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Crítica | Tickled

por Ritter Fan
221 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Obs: Apesar de ser um documentário baseado em fatos reais ou, pelo menos, na interpretação de fatos pelas lentes dos diretores, e de não haver spoilers na crítica, é altamente recomendável, diante da estrutura da narrativa, que Tickled seja assistido sem conhecimento prévio algum. Desbravem o filme e surpreendam-se! E, depois, voltem aqui…

A forma mais saudável de se encarar Tickled é como se ele fosse um episódio de Black Mirror. Digo saudável, pois o documentário neozelandês começa de um jeito, se desenvolve de outro e nos deixa com constatações aterradoras sobre a natureza humana e sobre o uso da tecnologia ao seu final. Portanto, encarar tudo como ficção é mais reconfortante e agradável e menos comprometedor. Mas, infelizmente, os eventos de Ticlked, mesmo que filtrados pela interpretação dos diretores, são verdadeiros.

David Farrier, repórter neozelandês especializado em bizarrices, um dia, lá por 2013, esbarrou em uma página do Facebook dedicada a algo chamado “competição de resistência à cócegas” (foi a melhor tradução que consegui fazer de competitive endurance tickling) em que homens jovens e fortes “sofrem” cócegas de outros homens jovens e fortes. Curioso, ele manda um e-mail para lá e, ato contínuo, recebe uma violenta resposta em que a dona da página e aparentemente da produtora Jane O’Brien Media, produtora dos vídeos da competição, diz que não quer saber de David, pois ele é gay (e ele é) e não quer sua empresa conectada de alguma forma com esse tipo de “desvio de caráter”.

O que qualquer repórter que se preza faria diante de situação como essa? Cavaria mais fundo, não é mesmo? Especialmente porque a tal dona passa a fazer bullying com David, mandando mensagens ameaçadoras diárias para ele. Não se fazendo de rogado, o intrépido David começa a achar mais e mais informações sobre a misteriosa empresa e o bizarro “esporte”, o que o leva a escrever um artigo e a iniciar uma campanha no Kickstarter para angariar fundos justamente para o documentário sob análise. É nesse ponto que a coisa começa a ficar mais séria e a Jane O’Brien Media passa a realmente tomar medidas para que ele pare de fazer o que está fazendo…

Assim, um documentário que seria sobre um surreal campeonato de cócegas dá uma guinada completa e envereda por caminhos cada vez mais esquisitos e sombrios. E David Farrier, com seu amigo geek Dylan Reeve, criam uma obra investigativa que faria inveja a muitos filmes e séries de TV do gênero por aí, genuinamente construindo uma narrativa de suspense que conta com pesquisas a fundo, remontando ao começo da internet como a conhecemos hoje, passando por entrevistas que dão calafrios e revelações surpreendentes que montam um quadro quase inacreditável que vai muito – mas muito mesmo – além da premissa inusitada, mas bem inocente que o título deixa entrever.

É como um mergulho nas entranhas escuras, sujas e fedorentas de manipulação da mídia e do poder do dinheiro que suga o espectador para dentro desse redemoinho na mesma proporção que David e Dylan são sugados, tornando o documentário uma pequena pérola que não pode ser perdida por quem gosta do gênero ou mesmo por quem apenas procura uma história aterrorizante que, por acaso, é verdadeira. A experiência de se assistir Tickled é, chegaria a dizer, única, pois vários elementos que são desvelados mais para a frente, quando o caldo realmente começa a engrossar (estou sendo críptico propositalmente aqui), são coisas que podem, de uma maneira ou de outra, fazer parte do dia-a-dia de muita gente. As portas secretas que os diretores – e vítimas – vão abrindo são de fazer o queixo cair e vão muito além do tal “esporte” para lá de estranho.

Falando nas cócegas, aliás, é importante salientar que, se algum espectador espera aprender mais sobre esse fetiche (por curiosidade ou por tê-lo, não sei…), ele potencialmente sairá desapontado. Não que não haja uma interessante abordagem sobre esse submundo, pois há, mas sim porque simplesmente as circunstâncias levaram a história a outro caminho muito mais inacreditável, interessante e, francamente, assustador.

Usando de artifícios típicos de filmes de suspense, como trilha sonora antecipativa, construção narrativa lenta, mas lógica e trabalhando muito bem uma montagem célere que deixa o espectador roendo as unhas, o documentário é um inesperado triunfo fílmico que nos deixa com a certeza de que a realidade é realmente bem mais estranha que a ficção.

Tickled (Nova Zelândia, 2016)
Direção: David Farrier, Dylan Reeve
Com: David Farrier, Dylan Reeve, David Starr, Hal Karp
Duração: 92 min.

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10 comentários

Handerson Ornelas. 6 de agosto de 2017 - 00:54

Cara, saporra é uma das coisas mais intrigantes que já assisti. Excelente crítica, Ritter!

Responder
planocritico 6 de agosto de 2017 - 14:55

Valeu,, @handersonornelas:disqus ! Confesso que saí meio atordoado do documentário… Não esperava absolutamente nada do que vi ali e fiquei com medo…

Abs,
Ritter.

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Tiago Lima 22 de janeiro de 2017 - 16:13

Acabei de ver este documentário, e a única coisa que consegui pensar após finalizar a fita é: Cara, isso é Catfish ( aquele programa da MTV ) no nível “extra hard”.

E é como você, muito bem aliás, apontou na crítica: Nos faz pensar como é estranha, em um primeiro momento, a natureza do desejo humano ( por que eu nunca imaginei que existam pessoas com fetiche por cócegas ) e como a tecnologia e a internet podem ser corrosivas em nossa sociedade atualmente. E o lance é este, é levar com uma ficção, um episódio de Black Mirror, por que senão entramos em um looping de paranoia. Mas também nos serve como um aviso de como usar de forma mais saudável a internet.

