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Crítica | Titane (2021)

Uma existência baseada em instintos primitivos.

por Luiz Santiago
2.128 views (a partir de agosto de 2020)

Expressões como “o corpo é um templo” e “o corpo é uma máquina” chamam a atenção para o funcionamento intricado e muitas vezes misterioso desse invólucro que nós vestimos. Na primeira expressão, fala-se do caráter quase místico de nossa existência, e num aspecto prático, chama para o fato de sermos ou sofrermos as consequência de tudo aquilo que ingerimos ou a que submetemos o nosso corpo. Na segunda, chama-se atenção para a precisão com que certas engrenagens são ativadas em situações bem diferentes: durante o sexo, durante a fuga em uma situação de perigo, durante o contato com alguém que se quer. Mas seja como templo ou como máquina, nossa razão e olhar para o corpo sempre encontrarão um ponto cego. A fonte de nossa energia psíquica, de onde brotam os instintos, os impulsos orgânicos e os desejos inconscientes. Em Titane, filme da diretora francesa Julia Ducournau, temos a história de uma personagem inteiramente ancorada nessa camada de pulsões da existência.

Na fotografia, a tônica é o neon. Após a excelente sequência de abertura, onde temos não apenas uma definição precisa e chocante da personalidade de Alexia (em sua fase adulta interpretada por Agathe Rousselle, num excelente trabalho de introspecção psicótica que dá lugar à fragilidade do afeto e da maternidade no fim do filme), mas o estabelecimento de uma relação da personagem com um carro, o filme ganha um ritmo e um encadeamento de eventos que chocam e enojam de maneira quase insuportável, tudo embebido naquela luz leitosa que, quanto mais aparece na tela, mais cria a sensação de espaços doentios e povoados por pessoas aparentemente normais que têm muita coisa a esconder. Se a diretora explorasse isso em seu filme, seria uma espécie de neolynchiana, mas ela não está preocupada com esse aspecto das relações sociais. Sua preocupação é a exploração dos corpos a partir de uma pessoa, a protagonista, que através da mais crua violência segue cavando o buraco de sua solidão e isolamento.

Alexia não tem perspectiva de vida. Fala pouco, age de maneira mecânica e dá vazão irrestrita aos seus prazeres. Pelas lentes de Ducournau, isso se torna um bailado de sangue e outros fluídos, quase sempre ligados ao prazer sexual. A erotização em Titane é daquela que abraça a maldição clichê do slasher: “transou, morreu“. E nessa mistura de Viúva Negra com fêmea de Louva-Deus, Alexia segue pela vida. O gozo e o sangue, em Titane, são magnéticos. Eles precisam estar juntos e, na primeira meia hora do filme, fica até difícil definir qual atitude da personagem gera uma dessas “consequências”, pois para ela chega a ser a mesma coisa. É nessa esfera niilista que o absurdo entra no filme e faz sua morada. O total vazio dessa mulher e a nula perspectiva para ela até como construção de personagem (ou estaríamos diante de um pornô-de-tortura-e-assassinato de 108 minutos de duração) é suprida por duas situações nada usuais: uma de caráter fantástico (o ‘sexo carroal‘) e outra de relações interpessoais (o psicanalítico ‘encontro com o pai‘).

Julia Ducournau dirige Agathe Rousselle como um motor de reações instintivas, e a atriz traz isso à tona com olhares penetrantes, às vezes com um ângulo capaz de dar medo por sua total força de intimidação e também sugerir sentimentos como desejo e ira. O espectador se acostuma com esse cotidiano de Alexia e até experimenta a estranheza de tons cômicos em alguma parte de seu modus operandi, algo que em certo momento me trouxe à mente o fio condutor de Von Trier em A Casa Que Jack Construiu. O que difere Alexia daquele personagem de Matt Dillon é justamente o propósito. Apesar de mover-se empurrado por um determinado instinto, Jack tinha algo em mente. Ele pretendia alguma coisa. Já Alexia é uma espécie de zumbi social, vivendo às cegas à procura de prazer, seja ele o do contato sexual com outra pessoa, seja ele o de matar outra pessoa. E o que ela quer fazer com isso, sobre isso? Absolutamente nada. Ela é a perfeita figura de um trauma que revestiu de titânio uma personalidade já bastante perturbada. E para personagens assim, o que normalmente encontramos — pensando em abordagens majoritárias — nos cinemas? A transformação ou a redenção através de alguma força externa, claro! E quando decide puxar essa trilha para o filme, a diretora assina as motivações que fazem a obra cair consideravelmente de qualidade.

