Crítica | Tintim no Congo

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Antes de ser colônia da Bélgica, a atual República Democrática do Congo era chamada de Estado Livre do Congo, um reino privado, propriedade pessoal de Leopoldo II. O rei belga trilhou uma delicada campanha para se apropriar do território, contando com intrigas políticas na Europa e tendo o cuidado de não passar uma imagem negativa desse domínio pessoal — em meados do século XIX isso era perfeitamente possível, o monarca ou qualquer outro conquistador europeu deveria apenas pôr em evidência a sua superioridade sobre os conquistados –, especialmente para a sua população, já que ele era um monarca constitucional.

De 1877 a 1908, o Estado Livre do Congo passou por um modelo massacrante de exploração de suas riquezas mais evidentes (marfim e borracha), até que a colonização se tornou oficial e o Estado Livre recebeu o nome de Congo Belga no final de 1908, permanecendo como colônia até 1960.

Não é de se espantar, portanto, que o pensamento de um artista belga do início do século XX fosse aliado ao racismo, eurocentrismo e colonialismo de sua nação, o que invariavelmente o faria produzir obras que refletissem esse pensamento. É evidente que em todos os tempos históricos tivemos pessoas que aprovavam e reproduziam o modelo comum de vida e pensamento de seu meio; como também tivemos pessoas que negaram e lutaram contra evidentes injustiças ou costumes de caráter desumano. No caso de Hergé, tanto pela sua posição social quanto pela característica do que ele produzia no momento, podemos enquadrá-lo na primeira categoria, algo que ele mesmo confirmaria, de maneira branda, quando questionado muitos anos depois sobre o conteúdo racista e culturalmente ofensivo contido em Tintim no Congo, seu segundo álbum, publicado pela primeira vez no Le Petit Vingtième (O Pequeno Século Vinte, em tradução livre, suplemento infanto-juvenil do jornal belga Le Vingtième Siècle, ou O Século XX) entre 5 de junho de 1930 e 11 de junho de 1931. Em entrevista ao escritor, ator e cineasta congolês Numa Sadoul, em 1975, Hergé falou sobre sua posição em relação à obra:

Em Tintim no Congo, assim como em Tintim no País dos Sovietes, é fato que eu estava alimentado dos preconceitos da sociedade burguesa onde eu vivia… Eram os 1930. Eu só sabia coisas sobre esses países a partir do que as pessoas diziam naquele tempo: “Os africanos são umas grandes crianças… Que bom para eles que nós estamos la!, etc.” Então eu representei os africanos de acordo com esses critérios, com o puro espírito paternalista que então existia na Bélgica.

Hergé

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No original, Tintim ensina Geografia a partir do conceito colonialista belga. Quando fosse reimpressa em cores, Hergé mudaria a cena para uma aula de Matemática.

O álbum passou a gerar discussões polêmicas em muitos círculos de Direitos Humanos e Direitos dos Animais após a II Guerra Mundial. Em 2007, foi retirado de circulação na Grã Bretanha e posteriormente trocado da seção infantil para a adulta, nas livrarias. Também houve a restrição de acesso ao livro na biblioteca pública de Nova York. Todavia, o caso mais famoso de protesto em relação ao volume ocorreu em 2010, quando o cidadão congolês Bienvenu Mbutu teve sua denúncia aceita pelo tribunal de Bruxelas, uma queixa que já se arrastava desde as polêmicas de 2007. O caso terminou com a inocentação de Hergé e de Tintim no Congo porque, segundo o tribunal, “face ao contexto da época, não havia intenção discriminatória da parte de Hergé”.

Mas o livro é ou não é racista? A resposta simples e rasa seria: sim, o livro é racista. É certo que se deve levar em consideração o contexto histórico em que uma determinada obra foi produzida e, a partir desse contexto, é possível compreender os motivos políticos, culturais e sociais que impulsionaram o seu conteúdo ideológico. Mas esse fator da História não inocenta qualquer obra de uma discussão moral e ética a posteriori, desde que exista contexto e que a análise seja feita considerando o tempo da produção versus o tempo em que a leitura ocorre. Notem que isso pode ser feito com uma série de outras posições polêmicas, opiniões e comportamentos que, com o tempo, se tornaram ofensivos. Só é preciso ter cuidado com os anacronismos.