Responder
Tiago Lima 22 de janeiro de 2017 - 16:13

Acabei de ver este documentário, e a única coisa que consegui pensar após finalizar a fita é: Cara, isso é Catfish ( aquele programa da MTV ) no nível “extra hard”.

E é como você, muito bem aliás, apontou na crítica: Nos faz pensar como é estranha, em um primeiro momento, a natureza do desejo humano ( por que eu nunca imaginei que existam pessoas com fetiche por cócegas ) e como a tecnologia e a internet podem ser corrosivas em nossa sociedade atualmente. E o lance é este, é levar com uma ficção, um episódio de Black Mirror, por que senão entramos em um looping de paranoia. Mas também nos serve como um aviso de como usar de forma mais saudável a internet.

Responder
planocritico 23 de janeiro de 2017 - 14:42

@disqus_EYUuNRKx0g:disqus , a combinação desse lado, digamos, bizarro da natureza humana com o lado perigoso em um verdadeiro plot twist, faz deste um documentário realmente diferente e assustador… Fiquei chocado quando ele acabou…

Abs,
Ritter.

Responder
Marlon Christian 19 de janeiro de 2017 - 03:12

Vi o post da crítica no FB de vocês e tive que me conter MUITO para não lê-la. Mas valeu a pena, e como! Acabei, literalmente, de assisti-lo e estou completamente aterrorizado. Eu pessoalmente sempre gostei de imaginar como é a natureza humana ao redor do mundo, que tipos de coisas cada ser humano é capaz de fazer/pensar/sentir, mas isso na esfera da curiosidade. Da variedade de comportamento que cada indivíduo possui e que o torna único.

O problema é quando você se depara com comportamentos como o mostrado em Tickled que, infelizmente, nos faz perceber o quão fundo um ser humano pode ir e do que ele é capaz ao tomar atitudes malignas (um tanto piegas, mas foi a única coisa que veio) e bizarras que até então, não se passam pela nossa cabeças. Quer dizer, como seria possível que alguém realmente fizesse algo do tipo, não é mesmo?

E essa “caída de ficha” é o que mais choca em Tickled e que considero seu grande mérito. Exatamente como em um episódio de Black Mirror.

PS: Ritter, você teria mais dicas de documentários nessa mesma vertente? Como por exemplo o “Going Clear: Scientology and the Prison of Belief” que assisti recentemente e sai igualmente perturbado.

Responder
Marlon Christian 19 de janeiro de 2017 - 03:12

Vi o post da crítica no FB de vocês e tive que me conter MUITO para não lê-la. Mas valeu a pena, e como! Acabei, literalmente, de assisti-lo e estou completamente aterrorizado. Eu pessoalmente sempre gostei de imaginar como é a natureza humana ao redor do mundo, que tipos de coisas cada ser humano é capaz de fazer/pensar/sentir, mas isso na esfera da curiosidade. Da variedade de comportamento que cada indivíduo possui e que o torna único.

O problema é quando você se depara com comportamentos como o mostrado em Tickled que, infelizmente, nos faz perceber o quão fundo um ser humano pode ir e do que ele é capaz ao tomar atitudes malignas (um tanto piegas, mas foi a única coisa que veio) e bizarras que até então, não se passam pela nossa cabeças. Quer dizer, como seria possível que alguém realmente fizesse algo do tipo, não é mesmo?

E essa “caída de ficha” é o que mais choca em Tickled e que considero seu grande mérito. Exatamente como em um episódio de Black Mirror.

PS: Ritter, você teria mais dicas de documentários nessa mesma vertente? Como por exemplo o “Going Clear: Scientology and the Prison of Belief” que assisti recentemente e sai igualmente perturbado.

Responder
planocritico 20 de janeiro de 2017 - 02:19

@marlonchristian:disqus , que legal que tenha gostado. Esse documentário é assustador mesmo e mostra infelizmente o outro lado da moeda da humanidade. Uma tristeza.

Agora sobre documentários assim que chocam a gente, você já viu a “dobradinha” O Ato de Matar e O Peso do Silêncio? São documentários pesados, daqueles que te revoltam profundamente, mas que são extremamente importantes de serem vistos. Sugiro que veja sem saber muito sobre eles e começando por O Ato de Matar.

Fiz as críticas dos dois aqui para o site, se um dia quiser conferir:

https://www.planocritico.com/tag/joshua-oppenheimer/

Abs,
Ritter.

Responder
Marlon Christian 20 de janeiro de 2017 - 04:10

Opa, vou atrás!

O Ato de Matar eu já conhecia mas acabei deixando passar, erro meu. Aproveitarei o feriado prolongado para assistir ambos. Obrigado pela dica! (:

Responder
planocritico 20 de janeiro de 2017 - 02:19

@marlonchristian:disqus , que legal que tenha gostado. Esse documentário é assustador mesmo e mostra infelizmente o outro lado da moeda da humanidade. Uma tristeza.

Agora sobre documentários assim que chocam a gente, você já viu a “dobradinha” O Ato de Matar e O Peso do Silêncio? São documentários pesados, daqueles que te revoltam profundamente, mas que são extremamente importantes de serem vistos. Sugiro que veja sem saber muito sobre eles e começando por O Ato de Matar.

Fiz as críticas dos dois aqui para o site, se um dia quiser conferir:

https://www.planocritico.com/tag/joshua-oppenheimer/

Abs,
Ritter.

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