Crítica | Titãs – 2X09: Atonement

“Operação: Salve os Titãs. Dia Alfa.”

Contém spoilers.

É uma sorte o episódio nove da segunda temporada da série dos Titãs possuir a presença de Gar (Ryan Potter) e Superboy (Joshua Orpin), resgatando alguma alma de uma obra que muitas vezes parece ser produzida nas coxas. Dentre os vários núcleos digeridos em quarenta e cinco minutos, o deles é o único que soa realmente verdadeiro. Esses personagens, consequentemente, são os únicos que soam reais em meio a uma estrutura problemática em que problemas artificiais são propostos e pela mesmíssima artificialidade são resolvidos. Depois do péssimo encerramento do capítulo passado – que já antecipava a inoperância dos dramas aqui postos -, Dick Grayson (Brenton Thwaites) conta para todos os Titãs acerca da verdade sobre Jericó, morto para o salvar. Lá, uma montagem e encenação dramática questionáveis eram incapazes de transmitir a tragédia do personagem, enquanto aqui os realizadores da série não vão muito além. Chega a ser cômico que basicamente todos os Titãs terminem abandonando Dick após a revelação – e coitada de Rose Wilson (Chelsea Zang), de longe a personagem com as razões mais críveis para se enfurecer com Grayson. É exagerado, é excessivo, é dramalhão. De resto, esvazia-se potenciais dramáticos para se construir uma caricatura da revolta dos Titãs contra o seu membro mais importante – Hank (Alan Ritchson) agredindo Dick é mais cômico que emotivo, no caso. E agora? Quem irá salvar os Titãs?

Curiosamente, é por possuir momentos mais despretensiosos que o episódio consegue não ser um desastre por completo. Mas o extraordinário não é a recorrência de erros na série – isso já é um costume. Pelo contrário, um dos seus maiores equívocos vira o seu único respiro em meio a um episódio desencontrado. Gar nunca foi aproveitado completamente e, nessa segunda temporada, a sua participação diminuiu ainda mais, beirando à figuração. Nesse episódio, no entanto, o garoto transforma-se em um jovem esperançoso, tentando reunir, para se usar uma metáfora, seus pais divorciados. A ingenuidade que se exala das cenas protagonizadas pelo personagem, sozinho na Torre dos Titãs à espera de que Conner acorde, garante aquilo que outros momentos do capítulo não transmitem: verdade. Pois Gar soa como um personagem verossímil, assim como Superboy, realizando ações que se justificam dentro das suas personalidades apresentadas. Na outra ponta de uma faca de dois gumes, contudo, Rachel (Teagan Croft) revolta-se de maneiras abruptas, indo embora com Donna (Conor Leslie) e depois deixando Donna para trás, nunca parecendo com uma personagem crível – e esse impasse não parte apenas do episódio por si, contudo, também da construção equivocada da temporada como um todo. Enquanto demais séries enrolam os seus arcos, essa prefere nem mesmo os desenvolvê-los bem, errando nos seus fundamentos, já de vez.

Dentre todos estes casos pouco verdadeiros, porém, a crise entre Hank e Dawn (Minka Kelly) é o mais sintomático deles, começando com a presença de uma terceira personagem – para início de conversa, má-escalada. Depois de ficarmos a par de um personagem sem qualquer envolvimento conosco, morto pelo Doutor Luz no início da temporada, justo sua irmã surge para culpar os dois pombinhos pelo assassinato do garoto. Beira o inacreditável, no mais, a péssima cena da dupla cantando no karaokê, por meio de uma edição de som vergonhosa. Eram os próprios Ritchson e Kelly cantando naquele momento? Pois não parecia, mediante vozes claramente artificiais, que retiram qualquer intimidade da cena para a reduzi-la a um espetáculo de autotune – a péssima apresentação anterior a deles era bem mais convincente e emotiva. No mais, o encontro de Dick Grayson com Slade Wilson (Esai Morales) é inesperado, porém, também termina soterrado por uma direção incapaz de encenar drama e por um texto pouco perspicaz na hora de explorar as dinâmicas vigentes – soa como uma aberração aquela conversa entre Dick e Jason no terraço, portanto. Existia, entretanto, um excelente potencial neste segmento para ser aproveitado, em relação a pessoas antagonistas precisando se confrontar em um ambiente não-violento. Contudo, a execução prioriza uma banalidade não só situacional, mas também sentimental – e anti-climática.

Caso as pedras no caminho para os Titãs não tenham se mostrado preocupantes, o núcleo de Kory Anders (Anna Diop) é a cereja neste bolo. Por conta de razões orçamentárias, os realizadores da série precisam transportar grandiosas tramas espaciais para um terreno mundano, o que é bem compreensível. Contudo, não é precipitado de nossa parte adiantar os empecilhos que surgem no caminho de roteiristas que não têm noção de como retrabalhar certos núcleos. A contextualização tenebrosa por parte de Faddei (Robbie Jones) acerca do que está acontecendo no planeta-natal de Kory é uma atrocidade, extremamente expositiva e sem o menor apelo dramático, sem instigar. O pior, porém, vem na conclusão. Faddei acaba de morrer e, na próxima cena, Kory já se recuperou completamente da perda do seu amante. É quase impossível de acreditar no que é visto: um exemplo claro de uma dramatização porca, que antes de ser qualquer outra coisa maior, é simplesmente ruim. O corte incomoda, e a interpretação de Diop não ajuda, nem nessa situação e nem em anteriores, nas quais a atriz encontra-se apática. O problema não é as estradas pensadas para a série, ainda que algumas sejam criticáveis, mas principalmente como elas são executadas. Gar quer unir os Titãs novamente, mas parece que o único jeito para o super-grupo não mora exatamente na dimensão narrativa, contudo, nos bastidores, reinventando-se a sua equipe criativa.

Titãs – 02X09: Atonement – EUA, 1 de novembro de 2019
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Boris Mojsovski
Roteiro: Jeffrey David Thomas
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, Minka Kelly, Alan Ritchson, Conor Leslie, Joshua Orpin, Esai Morales, Robbie Jones, Chelsea Zang, Damaris Lewis
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.