” de ninguém menos do que Venom e da radical transformação do Surfista Prateado na excelente minissérie Surfista Prateado: Black é com Thor que ele realmente lida com um evento cósmico de proporções muito poucas vezes visto nos quadrinhos da editora, mostrando, mais uma vez, que o roteirista parece ter um plano macro de longo prazo que se assemelha muito ao que Brian Michael Bendis mostrou que tinha desde lá atrás em Guerra Secreta.

Já mencionei o quanto desgostei das mudanças visuais no Deus do Trovão que Cates e o artista Nic Klein empreenderam logo no começo do arco quando fiz a crítica da primeira edição. O agora Rei Thor recebe a “visita” de Galactus que anuncia a chegada do Inverno Negro, entidade que destruíra seu universo original, e transforma o asgardiano em seu arauto de forma que eles possam fazer o que for necessário para que o mesmo não aconteça com o universo atual. O problema é que isso desfaz, literalmente como um passe de mágica, tudo aquilo que Jason Aaron construiu ao longo de anos e que deixou Thor sem um braço e sem um olho e com aparência mais bárbara, mais próxima dos Vikings de lenda. E, como se isso não bastasse, ele ainda ganhou um uniforme novo todo “iluminado” e com estrelinhas, além de madeixas loiras lisas típicas de anúncios de xampu.

Mas, visual à parte, já no primeiro capítulo do arco composto de seis edições, Cates mostra sua habilidade em criar uma história intrigante, que imediatamente captura a imaginação do leitor e que muito eficientemente leva Thor, de um super-herói aposentado e feliz que agora é Rei de Asgard a um homem que carrega o peso do universo sobre seus ombros, preparando o terreno para eventos futuros. Muitas sagas tentaram fazer o que Cates faz aqui na continuidade normal de Thor e falharam fragorosamente e isso mostra o quanto o roteirista tem valor para o futuro da Marvel Comics.

(1) Thor vs Bill Raio Beta e (2) o Surfista chega para conversar com o depressivo Rei Thor.

E o melhor é que o escritor não faz nada pretensioso ou complicado. A premissa é surpreendentemente simples: o Inverno Negro está chegando e Galactus precisa da ajuda de Thor para devorar cinco planetas com características especiais que lhe darão poder suficiente para lidar com a ameaça. Isso é estabelecido de cara logo na primeira edição e as outras cinco apenas levam à execução do plano e ao enfrentamento do Inverno Negro, com todas as reviravoltas de praxe que mudam o status quo do universo Marvel.

Mas, diferente de um arauto comum, submisso e controlado por Galactus, Thor demonstra vontade própria e, mais ainda, manipulação do poder cósmico ao seu bel-prazer, devolvendo-o a Galactus e retirando-o de Galactus quando ele – Thor – quer e não quando o Devorador de Mundos decide. Essa alteração da dinâmica de forças é essencial para a história realmente funcionar, pois seria muito estranho que Thor se tornasse apenas um peão para levar a destruição a planetas habitados na galáxia, algo obviamente contrário à sua natureza. Com isso, instala-se um dilema que Thor vai equacionando na medida do possível, mesmo que, para isso, ele tenha que enfrentar seu amigo Bill Raio Beta (é assim que se faz uniforme novo!) e também Lady Sif, agora no lugar de Heimdall comandando Bifrost e observando tudo.

É impressionante como, mesmo com um número relativamente diminuto de páginas, a escala cósmica que mencionei seja realmente explorada em todo seu potencial. A história nunca fica confinada a um ambiente só ou mesmo a um planeta só, com Nic Klein fazendo seu melhor – e conseguindo – para lidar com uma pancadaria cada vez maior, capaz de ser sentida nos confins do universo. Se existe um problema na progressão da história é que o enfrentamento de Thor e Bill Raio Beta toma o espaço de mais de uma edição, o que é desproporcional com o restante. Mas há uma razão para isso, que é exatamente discutir a moralidade da aliança de Thor com Galactus, mesmo que seja pelo bem comum (o que já se fez de atrocidade pelo bem comum não está no gibi!), com Bill tentando ser a bússola moral de Thor até o fim.

Além disso, de certa forma – mas apenas de certa forma – o enfrentamento do Inverno Negro seja difuso demais, por algumas vezes lembrando o “Galactus nuvem” de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. Mas calma, não arregalem os olhos com essa minha afirmação. A execução da coisa toda é muito – mas muito melhor – do que no malfadado longa de Tim Story, especialmente porque a forma que o Inverno Negro revela ter não só é uma obra de arte por parte de Klein, como também abre um infinito de possibilidades narrativas para o futuro.

E esse futuro, que é vislumbrado em uma página apenas, se for realmente para ele acontecer, parece comprovar algo que já suspeitava há muito tempo: que a Marvel Comics entregou as rédeas da Casa das Ideias para Donny Cates fazer o que quiser com seu universo. Será muito interessante acompanhar esse processo, podem ter certeza.

Thor – Vol. 1: O Rei Devorador (Thor – Vol. 1 – The Devourer King, EUA – 2020)
Contendo: Thor (2020) #1 a 6
Roteiro: Donny Cates
Arte: Nic Klein
Cores: Matt Wilson
Letreiramento: Joe Sabino
Capas: Olivier Coipel, Laura Martin
Editoria: Sarah Brunstad, Wil Moss, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a agosto de 2020
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: não lançado na data de publicação da presente crítica
Páginas: 154

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