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Crítica | Tina – Respeito

por Luiz Santiago
207 views (a partir de agosto de 2020)

Neste 24º álbum do projeto Graphic MSP, o leitor percebe um retorno de temáticas  mais sérias e densas ao selo, com Fefê Torquato à frente de uma das personagens mais diferentonas criadas por Mauricio de Sousa. Tina apareceu formalmente com sua turma pela primeira vez na Folhinha de S. Paulo #337, em fevereiro de 1970 (tendo sido criada em 1964, nas tirinhas), e seu núcleo nos quadrinhos passou a encarnar de maneira cada vez mais frequente, simples e simpática os ideais hippies da década anterior.

Nesta releitura da personagem lançada em setembro de 2019, Fefê Torquato escreve, desenha e colore uma história que está em par com as abordagens críticas sobre o papel e colocação da mulher na sociedade em nossos tempos, revisando conceitos, denunciando crimes e todo tipo de abuso sofrido nas mais diversas áreas. Todavia, mais do que isso, Respeito captura a essência da personagem principal, colocando-a no lugar de milhares de jovens que recém saíram de casa, que buscam por sua independência, procuram uma boa colocação no mercado, experiência na profissão e condições financeiras para levar uma vida de “adulto normal pagador de boleto”.

A questão é que a dinâmica mais clichê possível de nossa sociedade (o trabalho, o salário, as conquistas e os apertos financeiros) depende de inúmeros fatores externos a cada indivíduo, especialmente quando falamos de primeiro emprego formal e das relações sociais em geral. E é aí que o núcleo da história se desenvolve, pois nesse recorte, Tina está começando em uma redação de jornal e junto com os desafios normais de qualquer nova funcionária (ou “foca“, nesse caso), ela precisa enfrentar algo que faz parte do cotidiano das mulheres, nos mais diversos espaços. O assédio sexual.

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Tina conversando com a mãe.

Como disse antes, a HQ trabalha com questões Universais, mas particulariza situações que, embora não sejam únicas, são imensamente críticas em torno do público feminino, com jovens sendo assediadas e tendo como condição para prosseguir na carreira a “obrigatoriedade” de “ceder ao charme” de um chefe assediador. A situação é explorada aqui com a naturalidade e maturidade necessárias para esse tipo de tema. Mas o roteiro não tem apenas esse foco. Ele trabalha diversas relações saudáveis da protagonista ao lado de colegas de trabalho (homens e mulheres, de diferentes orientações sexuais), traz uma participação fantástica — e necessária, convenhamos — de Pipa e Rolo na história e trata de maneira bastante humana e inteligente os problemas de Tina na redação, ao passo que ela faz novas amizades, tem suas matérias elogiadas e sua capacidade como jornalista posta à prova, numa decisão que lhe colocará em difícil jornada, mas necessária e não alheia ao que inúmeras mulheres vem trilhando nos últimos anos, com todas as denúncias legítimas de abuso sexual, estupro e assédio que acompanhamos na mídia.

O trabalho artístico de Fefê Torquato tem uma interessante particularidade. As aquarelas dão uma enorme leveza à história e colaboram muitíssimo para a fluidez da narrativa visual, assim como orientação dos quadros e distribuição dos diálogos, que muitas vezes não estão postos de forma óbvia. A autora adota uma boa dinâmica de passagem do tempo na reta final (com 4 páginas de Tina preparando uma matéria importante), mas ainda assim há uma resolução em elipse e outros pequenos saltos dos quais não sou muito fã, mas que não impediram que a história crescesse para mim. O final tem uma abertura lógica para o futuro da personagem e traz uma finalização ao mesmo tempo realista, amarga e prazerosa. Um flash da vida como ela é. E acenando para as mudanças que esperamos que ela possa ter.

Tina – Respeito (Brasil, setembro de 2019)
Graphic MSP #24
Roteiro: Fefê Torquato
Arte: Fefê Torquato
Cores: Fefê Torquato
Editora: Panini Comics, Graphic MSP, Mauricio de Sousa Editora
Páginas: 98

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13 comentários

Cristiano de Andrade 2 de novembro de 2020 - 19:05

pretendo futuramente dar uma nova chance pra esse gibi pois na primeira vez que li eu não curti.

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Luiz Santiago 2 de novembro de 2020 - 19:09

Depois me conte se melhorou na releitura!

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GENIO PLAYBOY E SAFADÃO VOLTOU 26 de dezembro de 2019 - 03:02

A quinta deve estar usando alguma perna de pau por debaixo da calça,;

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 26 de dezembro de 2019 - 03:20

HAUHAUHAUAHUAHAUHAUHAUAHU SOCORRO!

Responder
Arthur Morgan Returns 8 de dezembro de 2019 - 15:57

Ok, agora quero um gibi do cebolinha sofrendo acusações falsas de estupro

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 8 de dezembro de 2019 - 15:57

WTF???

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Arthur Morgan Returns 8 de dezembro de 2019 - 15:57

Zoeira

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 8 de dezembro de 2019 - 16:12

Coitado do Cebolinha. Só apanha ahhahahahahahahahahah

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Lucas Casagrande 9 de dezembro de 2019 - 12:20

Se o protagonista não for macho os “omi éteru” se dóem e fingem que fazem piadas somente para disfarçar a raiva de ver um quadrinhos que se inspiram em pautas progressistas

Arthur Morgan Returns 10 de dezembro de 2019 - 15:38

Deve ter tirado essa afirmação do cu budy, até porque adoro as HQs da mulher Maravilha

Leonardo Lima 12 de dezembro de 2019 - 17:14

VRAL!

GENIO PLAYBOY E SAFADÃO VOLTOU 26 de dezembro de 2019 - 03:02

Não necessariamente vc, mas o que teve de gente se doendo por essa história foi bizarro.

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