Crítica | Titãs – 1X10: Koriand’r

Contém spoilers.

A primeira cena de Koriand’r exemplifica perfeitamente bem um pouco da aleatoriedade do episódio da semana passada, Hank and Dawn, prontamente justificando, sem muitas frescuras, mas pouca coerência, o gancho narrativo que havia sido mostrado – os apelos da jovem Rachel (Teagan Croft) pela ajuda de seus outros amigos pássaros, enquanto estava, aparentemente, sendo esganada por Kory (Anna Diop). A questão problemática é: por que a citação a Jason Todd, última pessoa do mundo que a garota pensaria naquela situação, e por que mostrar, aqui, o pedido por assistência, que não se concretiza? Os dois últimos episódios da série provavelmente usarão esse artifício novamente, porque esse não deve ser um caso de roteiro imensamente equivocado, enfim explicando, verdadeiramente, o que aconteceu naquele caso. O jogo com a cronologia misturada é interessante, porém, nesse caso em específico, parece ser muito mais uma digressão do episódio, uma cena e conexão gratuita, sem reverberar para um capítulo que já possui coisas demais acontecendo de uma só vez, do que um mistério planejado com exímia competência.

Os espectadores de Titãs, após a estagnação narrativa da semana passada, provavelmente irão respirar aliviados ao notarem que Koriand’r é um capítulo que soluciona, praticamente, quase todos os enigmas propostos e problemáticas já abertas pelo seriado, dando margem a um confronto conclusivo, em grande escala, para encerrar a temporada. O adeus, portanto, aos mistérios e as curiosidades. Com apenas quarenta minutos de duração, como os roteiristas conseguem conciliar tantos acontecimentos? Koriand’r é, para início de conversa, um episódio imensamente atropelado, extraindo um pouco do enorme poder carregado pelo arco de Rachel, que desenvolve-se com agilidade sob outras camadas. A narrativa é interrompida, burocraticamente, pela descoberta de quem Kory Anders é, além de onde a mulher veio – do espaço. O sistema de intercalamento é parecido com o de Donna Troy – Rachel estava tentando ajudar Kory, enquanto Dick (Brenton Thwaites) descobria as intenções da personagem -, que “construiu” e explicou o significado de atitudes mostradas em um outro cenário, conversando com o espectador dessa maneira.

Os eventos são acavalados de modo ostensivo – primeiramente, com o brevíssimo embate entre Donna Troy (Conor Leslie) e Kory Anders. O Menino Prodígio e a Moça-Maravilha, ademais, chegam à casa da mãe da menina com poderes sobrenaturais de um modo conveniente demais, justamente no momento em que deveriam chegar. O desconforto com o episódio, entretanto, não surge em advento dessas pequenas artimanhas, mas do esquecimento que Koriand’r deveria ser um capítulo mais centrada em Kory, o que não é o caso, porque as descobertas narradas não possuem objetivo discursivo, estudando personagem, apenas um caráter narrativo de comunicação com o espectador, também principiando mais tensão no que está, em meio a situações paranormais, acontecendo na outra esfera do storytelling. O texto é embutido de uma vertente muito expositiva, enquanto passa tempo demais explicando sobre Rachel e sobre a missão de Kory, não sobre Kory, o que é mais do que uma pena. A excelente execução do restante do episódio, melhor comandada, termina ofuscada por uma pressa em demasia.

Os eventos e a atmosfera particular do horror, presente nesse outro segmento de Koriand’r, poderiam estar contidos em um único capítulo da série: Rachel, após ser ajudada por Grayson e Donna, permanece na casa da sua mãe, ao mesmo tempo que eventos estranhos começam a acontecer com Gar (Ryan Potter). Maja Vrvilo, responsável pela direção do episódio, manipula coerentemente as expectativas do público, criando planos que encobrem espelhos – com na cena que Angela (Rachel Nichols) atende um telefone misterioso na casa -, dando a sensação de que algo acontecerá, mesmo que nada aconteça – os espectadores sabem do passado da série com espelhos. O horror é a essência dessas sequências. Koriand’r não é um episódio sobre a alienígena, pois as revelações, em oposição, nos transportam ao passado de Rachel e a esperadíssima primeira aparição de Trigon, conhecido dos leitores dos quadrinhos. Como o personagem, interpretado com charme por Seamus Deaver, convence sua criança de seu amor é igualmente convencedor para o público – um ótimo gancho da temporada para o seu fim.

Titãs – 01X10: Koriand’r – EUA, 14 de dezembro de 2018
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Maja Vrvilo
Roteiro: Gabrielle Stanton
Elenco: Brenton Thwaites, Anna Diop, Teagan Croft, Ryan Potter, Rachel Nichols, Conor Leslie, Seamus Deaver, Jeff Roop
Duração: 40 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.