Crítica | Titãs – 2X03: Ghosts

“Este Titã está de volta, vadia. “

Contém spoilers.

Os fantasmas dos Titãs são explorados no terceiro episódio da segunda temporada da série, homônimo ao tema principal que o norteia. A partir de uma ameaça do passado que retorna aos pesadelos dos personagens, a Torre Titãs, mais que qualquer outra coisa, torna-se uma revisita às catacumbas que vários dos heróis presentes no prédio querem esquecer. Hank (Alan Ritchson), Dawn (Minka Kelly) e Donna (Conor Leslie) são parte da antiga formação dos Titãs, a qual, como o capítulo da semana revela, parece ter se encerrado com um trauma – um retcon, na verdade, em vista da completa ausência desse ponto na temporada anterior. Logo, a presença do Doutor Luz (Michael Mosley), antagonista conhecido do time e que parece estar agindo por conta própria, serve como uma reunião destes personagens à Dick Grayson (Brenton Thwaites), que comanda a retomada do super-grupo, e, por conseguinte, a exumação de memórias antigas compartilhadas entre os seus membros originais. Entretanto, colocando essa trama principal mais à parte, outras secundárias também possuem espaço nos quarenta e cinco minutos de duração da obra, e, por sorte, parecem tratar de questões similares, que tornam o episódio, então, uma unidade coerente de discussões que se agregam, ao invés de se contrariarem. Desse modo, a série resgata coesão, apesar de continuar a manter sérios problemas na execução de cada um dos núcleos que explora.

Uma das grandes rupturas que o episódio passado do seriado apresentou e esse, por sua vez, continua, em paralelo a que envolve o Exterminador (Esai Morales) e afins, é a trama envolvendo Kory Anders (Anna Diop) e seu planeta-natal. Tamaran anseia o retorno da mulher por ela ser parte da realeza e, nesse sentido, o lugar vira um fantasma do passado da personagem, personificado na presença de Faddei (Robbie Jones), membro da guarda real e antigo interesse amoroso dela. Contudo, apesar das interações entre os dois não serem ruins, elas não são o bastante para se justificar o peso dramático em questão, que supõe ser mais complexo do que o subtendido. A despretensão não consegue contextualizar bem o peso do passado presente – por sinal, um corte na conversa deles no carro é péssimo. O ex-casal, no entanto, funciona melhor que outros dramas propostos, como o particular entre Hank e Dawn – aleatório em comparação às boas cargas emocionais depositadas na primeira temporada. Dito isso, mesmo que avulsas ao enredo mais importante, rompendo ora ou outra a imersão do espectador em determinado fio da narrativa, as desventuras de Kory conquistam um interesse secundário por conta de uma execução mais correta do que a dos arcos de demais personagens. Em última instância, a sua “obrigação” com os Titãs, uma família que criou e não herdou, respalda a sua recusa em retornar, pelo menos agora, à casa.

Mas se a conversa com Rachel (Teagan Croft) é certeira por esse lado, o drama pessoal da garota não, perdido em meio a cenas esporádicas e não uma real construção do fantasma que mora dentro dela: seu pai. Teagan Croft evoluiu – a sua tristeza na conversa com Kory é sentida -, porém, narrativamente, o roteiro não conduz esses sentimentos que, de maneira abrupta, querem no fim ser exemplificados. Ora, seria muito mais interessante uma transformação na personalidade da garota, que a tornasse realmente mais sombria. Do contrário, sequências sozinhas com Rachel sendo consumida pelas trevas não causam o mesmo efeito, pois soam como surtos momentâneos, não uma transformação interna que a machuca. Em contrapartida, é justo com Rachel que uma das melhores pontes do episódio é criada. Por causa da rixa que Rose Wilson (Chelsea Zhang) alimenta com o seu pai, nasce a conversa entre as duas que pontua a necessidade das garotas em se emanciparem desses seus fantasmas paternais. Rose, no caso, também é usada como meio para Donna Troy e Dick reviverem o passado dos Titãs com o Exterminador – e as possíveis consequências negativas disto. Conjuga-se bem, por isso, o ímpeto do ex-Robin em ajudar quem puder e sua vontade em acertar dessa vez o que, da outra, ele parece ter errado, com a negação dos demais Titãs em darem margem a um segundo fracasso. Erros e acertos compõem a sua vida.

Porém, fora os acertos, a montagem continua sendo um erro para a série. Vejamos, por exemplo, a parte que traz Slade Wilson em cena – uma que os responsáveis pelo episódio conseguiriam tanto encaixar noutro lugar quanto excluir. Ela surge de maneira abrupta, sem nenhum tipo de cerimônia a antecedendo, enquanto poderia ter sido, organicamente, por várias razões, posicionada após a sequência de combate no estádio. Com o auxílio de uma dinâmica curiosa entre o Exterminador e o Doutor Luz – um é sério e o outro não, em contraste -, a interpretação de Esai Morales ganha tons ameaçadores precisos, mas a preparação para sua entrada seria muito mais interessante em um momento posterior, reforçando a sua mística, certamente não por meio de um corte seco que acompanha um enquadramento bobo do personagem de costas. No mais, até o clímax termina tornando-se – apesar de competente em outros sentidos, como na aparição em si de Wilson – um tanto previsível, por conta dessa reiteração de uma parceria que, antes, já estava presumida. Mesmo assim, passos promissores são dados em relação à construção de um antagonista marcante, especialmente pela revelação de informações impactantes acerca do seu passado – a morte de seu filho Jericó, por exemplo, o embate mortal entre Rose e seu pai, assim como as consequências traumáticas causadas nos Titãs. Certo que o Exterminador não é flor que se cheire.

Dentre tantas incongruências que quase comprometem este capítulo à mediocridade evidente nas decepções anteriores que compõem essa temporada, é complicado estabelecer pontos pouco afetados pelos equívocos da série até então. Estruturalmente, por exemplo, a base terminou sendo tão danificada – por um péssimo episódio de retorno – que uma volta por cima seria uma grata surpresa. O Exterminador, no caso, é uma das grandes chances do seriado em reaver qualidade, especialmente pelo gancho que o capítulo cria – o primeiro da temporada com qualidade. Nele, Jason Todd (Curran Walters), contrariando as ordens de Dick, consegue encontrar e, por fim, espancar o Doutor Luz, apenas para ser surpreendido pela aparição de Wilson depois. O que permite esse segmento funcionar é a premissa consistente envolvendo o garoto, querendo se livrar das sombras que o atormenta, porque encara os Titãs como um retrocesso para a sua carreira. Caso mais tempo já tivesse sido dado ao garoto ser desenvolvido, a sua morte – como nos quadrinhos – seria até uma possibilidade, adaptando o cruel destino que o Coringa, originalmente, o deu. Uma pena, em contrapartida, que Gar mantenha no episódio um papel secundário, sem nem traços de um arco postos em pauta. Apesar disso, mantém-se a promessa de que, caso bem explorados, o simpático elenco sustentará boas histórias, bem contadas e com bons personagens.

Titãs – 02X03: Ghosts – EUA, 20 de setembro de 2019
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Kevin Tancharoen
Roteiro: Tom Pabst
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, Curran Walters, Minka Kelly, Alan Ritchson, Conor Leslie, Esai Morales, Chelsea Zang, Michael Mosley, Robbie Jones
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.