E não falo aqui apenas de uma qualidade narrativa, com destaque para o foco na personagem, nas coisas que faz e no horror que espalha ao seu redor. Falo do ritmo que o filme ganha em sua segunda metade, um andamento mais simples em todos os núcleos. Para não dizer que é a única coisa que sobra, é verdade que temos a interessante e seca passagem entre os espaços cênicos, com cortes abruptos que normalmente indicam continuações metafóricas de uma situação para outra, mas em comparação à administração do tempo, antes, o filme se suaviza. Com mais tempo para respirar, vemos a força externa (na figura de Vincent Lindon) agir sobre Alexia, que fisicamente passa por transformações e pelo contato com um tipo de figura que nunca fez parte de sua vida, pois até mesmo no aspecto sexual a sua performance verdadeiramente marcante foi de uma perspectiva ‘nada usual‘, para dizer o mínimo.

Essa experiência lhe deixou uma marca que contribuirá para a mudança definitiva. Primeiro, no exterior, agora numa conjuntura que ela precisa esconder. Pela primeira vez na vida, seguindo o seu instinto de sobrevivência, Alexia sofrerá para ocultar o que ela é; um alguém que nem ela mesmo sabe, pois o resultado da invasão de seu corpo-templo está agora cobrando o preço. Depois, no interior, agora numa conjuntura que ela precisa exibir. Pela primeira vez na vida, seguindo o seu instinto de sobrevivência, Alexia se esforçará para exprimir o que pensa, vendo-se em situações em que precisa demonstrar preocupação, acariciar e cuidar de outro alguém. O “pai” Vincent é a força externa que alterará as engrenagens do corpo-máquina de Alexia, e os novos sentimentos a empurrarão para a transformação caótica que combina com tudo o que ela foi. Nota-se uma variação apenas superficial e verbal para o gênero (quase um anti A Pele Que Habito), a gestação de uma criatura indizível e um novo comportamento moral.

Ao final do filme, o Bebê de Rosemary tecnológico, não desejado e odiado, torna-se o símbolo da transformação de Alexia, o filho da violência, gestado na violência e, em seus momentos finais, alimentado por reações bem diferentes das quais estava acostumado. Sua vinda ao mundo é o traço moral da diretora para o roteiro (clichê moralista esperado mas, convenhamos, tocante), concluindo a jornada de transformação da protagonista. O Ser gerado pela estranheza e violência de dois corpos traz a paz para a sua mãe e cumpre —  sob uma perspectiva psicanalítica doentia e preocupante — o papel de atender ao desejo de um homem que há anos procurava pelo seu filho. Os encontros e despedidas, em Titane, são meios temporários de resolução de problemas porque os indivíduos dessa realidade não estão preocupados em verdadeiramente ter aquilo que sempre desejaram. Eles se contentam em fingir que alguma coisa posta à sua frente irá preencher o vazio e suprir suas necessidades. O problema disso é que, assim como todo objeto de desejo conquistado, os fingidos também acabam, partem ou frustram a nesga de felicidade alcançada. E o que sobra de tudo isso inicia um novo ciclo de pulsões marcado por traumas, violência e mais desejos.

Titane (França, Bélgica, 2021)
Direção: Julia Ducournau
Roteiro: Julia Ducournau
Elenco: Vincent Lindon, Agathe Rousselle, Garance Marillier, Laïs Salameh, Mara Cisse, Marin Judas, Diong-Kéba Tacu, Myriem Akheddiou, Bertrand Bonello, Céline Carrère, Adèle Guigue, Thibault Cathalifaud, Dominique Frot
Duração: 108 min.

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