Crítica | Tigertail (2020)

O longa tailandês do cocriador da série Master of None, Alan Yang, trata-se de um estudo de personagem tradicional, com idas e vindas temporais que vão criando um panorama de escolha e consequência até um determinado momento-chave no presente em que elas são refletidas pelo eu-lírico. Por mais que estruturalmente não apresente inovações, a pessoalidade e especificação de contexto do projeto o permite explorar horizontes interessantes de uma problemática pouquíssimo mencionada no cinema hollywoodiano. 

Em suma, o recorte da vida de Pin-Jui demonstra a fragilidade do sonho americano quando imaginado por outras culturas, que buscam na migração um refúgio para as imposições de suas próprias e acabam presas a outra máquina de exploração cultural. O protagonista é sobretudo um produto do misto de culturas, com a infância limitada pela dificuldade de sua mãe em estabelecer um trabalho fixo, o menino precisou aprender a ser sisudo e esconder suas emoções desde cedo para ajudá-la, sem o auxílio de uma figura paterna carinhosa para o blindar ou tornar aquelas dificuldades mais acessíveis. Futuramente isso se reflete na introspecção de sua personalidade, tão fria que mal consegue se comunicar com a filha, ponto de foco narrativo climático. 

Retomando a outra linha do tempo, somente aquele fato, entretanto, não é o único fator de influência, até porque naquele mesmo período ele conhece uma menina, que mais tarde – quando mulher – se tornaria sua paixão jovial e atiçaria seu desejo de sair da repressão do governo taiwanês e partir para viver uma vida amorosa capitalista na América. Infelizmente para Pin-Jui, mesmo com o amor correspondido, a disparidade de classes entre as famílias impede o matrimônio, que logo mais será forçado com uma outra pretendente mais ligada ao círculo familiar. Fica claro que não há química ali, nem no primeiro encontro, mas a chama da juventude e desejo de viver aquela fuga era tão forte que não desmotiva o protagonista, até a cisão no choque de realidade ao chegar por lá.

Ele precisa trabalhar para conseguir o mínimo de dignidade, e isso acaba exponencialmente o afastando da esposa, que parece que nunca amou de verdade. No delinear da narrativa, desfrutamos um pouco também do ponto de vista dela e da filha, até para que o roteiro possa complexar o principal e fazê-lo escapar de possíveis vitimizações. Pelo contrário, o filme não aponta acertos ou erros, mas expõe contextos verossímeis para que o panorama do presente daquela família amargurada faça sentido. É um desfazimento de camadas gradualmente emocional, conduzido com delicadeza por uma ótima performance de Tzi Ma. É possível sentir o que se passa dentro de sua mente mesmo sem ele sair tanto de um padrão de feição, são pequenas gesticulações e reações que fazem toda a diferença à completude da interpretação.

O entrave na hora das interações se torna bastante agonizante, por sabermos através do didatismo autoexplicativo da história que ele foi automatizado por orgulho, já que no fim das contas ele cumpriu seu objetivo, depois de muito tempo apresentou uma vida financeira melhor, construiu uma família, mas com o peso do tempo aquilo perdeu o significado. A montagem, por mais simples que seja, é determinante para essa ideia de esquecimento ser percebida, pois tudo que é mostrado é devidamente escolhido a dedo, a falta de algumas interações específicas reforça essa via de incompletude, são muitos “e se” na vida de Pin-Jui, como contorná-los no agora? É algo a ser explorado pelo terço final.

Esse que talvez precisasse de um pouquinho mais de tempo para mergulhar em certas teses apresentadas, por mais que seja um início de resoluções, elas parecem organizadas de modo abrupto, e poderiam ter sido costuradas de forma mais cautelosa e nem tão objetiva quanto os flashs passados. A via otimista é conquistadora, mas passa a sensação de que esses sentimentos negativos enraizados podem ser esvaídos de uma hora pra outra, o que não deixa de ser plausível, mas quebrar o orgulho é um processo mais complicado. Felizmente, a última cena consegue contornar isso com maestria, esbanjando sensibilidade no fechamento com o melhor que o filme apresentou, essa justaposição de passado e presente como uma imensa completude. Um final belíssimo de um filme igualmente belo e sensível.

Tigertail (Tigertail, EUA – 2020)
Direção: Alan Yang
Roteiro: Alan Yang
Elenco: Lee Hong-Chi, Tzi Ma, Kunjue Li, Christine Ko, Hayden Szeto, Joan Chen, Margot Bingham. Kuei-Mei Yang, James Saito
Duração: 90min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.