Crítica | Titãs – 2X07: Bruce Wayne

“Eles dizem que o traje faz o homem.”

Contém spoilers.

Embora o gancho envolvendo Conner (Joshua Orpin) tivesse me instigado mais que qualquer outro já produzido pela série nessa temporada, a continuação dos eventos relacionados ao personagem é um dos pontos mais fracos do episódio que sucede-os. Já de antemão, contudo, outras questões conseguem recuperar o interesse dos espectadores. Em primeiro lugar, os realizadores do show já provaram não terem muito tato para aproveitar vários núcleos ao mesmo tempo. Pelo contrário, o que acontece é o esperado de uma série que sempre caminhou de maneira problemática nesse escopo. Em vista da trama relacionada a Dick Grayson (Brenton Thwaites) – que será comentada posteriormente – ser a primordial aos acontecimentos narrados, a sobre Conner acontece numa camada menor, sem que a direção consiga dar o real espaço necessário para os seus dramas funcionarem tanto quanto. Fora esse aspecto, o roteiro acelera em demasia confrontos, que, por isso, perdem credibilidade por serem resolvidos tão rapidamente, vide Eve Watson (Genevieve Angelson) resgatar Krypto sem grandes apuros – ao menos, é um enorme agrado ver o super-cão enfim voando pela primeiríssima vez. Nem parece que essa é a mesma cientista que, antes, tinha desobedecido as ordens da LexCorp, ou seja, traído a empresa de um dos maiores antagonistas da DC. Por sorte – e também azar -, se equivoca-se nesse sentido, noutros o episódio surpreende.

Porém, antes de chegarmos aos doces que a série nos oferece, há demais passos em falso dados. O impasse de Kory (Anna Diop) – que encontra-se esperançosa pela recuperação do super-garoto – é uma novidade à personagem que pouco se desenvolve até ser concluída. Embora o episódio não saiba muito bem como articular a sua presença, ele ao menos não se esquece da alienígena, como acontece com Rachel (Teagan Croft) e Gar (Ryan Potter), abruptamente aparecendo nele. Mas, curiosamente, o capítulo é um dos poucos exemplares da série que conseguem tratar, ainda que em escalas mínimas e máximas, vários personagens ao mesmo tempo. No caso, um ponto da narrativa em questão é a aparição pontual de objetos que surgem para os coadjuvantes, como os crucifixos feitos pelo quarto de Rachel, perturbando-a. Uma pena que ela só apareça após quase trinta minutos. Gar, no entanto, é tão figurante que o roteiro nem se preocupa em escrever uma cena propriamente dita dessa com ele, pois o personagem nada tem para ser contrariado. Quiçá agora os desenvolvedores da série tenham se arrependido em trazer um super-herói que depende tanto do orçamento dela para ser verdadeiramente explorado. Em contraste, Hank é insultado pelo álcool, Dawn pela imagem de um amigo morto e Donna pelo refrigerante laranja que a relembra do Aqualad – os personagens e seus traumas são usados para uma trama ser construída em paralelo.

Logo, esse episódio se encaminha gradualmente à conversa entre os seus núcleos principais, que tratam de Jason Todd (Curran Walters) revivendo a sua queda e Dick corroendo-se pelos seus erros cometidos, com estes acontecimentos misteriosos. Conner, por sua vez, para aumentar o seu deslocamento, permanece escanteado a isso tudo. Pois quebra-se o ritmo de um capítulo muito particular a um só cerne toda vez que ele precisa tratar de uma narrativa sem correlação alguma com a protagonista. E isso poderia até ter sido contornado, caso Dick ligasse para Bruce Wayne (Iain Glen) como Dawn (Minka Kelly) pede, para ver se o Batman conheceria algo acerca desse menino – o que possivelmente o conectaria ao Superman. O mentor de Dick, contudo, não é uma presença objetiva, como o nome do episódio subtende. Ele é um demônio interno ao personagem principal da série, revivido em meio às crises que encontra-se passando no momento. Enganando-nos, a primeira cena do capítulo é precisa em contextualizar isso – ainda que o uso desse artifício fosse mais coerente caso se mantivesse por toda a temporada, não apenas dessa vez. Com uma implicância aos nervos de Dick bem mais cômica que o esperado, a manifestação mental de Bruce é uma representação do personagem nunca antes vista. Ora, em que universo o Batman dançaria o Batusi, senão em meio a uma versão irônica sua ou no contexto da série televisiva dos anos 60?

Enquanto os comentários sarcásticos desse bat-fantasma – em uma ótima interpretação de Glen e interações ágeis entre os dois – vão acontecendo, Dick continua uma cruzada pessoal sua contra o Exterminador. Por conta própria, o garoto é visto interrogando inúmeras pessoas para chegar ao antagonista, ao passo que a sua desordem emocional é explorada paralelamente. O episódio é competente em aproveitar o psicológico do jovem e, por fim, conseguir conciliá-lo com o de Jason, passando por problemas tão graves quanto. Assim, Curran Walters novamente prova ser um dos melhores integrantes do elenco da série, aqui conduzindo uma transformação no seu personagem que é notória e também convincente. O garoto mimado de antes, com seus chiliques típicos de adolescentes, some, para que um eu depressivo dele tome o lugar. Quando é questionado pelos demais Titãs acerca daquelas peças que supostamente teria prego neles, Walters não reage como de costume. No espaço em que sua pose agressiva ocuparia, porém, existe apatia, bem construída no decorrer do capítulo. Numa cena entre Todd e Rose (Chelsea Zhang), eles se beijam, apenas para que, de repente, o clima suma, dando margem às dúvidas que sempre retornam ao garoto problemático. Essa cena, aliás, provando que a série sabe ser coesa, antecipa a revelação de Dick acerca do “verdadeiro” fim de Jericó. Para que suas assombrações desapareçam, resta a verdade.

Titãs – 02X07: Bruce Wayne – EUA, 18 de outubro de 2019
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Bryan Edward Hill
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, Curran Walters, Minka Kelly, Alan Ritchson, Conor Leslie, Chelsea Zhang, Joshua Orpin, Genevieve Angelson, Natalie Gumede, Demore Barnes, Iain Glen
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.