Crítica | “Tigermilk” – Belle & Sebastian

estrelas 4

A banda Belle & Sebastian foi criada por dois amigos, Stuart Murdoch e Stuart David, que se conheceram por acaso no Stow College, em Glasgow, na Escócia, em 1996. Murdoch, que tinha uma porção de letras escritas, estava meio perdido quanto ao rumo que daria ao seu trabalho final na faculdade de música e, após uma conversa com David, resolveu o problema procurando pessoas para formar uma banda e então gravar o sigle que o selo da faculdade (Electric Honey) financiava para os alunos em fase de conclusão de curso.

O resultado foi tão positivo que a Electric Honey resolveu bancar a gravação do disco inteiro da Belle & Sebastian. E assim nasceu Tigermilk (1996), um disco com uma tiragem de apenas 1000 vinis que, como vocês devem imaginar, rapidamente se tornou um item raro e de alto valor no mercado. O nome do disco, Tigermilk, é o título de uma canção que não ficou pronta a tempo de ser gravada. Durante as primeiras turnês da banda, uma versão instrumental dessa canção foi executada nos shows.

Existem duas teorias que explicam o por quê de Belle & Sebastian. Uma, alude ao casal Stuart Murdoch e Isobel Campbell (vocais e cello da banda entre 1996 e 2002), teoria negada por Murdoch diversas vezes. Outra, oficial, faz referência à obra homônima da escritora francesa Cécile Aubry, transformada em filme em 2013.

Algumas canções do álbum foram utilizadas por obras cinematográficas e televisivas, como I Don’t Love Anyone, que esteve na trilha sonora de O Diabo Veste Prada (2006) e na 1ª Temporada de Girls. Já as canções My Wandering Days Are OverExpectations apareceram na trilha sonora de Juno (2007).

Como a formação original da B&S se alterou ao longo dos anos, listarei no toggle abaixo os músicos que fizeram parte da gravação de Tigermilk, para que não haja confusão.

Formação da banda em Tigermilk

  • Stuart Murdoch — vocais e guitarra
  • Stuart David — baixo
  • Isobel Campbell – cello
  • Chris Geddes – teclados e piano
  • Richard Colburn – bateria
  • Stevie Jackson – guitarra
  • Mick Cooke – trompete
  • Joe Togher – violino


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“Bandinha de Faculdade” com Qualidade

Imagino que alguém que ouça a voz de Stuart Murdoch pela primeira vez ache-a extremamente curiosa. Com uma tessitura relativamente pequena e rouca, o tenor tem uma delicadeza que muitas vezes impede que determinadas canções decolem como deveriam, detalhe prontamente compensado pela graça com que ele interpreta as canções. Como apresentação para noobs, a minha primeira indicação é sempre The State I Am In, música de abertura de Tigermilk e que nos dá várias dicas sobre a identidade do álbum e sobre o estilo musical da banda. Já aí vemos misturados muitos elementos de outros grupos escocesas a quem B&S devem suas raízes, como BMX Bandits, The Pastels e The Vaselines.

O andamento em crescendo de The State I Am In, seu caráter de “história de vida” — ponto central do álbum, vale dizer — e o belo arranjo de de pop de câmara que possui, dá a entrada perfeita para o disco, cujo único ponto fraco é Electronic Renaissance, uma canção que parece ter sido tirada de uma outra banda e colocada clandestinamente aqui. A produção da faixa é interessante, porque o “eletrônico” do título é reimaginado em variações raríssimas dentro do indie pop dos anos 90, mas a faixa em si não combina com o álbum, nem em letra e nem em estilo.

Expectations, a segunda canção, tem uma das melhores produções sonoras de Tigermilk, juntamente com a viciante My Wandering Days Are Over, ambas com abordagem de compassos diferentes ao longo das estrofes (a primeira mais que a segunda) e com um início que mente sobre o que é a música, pois ao longo dos versos, observamos surgirem novos padrões harmônicos, instrumentos de percussão, simpáticos solos de trompete, vocais dóceis e, para completar, letras que falam diretamente ao coração de qualquer jovem de idade ou espírito.

Mesmo em composições no estilo de baladas de amor, concebidas para destacar um único instrumento, caso de We Rule the School e Mary Jo (que finaliza o disco), ouvimos um contraponto sonoro imaginativo, nunca deixando de criar uma frase, um sequência harmônica ou um pequeno detalhe que se destacasse na produção. Aliás, essa característica é algo admirável em B&S, que mesmo depois de alcançarem a fama, jamais deixaram de apostar em camadas sonoras facilmente reconhecíveis (e de qualidade) em suas faixas. Mesmo que em alguns álbuns isso seja mais ou menos interessante que em outros, a característica está lá.

Tigermilk, por ser a estreia da banda e por surgir acidentalmente, como um projeto de faculdade, tem um resultado final admirável. O disco traz de tudo um pouco dentro do indie pop, com uma identidade já bastante delineada. Se prestarmos atenção, ouviremos até referências a um subgênero do rock tipicamente britânico na canção You’re Just a Baby (e uma corrupção pop e moderna dele em I Could Be Dreaming); ou um rock “pacificamente revoltado” com um baixo enlouquecido em I Don’t Love Anyone — sem contar a letra no melhor estilo “rebelde sem causa” — e tudo isso bem compactado em uma produção sólida, com pouquíssimos erros nas escolhas estéticas (Electronic Renaissance é o único caso grave, embora She’s Losing It também sofra um pouco disso — ouçam com atenção a adição um tanto forçada de instrumentos no solo de meados para o final da faixa, por exemplo).

Como alguém que simplesmente ama música, gosto muito de acompanhar o nascimento de uma banda, ver a sua transformação, seu crescimento (ou não) através dos anos, e ouvir Tigermilk tanto tempo depois de ser lançado e com a B&S já em outra formação e tentando fazer coisas novas é um exercício de “arqueologia musical” extremamente prazeroso, daqueles que você é incapaz de ouvir uma vez só, uma porque a nostalgia não te permite e outra porque o produto em questão é muito bom.

Aumenta!: Expectations
Diminui!: Electronic Renaissance
Minha canção favorita do álbum: The State I Am In

Tigermilk
Artista: Belle & Sebastian
País: Reino Unido
Lançamento: 6 de junho de 1996
Gravadora: Electric Honey
Estilo: Indie pop, chamber pop

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.