Crítica | Titãs – 2X08: Jericho

“Eu nunca dançarei novamente.”

Contém spoilers.

O grande mistério que incomoda os Titãs originais desde que o cruel Exterminador (Esai Morales) ressurgiu em suas vidas é enfim desvendado para os espectadores. Em mais um episódio sendo constituído puramente por um flashback – apontar alguma coerência na estrutura do show como um todo já é uma impossibilidade nesse ponto -, Jericó (Chella Man), o filho desse antagonista, vira brevemente o protagonista da série. De princípio, no caso, apenas qualidades podem ser ditas acerca do personagem e do seu intérprete, que é certamente carismático o bastante para criar simpatia com o público. Mesmo assim, o que os responsáveis pela série resolveram para traçar o passado sombrio do garoto em conjunto com os Titãs é, no mínimo, problemático. Por exemplo, dentre tantos a serem citados neste texto, o episódio se inicia com uma sequência de pesadelo. Esse momento, entretanto, não possui correlação alguma com o que acontece no decorrer dos eventos narrados. Jericó não parece se conturbar por conta destes pesadelos, nem mesmo eles são reiterados para criar um sentimento de persistência. Em suma, o maior equívoco do episódio é não conseguir se convencer de maneira exata dos pontos dramáticos que opta por explorar, e o responsável mais imediato por isto é a sua pressa desnecessária para desenvolver a sua narrativa.

O começo do episódio parte do momento que os espectadores já conheciam: o primeiro encontro entre Jericó e Dick Grayson (Brenton Thwaites), revoltado com a morte de um amigo pelas mãos do Exterminador. Havia um clima ambíguo em primeira instância – como mostrado anteriormente, no capítulo em que Aqualad é assassinado. Mas a investigação original logo abandona qualquer clima de suspense ou insinuação para abraçar a exposição do passado do garoto de uma maneira tola, sem construir a ponte de um lugar para o outro. Jericó simplesmente conta toda a sua vida para os Titãs. Nisso, o episódio consegue ir além e criar flashbacks dentro de flashbacks, os quais revivem a relação entre o jovem e o seu pai. Os equívocos da série dessa vez, no entanto, não se resumem a estas picuinhas menores, porém, a uma incapacidade de explorar imediatamente os impactos morais em voga – no caso, o envolvimento de um parente do Exterminador na questão. Rapidamente, contudo, a graça morre, para que os protagonistas se vejam subitamente a gostar do jovem – e Chella Man, com suas expressões mais caricatas, bastante expressivo, é gracioso mesmo. Porém, o processo é simplório até nesse sentido, o do convencimento de que Jericó não é apenas uma arma a ser explorada, mas um menino a ser resgatado.

Com o uso do menino nos planos dos Titãs, o episódio não sabe como provocar o espectador, questionar acidamente o que os Titãs estão permitindo. Uma das questões apresentadas é o distanciamento de Dick Grayson com Dawn (Minka Kelly), que cita que o garoto não está mais dormindo com ela. O episódio não se preocupa em momento algum na contextualização disso, por acreditar que a verbalização do problema é o suficiente para torná-lo verossímil. Quando as consequências deste equívoco dos Titãs por fim chegam, contudo, é que a execução se torna catastrófica. Jericó é assassinado acidentalmente por seu pai. No entanto, por alguma razão enigmática, os responsáveis pela série optaram por uma câmera esquisita, que retira o enfoque no ato trágico, e depois a encaminha a uma cena posterior de modo anti-climático. O peso do incidente é minimizado por um desserviço do roteiro ao próprio garoto e sua trajetória. Não era a relação dele com esses personagens – Dick Grayson e Slade Wilson, respectivamente – o cerne do episódio? Então por que não expor as consequências simultâneas à sua morte, possivelmente o desespero do Exterminador, que sairia da sua pose vilanesca habitual, e o arrependimento de Grayson? Pelo contrário, a série prefere uma estilização gratuita, que mina potencial dramático – e de estilização bastava a boa cena de luta entre Slade e Troy (Conor Leslie), cheia de câmera lenta.

Fora isso, o episódio ignora explicações acerca de Jillian (Ann Magnuson) e o porquê dela ser o alvo do Exterminador. Nem para a sua última cena, com Donna se despedindo de Dick, para criar um gancho nesse sentido – a morte da mulher é simplesmente ignorada. Por outro lado, o Exterminador retoma o seu papel como o redentor da série, em contrapartida ao seu papel na própria, onde é um matador. Em oposição a caracterização prévia do personagem, na qual Slade Wilson era construído como uma encarnação maligna, esse novo capítulo anseia dar mais camadas para ele. No caso, o enredo prioriza o relacionamento entre o homem e seu filho e como ele é composto por múltiplos pesares: desde a ausência paterna, citada em um momento, ao envolvimento de criminosos com a vida da família. Há substância nesse âmbito, principalmente no que tange a carga do pai que não consegue ser um herói para o filho, por simplesmente não ser um. No meio de tanta coisa, contudo, o episódio precisa conciliar vários pontos de vista distintos, sem se esforçar verdadeiramente em nenhum deles. Ora, não seria muito mais produtivo um episódio apenas para contextualizar as dinâmicas de Jericó com o seu pai e também sua mãe? Quiçá a sua descoberta de poderes pudesse ser melhor explicada e aproveitada pela série, pois cita-se que a possessão de poderes pode ser usada de vários modos. O poder, pelo menos, é legal.

Titãs – 02X08: Jericho – EUA, 25 de outubro de 2019
Criação: Akiva Goldsman, Geoff Johns, Greg Berlanti
Direção: Toa Fraser
Roteiro: Kate McCarthy
Elenco: Brenton Thwaites, Minka Kelly, Alan Ritchson, Conor Leslie, Chella Man, Esai Morales, Demore Barnes, Ann Magnuson
Duração: 45 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.