Crítica | Titãs – 2X04: Aqualad

“Seja Batman.”

Contém spoilers.

Por conta de vários acertos, o quarto episódio da segunda temporada de Titãs consegue ser uma contraposição aos equívocos dos exemplares anteriores da série. Dessa vez, a coesão surge como a maior virtude de um capítulo que, não apenas continuar história, mantém uma ordem estrutural própria. Logo, concretiza-se um porquê a esses quarenta e cinco minutos serem um episódio só. Quem acompanha os meus textos, portanto, perceberá aquelas características que agora exalto, enquanto, antes, por serem postas de outras maneiras, critiquei. Durante Aqualad, acompanhamos eventos que antecedem o enredo no presente em anos, necessários para responder perguntas em aberto. Embora episódios compostos inteiramente por um grande flashback costumem possuir os seus prós e os seus contras no que tange o escopo maior de uma temporada, a recapitulação do passado da super-equipe é precisa. Ela surge após o Exterminador (Esai Morales) ser consolidado como uma ameaça aos Titãs – a Jason Todd, para ser mais específico, vide o episódio anterior -, e, ao mesmo tempo, os membros que compunham a primeira formação do grupo relembrarem do antagonista como se reencontrassem um fantasma de suas vidas, que exterminou a inocência de suas juventudes. Há cinco anos, estes personagem não eram tão corroídos quanto hoje são. O episódio, portanto, nos convida a conhecermos esse outro lado dos Titãs, de quando podiam amar.

Claro que Aqualad, personagem novo apresentado, nunca ter sido mencionado anteriormente, nem por meio de imagens, exemplifica a condição do coadjuvante como um retcon – ou seja, “criado” apenas agora e não previsto desde o início da série. Em termos cronológicos, por isso, Titãs não mostra ser um exemplar perfeito de coerência, mas isso não é exatamente um problema. Dentre as mudanças nesse passado, por conseguinte, podemos notar uma nova relação entre Hank (Alan Ritchson) e Dawn (Minka Kelly), meramente profissional, enquanto Dawn está namorando outra pessoa: Dick Grayson (Brenton Thwaites). Hank, entretanto, parece não estar deprimido por causa disso, pelo contrário, porque é bem possível enxergar aquele espírito brutamontes sorridente que o personagem apresenta nos combates. O mais interessante a ser notado nessa recontextualização, contudo, reside na performance de Brenton Thwaites, que encarna um Robin distinto de tudo que conhecíamos, menos denso e carregado da raiva presente nos tempos atuais. De qualquer forma, o roteiro do episódio não se importa realmente com essas questões secundárias, pois preocupa-se, em primeiro lugar, com o relacionamento entre Donna Troy (Conor Leslie) e Garth (Drew Van Acker), o Aqualad. Eles não têm apenas os Titãs em comum, porque também são próximos desde quando crianças. Há, porém, um acordo entre os personagens todos, que é uma pureza já perdida.

Em contraste com outros momentos da série, o que o episódio almeja alcançar com essa trama principal – e, de certa maneira, a única vigente enquanto arco propriamente dito, excetuando as pontuações entre Dick e Dawn -, é ingênuo. No caso, o drama em questão é mais inocente do que os impasses sisudos de demais oportunidades. Consequentemente, até mesmo a grande ameaça que os Titãs precisam combater encontra-se encoberta com camadas de pretensão – não importa, pelo menos não agora, o que o Doutor Luz (Michael Mosley) estava tramando. Existe apenas um garoto que quer conquistar o coração de uma garota, e existe apenas uma garota que não sabe para onde caminhar. No que engloba isso, Drew Van Acker é uma escalação meramente regular, em vista de outras melhores já produzidas pela série. Já Conor Leslie, por sua vez, se encaixa no papel da menina incomodada com as bobas investidas do menino. Logo, avanços mais singelos se encaixariam melhor do que o ar de galanteador nato que Aqualad demonstra. O episódio, porém, consegue contornar um pouco o problema. Com a encenação de momentos românticos pontuais, a química é o bastante, reconstruída gradualmente enquanto Donna abaixa suas guardas ao amor. O componente dramático possui seus engasgos, mas opera em última instância. Troy rejeita os seus chamados internos para “crescer”, tornar-se uma adulta, e opta pela juventude, portanto, por Garth.

Noutro ponto antagônico, que permite certas intenções da direção serem conquistadas dessa vez, a montagem é um quesito composto nesse episódio com competência. A condução de Glen Winter, primeiramente, possui um ritmo juvenil que se mantém em meio as rixas internas entre Donna Troy e Garth, as quais pouco se desgastam apesar de serem simples. Quando ambos vão conversar com Dick, a sequência em questão consegue partir de um momento para o outro, mas sem perder timing. Em paralelo, compreende-se como apresentar personagens, como os próprios Titãs, sem a confusão antecessora, em que segmentos eram costurados pessimamente a demais. O prólogo com o Exterminador, por exemplo, é bem armado no que se refere a respaldar a conclusão, nem tão previsível e nem tão abrupta. Lá, o personagem é apresentado como o mercenário cru que é, eliminando quem precisa eliminar em meio a um conjunto de imagens que realçam a sua maestria enquanto assassino. Até a cena com Jericó (Chella Man), apesar de não possuir contexto e não ser tão bem encenada, ajuda nisso. Então, uma nova ordem, mas que não compreendemos qual é, surge ao homem, justamente a ordem que, no término do episódio, encerraria a vida do Aqualad. Mais que tirar a vida de uma pessoa, contudo, o ponto mais significativo do acontecimento mortal que presenciamos é o assassinato do amor – dos mais puros dos sentimentos -, que vira vingança.

Titãs – 02X04: Aqualad – EUA, 27 de setembro de 2019
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Glen Winter
Roteiro: Jamie Gorenberg
Elenco: Brenton Thwaites, Minka Kelly, Alan Ritchson, Conor Leslie, Drew Van Acker, Esai Morales, Michael Mosley, Chella Man, Ann Magnuson
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.