Mesmo tendo Hergé se retratado anos depois e republicado a obra com diálogos e exposições menos agressivas, é perfeitamente possível identificar o tratamento estúpido e subserviente que os congoleses recebem na trama. E então pergunta-se: era possível realizar algo diferente em 1931? Sim, era possível. Mas era comum? Absolutamente não. Sob nenhum aspecto.

Ao considerar o meio em que Tintim no Congo surgiu, não espanta o conteúdo da obra. É fácil localizá-lo como um reflexo colonialista da Bélgica no início do século XX, mas isso não tira a acusação de que há racismo manifestado nas páginas da HQ. O que estranha é observar como uma parte dos fãs e mesmo críticos da obra de Hergé se colocaram contra o cidadão congolês que teve a denúncia aceita pela Corte belga, dizendo que era uma “denúncia ilegítima”. Admitir que o conceito de uma produção foi errado, especialmente porque data de um tempo em que tal abordagem era senso comum, não é demérito para nenhum fã ou para o produto artístico em questão. Ao contrário, ele se torna um documento histórico.

Acho exagero a imposição de uma restrição ao quadrinho, sua proibição ou qualquer outra coisa que o tire do contato com o público. Aliás, essa é a pior forma de lidar com um caso assim. O que deveria ser feito era a inclusão de um texto introdutório (redigido por um historiador, não pelo editor do álbum) que apresentasse o livro em questão à luz do tempo em que foi concebido. Desse modo, a ponte entre o passado e o presente seria construída, a obra continuaria com um conteúdo condenável, mas o leitor saberia o por quê daquilo. Mesmo não concordando, poderia apreciar o álbum de maneira crítica e discutir sobre ele.

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A tribo comenta a chegada de Tintim e Milu. Observem que eles já virarm divindades.

Em parte, a justiça belga acertou em seu veredito. Imagine só a quantidade de processos que surgiriam em relação a um sem-número de quadrinhos escritos já há algum tempo e que guardam a ideologia de sua época, hoje considerada ofensiva. Por outro lado, acredito que o tribunal deveria sim ter obrigado (pelo que entendi não houve a obrigatoriedade do texto introdutório contextualizando a obra) as editoras apresentarem o um panorama histórico à guisa de prefácio nestas publicações. Isso, inclusive, a tornaria mais rica e interessante.

Mas fora a polêmica, Tintim no Congo é uma boa história? Infelizmente não. E compreendido o impasse do racismo, a má qualidade da obra se torna o seu pior problema. A arte é praticamente o único elemento menos incômodo, assim como as cores aplicadas a partir da segunda publicação, que além de condizerem com a região que retrata, ganha uma identidade fixa durante todo o livro, o que nos ajuda a contextualizar geograficamente bem o território representado.

O real problema do álbum é o texto. Na sequência incessante de eventos, passamos de um “dia de cão” de Milu para as aventuras questionáveis de Tintim no país africano. No meio da história, temos uma missão cristã e até um feiticeiro nativo de má índole + criminosos a serviço de Al Capone! Uma verdadeira sopa de acontecimentos imediatos e que não possuem uma única guinada para o desenvolvimento da história, não se inter-relacionam e não se fecham a contento. Se olharmos pelo ponto de vista narrativo, os únicos momentos verdadeiramente bons são a abertura e o encerramento.

Mesmo sendo um álbum ruim, de tendência historicamente racista e de extremo mau trato aos animais (Tintim retira a pele de um macaco que ele abate e a veste para enganar outro macaco e, na sequência, explode um rinoceronte! — as edições atuais mostram os quadros do rinoceronte aos pedaços de outra forma, mas até a primeira edição colorida, datada de 1946, ela existia, inclusive na primeira publicação do álbum no Brasil era possível ver este acontecimento), Tintim no Congo é um verdadeiro documento para nona arte, uma obra que nos permite excelente discussão sociológica e que nos convida a raciocinar sobre o processo artístico e significados antropológicos que uma história infantil pode ganhar com o passar dos anos. Como se vê, não é algo para ser esgotado em uma única leitura.

Tintim no Congo (Les aventures de Tintin: Tintim au Congo) — Bélgica, 1930 – 1931
Publicação original: 
Le Petit Vingtième, 5 de junho de 1930 a 11 de junho de 1931
Publicação encadernada original: Casterman
No Brasil: Cia. das Letras, 2008
Roteiro: Hergé
Arte: Hergé
62 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.