Crítica | Titãs – 1X06: Jason Todd

Contém spoilers.

Jason Todd é um excelente episódio que insere um personagem completamente novo dentro do cânone de Titãs, mas conhecido dos amantes dos quadrinhos, objetivando a criação de um contraste ao protagonista da série, Dick Grayson (Brenton Thwaites). O interesse não é na fomentação de mais arcos individuais, que apresentaria, nesse caso, mais uma peça de um tabuleiro já preenchido, o segundo Robin e todos os demônios que o garoto carrega em seu peito rebelde, honestamente juvenil. Jason Todd não quer estudar Jason Todd (Curran Walters), mas sim Dick Grayson principalmente. O personagem introduzido nos últimos instantes de Together, auxiliando narrativamente o seu antecessor, é um meio argumentativo, não um fim por si mesmo. O episódio, carregando o seu nome, mostra ser um encaminhamento ao desenvolvimento estabelecido desde o primeiro capítulo do seriado, muito mais importante, estudando um personagem por meio de uma narrativa que confronta a sua identidade, sustentada prolongadamente, quem ele é e o que ela significa para si mesmo. O roteiro, mais do que nunca, comporta mil e uma proposições, não apenas sobre Dick Grayson como Robin, no entanto, igualmente sobre o Robin como Robin, como símbolo.

Jason Todd é, provavelmente, o produto audiovisual relacionado à DC Comics que melhor entendeu o manto vermelho e verde propriamente dito, enquanto associado fortemente ao Batman, assim como imensamente distanciado, mas nunca separado, do Homem-Morcego. Bruce não apareceu, porém, a sua presença é sentida de uma maneira que, possivelmente, uma fisicalidade diminuiria o impacto desse vetor – fantasma, entretanto, poderoso – das personalidade e emoções existentes dentro dos personagens construídos e apresentados, Dick Grayson e Jason Todd respectivamente. Uma indefinição acerca do futuro desse mais novo Robin – será que a série irá explorar o personagem, sem acabar tornando o seu arco digressivo – questiona o espectador que, por outro lado, tem a certeza de um progresso no psicológico do protagonista que acompanha desde o primeiro episódio. Um desenvolvimento paralelo pode ser o melhor caminho para ambos os personagens, sem a existência de jornadas individuais, mas coletivas. O Robin é o Robin, ou seja, independe – teoricamente – do Batman. Já distanciar os Robin, um do outro, é uma missão quase impossível. A exploração desse dualismo, justamente na aproximação, é, minimamente, bastante promissora.

O capítulo está repleto de easter-eggs, fazendo justiça aos quadrinhos, entrelaçando acontecimentos embasados nas mídias originais. Harvey Dent é referenciado de uma maneira que remete sua criação a retratada, por exemplo, em um dos mais populares trabalhos sobre o Batman, O Longo Dia das Bruxas, assim como a origem de Dick Grayson, em referência a morte dos seus pais, é a mesma já consolidada, exemplificada na aclamada Vitória Sombria. Os quadrinhos certos estão sendo homenageados – as histórias certas, no caso. Os espectadores que acompanham essa outra mídia também podem se perguntar: os rastreadores implantados, no braço de Dick Grayson – retirado posteriormente – e, especialmente, no braço de Jason Todd, não impediriam um certo palhaço de provocar uma devastadora morte na família? O retorno do jovem transgressor pode vir atrelada a questionamentos à persona do Cruzado Encapuzado, nesse eterno combate da juventude ao que for proposto como sua obrigação. As pistas estão na mesa. Jason Todd é um natural quebrador de regras, mas está acomodado a um sentimento de intangibilidade – a máscara como ocultadora de sua verdadeira identidade. O Robin não como um dever, mas como uma possibilidade para o anonimato. Bruce Wayne irá errar novamente na criação de uma criança?

O personagem, pelo menos, compreende alguma coisa sobre o que é o símbolo que carrega em seu peito. Dick Grayson não, guiando-se por um enredo super-quadrinesco, com descendentes de criminosos do passado retornando à vida dos nossos queridos heróis. Os flashbacks são deveras coerentes, porém. Os Titãs, dessa maneira, surgem como figurantes, pontualmente ótimos, particularmente Kory (Anna Diop), que recebe uma conversa com Dick imensamente válida e necessária, para uma percepção da crise existente dentro do jovem garoto. Os ciúmes, sob outro plano, são ótimos motores cômicos. Jason Todd é um episódio extremamente engraçado, embora carregue uma intenção dramática poderosa, assim como personagens cheios de camadas. Com a contraposição entre um Robin e outro, notamos um Batman aparentemente mais permissivo, mais aberto a certos caprichos que não existiam anteriormente. Será que Bruce Wayne está arrependido da criação de Dick Grayson? O antigo Robin, contudo, é um jovem que foi muito menos destruído pela vida que Jason Todd, extremamente agressivo e consideravelmente irresponsável – Curras Walters, por sinal, é um carismático menino petulante. A cena do garoto entrando no bar é muito boa, assim como a do espancamento nos policiais.

O herói que agride policiais e o herói que é policial. O passado ganhará mais contornos, assim como o amanhã, mais complicado. “Quantos Robin eu devo esperar”, pergunta Kory. “Nenhum”, responde Dick. O destino, que não será mostrado como uma consequência direta, abrange o abandono de um fardo carregado há muito tempo, que o personagem simplesmente não conseguiu compreender o que significava, se é que significava. Um símbolo que poderia carregar algum valor, mas ninguém desvendou o que significaria de melhor para Grayson, como Grayson. Já no caso de Jason, em oposição, uma contrapartida completamente subvertida, os efeitos parecem ser, para o garoto, ao menos, positivos – um sentimento de pertencimento. O menino que tudo tinha para ser brilhante, o menino prodígio, acabou substituído. Quando as coisas estão confusas demais, quando os sentimentos se entrelaçam, o abandono pode ser o melhor caminho para destacar-se daquilo que tornou-se demônio interior. Asa Noturna estará presente nessa jornada de auto-descoberta, que, em algum momento, poderá reconciliar mentor com aprendiz, ainda distanciados, mas enfim compreendendo-se como complementos, não opostos. O fogo e a escuridão, nesse contraste, enfim, entre o garoto pássaro – para sempre “voando” – e o homem morcego.

Titãs – 01X06: Jason Todd – EUA, 16 de novembro de 2018
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Carol Banker
Roteiro: Richard Hatem. Jeffrey David Thomas
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, Curran Walters, Reed Birney
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.