Crítica | Tintim no País do Ouro Negro

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A história em torno de Tintim no País do Ouro Negro é bem longa e marcada por eventos políticos. Hergé começou a publicar esta aventura de Tintim em 28 de setembro de 1939, durante os primeiros dias da 2ª Guerra Mundial. Mesmo com o conflito, Tintim seguia como a grande atração do Suplemento Le Petit Vingtième, e nem Hergé ou a editoria do jornal esperavam que grandes mudanças fossem acontecer com a empresa ou com a Bélgica. Ledo engano. No dia 10 de maio de 1940, como parte do Plano Amarelo (Fall Gelb), a Alemanha invadiu o Luxemburgo, os Países Baixos e a Bélgica. A última publicação de Tintim no País do Ouro Negro havia sido feita dois dias antes, e pela última vez, ao menos naquelas condições. Os nazistas fecharam o jornal, e Hergé só conseguiria publicar alguns pedaços da aventura em edições de jornais belgas e franceses controlados pelos alemães, o que significa que eram, para todos os efeitos, produções antissemitas.

Versões de Ouro Negro apareceram nas páginas do Cœurs Vaillants (de maneira descontinuada, começando em agosto de 1940 e só retornando em junho de 1945); e entre o final de 1945 e o início de 1946, no La Voix de l’Ouest, com o título de Tintim e Milu no País do Ouro Líquido. Estas foram as primeiras versões — futuramente modificadas — dessa aventura. Só pela quantidade de tempo e teor político e narrativo modificados da história fariam com que recebesse o título de maiores altos e baixos e revisões já escritas e desenhadas por Hergé. E a novela estava longe de acabar. Quando finalizou O Templo do Sol, Hergé pretendia começar uma história de viagem de Tintim à Lua, mas o fato de estar doente e fraco fez com que sua esposa Germaine e um amigo muito próximo, Marcel Dehaye, o aconselhasse a retomar Ouro Negro, tendo em mente que esse processo seria menos cansativo para o artista.

Em 16 de setembro de 1948, na Tintim Magazine, a história voltaria a ser publicada, até finalizar-se em 23 de fevereiro de 1950, tendo tido uma interrupção de 3 meses, no ano de 1949, devido à estafa e stress de Hergé, que precisou que precisou se afastar do trabalho em férias prolongadas na Suíça. Mais mudanças voltariam a acontecer na história, por ocasião da publicação do álbum no Reino Unido, em 1971. Esta é a versão (enfim, a última) que passou a ser comercializada em futuras impressões e traduções para outros idiomas. As placas com referências ao comércio judeu foram removidas, e o hebraico substituído pelo árabe, tendo como plano de fundo a iminência de uma guerra, a explosão criminosa de oleodutos e a tentativa de uma “Corporação Estrangeira” assumir o controle da indústria petrolífera do Emirado do Khemed.

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A primeira página da aventura.

As constantes mudanças na trama, as muitas interrupções e reescritas — boa parte delas de cunho ideológico problemático — poderiam tornar essa história bem menos interessante do que é, mas Hergé conseguiu um elogiável resultado final, considerando tudo. Como o enredo é uma intriga policial e corporativa, vemos forças de diferentes linhas de ação agirem para ajudar ou atrapalhar Tintim, que está cercado de personagens de histórias anteriores, como Bianca Castafiore (em um cameo via rádio), Dr. Müller e Senhor Oliveira da Figueira, além dos recorrentes Dupondt, Capitão Haddock e Professor Girassol, este último, apenas no final e de maneira indireta. É realmente impressionante que uma aventura com tantos altos e baixos tenha conseguido manter um bom senso de ligação entre personagens, tendo ainda momentos hilários como os Dupondt perdidos no deserto ou achando que tudo era uma miragem, e o filho impossível do Emir Mohammed Ben Kalish Ezab (aqui, ameaçado de ser derrubado por Bab El Ehr), personagem inspirado em uma foto do Príncipe Faisal II do Iraque, aos 5 anos de idade.

Começando com estranhas explosões de motores e terminando com uma intricada forma de impedir um golpe de Estado, uma guerra e a tomada da malha de exploração petrolífera de um país, Tintim no País do Ouro Negro consegue superar as sequências mais fracas e cenas que não levam para lugar nenhum, terminando como uma história bastante divertida e que o tempo inteiro nos deixa perguntando qual será o próximo problema a ser resolvido pelo jornalista/detetive topetudo. Uma colcha de retalhos textuais que acabou dando certo.

Tintin au pays de l’or noir (Bélgica, 1939 – 1950)
Publicação original: Le Petit Vingtième, 28 de setembro de 1939 a 8 de maio de 1940 (inacabado) / Tintim Magazine, 16 de setembro de 1948 a 23 de fevereiro de 1950.
Publicação encadernada original: Casterman, 1950 / 1972
No Brasil: Companhia das Letras, junho de 2007
Roteiro: Hergé
Arte: Hergé
64 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.