Crítica | Tintim na América

plano critico tintim na américa herge plano critico

estrelas 3

Depois de Tintim no Congo, Hergé produziu um álbum que já começava a ter a graça do que seriam as melhores histórias de Tintim dali para frente. Era a sua terceira realização e, mesmo que ainda trouxesse elementos sociais pouco louváveis de sua época — novamente ressalto a importância da leitura sob um contexto histórico –, o autor trouxe uma série de colocações muito interessantes sobre a dominação dos índios pelos brancos, isso também um sintoma de sua época, mas a colocação ganha ares críticos e pode tranquilamente ser lida desse modo, embora não unicamente; e uma visão particular sobre o crime organizado em Chicago, em plena Lei Seca e sob os reflexos da crise de 1929 (lembremos que a obra original é de 1931 – 1932). Al Capone volta para uma missão jornalística de Tintim e, desta vez, em seu próprio território.

A junção entre o Velho Oeste americano e os Estados Unidos da Era Industrial são bem relacionados pelo autor e ganham uma sequência de quadros com tempo em elipse que é simplesmente maravilhosa, dando a entender não só a modificação rápida do espaço geográfico, após Tintim encontrar o poço de petróleo, mas também a modificação dos valores sociais junto ao desprezo com que os americanos tratavam os nativos, no caso dessa história, os Peles-Vermelhas. Os bandidos, por sua vez, recebem uma atenção toda especial, sendo mostrados como parte indissociável do funcionamento burocrático, econômico e até institucional do Estado.

— Al Capone era, para mim, um personagem quase lendário: foi por isso que eu o coloquei em cena tal qual. (…) Nesta história eu não tinha argumento nem um plano estabelecido. Ia trabalhando ao acaso, ao sabor da inspiração. Em cada semana eu colocava Tintim numa situação difícil, perguntando a mim mesmo, frequentemente, como é que ia tirá-lo dali! Também para mim, as aventuras de Tintim eram uma grande aventura!… Foi só a partir de “O Lótus Azul” que eu modifiquei o meu método de trabalho e tentei construir verdadeiros argumentos.

Hergé

plano critico tintim na américa chega a red skin pele vermelha

Constrangimento pouco é bobagem.

Um ganho louvável em relação ao álbum anterior é a sequência lógica da história, que apesar de se bifurcar em diversas frentes, acaba por afunilar-se em um único ponto, sendo este o verdadeiro objetivo do jovem repórter. A história se conclui sem o endeusamento de Tintim, como ocorrera no Congo, mas com a homenagem a um cidadão extraordinário. É evidente que a mudança de lugar permite essa segunda abordagem, mas não devemos esquecer que as tribos visitadas na América também tinham um intricada hierarquia social e códigos de respeito e honrarias com os quais premiam Tintim e Milu durante sua passagem pela região.

Os índios acabam ganhando, vez ou outra, uma representação infantil que se torna evidente quando o fator religioso é posto em cena. Tendo os princípios sociais guiados pelos deuses e por símbolos específicos, como a machadinha de guerra, vemos um certo desdém do personagem branco para com o costume nativo. O modo com Hergé trabalha isso é praticamente corroborando com essa opinião, uma vez que “Deus mesmo” era o que atendia aos pedidos de Tintim em momentos terrivelmente complicados, como o “milagre” ocorrido na linha férrea.

Mesmo com pontos pouco atraentes no roteiro e um ciclo de ações ainda repetitivos, Tintim na América é um álbum notável. A maior parte da aventura transcorre de maneira ágil e sem desconexão narrativa, sendo apenas acrescida de bandidos, prisões e fugas que ajudam a tornar a história dinâmica e construir a personalidade de Tintim como importante cidadão destemido. Algo que não se deve deixar de observar é o cuidado que o autor tem em não fazer com que o jovem belga pareça um super-herói, fugindo milagrosamente de lugares e situações mortais. É claro que em um momento ou outro acabamos tendo essa impressão, mas nada que retire a verossimilhança da história como um todo. O saldo final, a despeito de todos os tropeços, ainda é positivo.

plano critico tintim na américa passeata plano critico

A América homenageia Tintim.

Com uma linha de história atrativa e bom desenvolvimento dos acontecimentos paralelos na maior parte do tempo, Hergé fez de Tintim na América uma aventura deliciosa, uma acusação descarada e muito divertida ao modus operandi do crime organizado nos Estados Unidos, à ineficiência de parte da polícia e ao nó de valores antigos e modernos que acabavam gerando protestos e manifestações engraçadas, como a velhinha que puxa a alavanca do trem porque se compadece de um veadinho sendo perseguido por outro animal e acaba sendo multada por isso, quando o verdadeiro problema era um garoto amarrado no meio dos trilhos. Sem dúvida é o primeiro álbum do repórter que eu me lembro com carinho dos tempos de infância e que hoje, ao relê-lo, vejo que é de fato a primeira história de Hergé de que gostei de verdade.

Tintin en Amérique (Bélgica, 1931 – 1932)
Publicação original: Le Petit Vingtième, 3 de setembro de 1931 a 20 de outubro de 1932
Publicação encadernada original: Casterman
No Brasil: Editoria Record (1970), Companhia das Letras, outubro de 2008
Roteiro: Hergé
Arte: Hergé
62 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.