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Crítica | TOC TOC

por Marcelo Sobrinho
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A história da psiquiatria sempre foi marcada por páginas tristes de crueldade, exclusão e violência contra os chamados doentes mentais. Não é raro que ainda hoje pensemos as doenças psiquiátricas de forma pejorativa. Quando se quer ofender alguém, habitualmente se recorre a xingamentos que aludem às enfermidades mentais, em termos como “louco” e “débil mental”. Diante desse cenário histórico mas ainda atual, que liga doença mental a falhas de caráter, tratando o paciente como culpado por sua doença e, por consequência, castigando-o, a arte tem por norma tratar as doenças da mente com mão extremamente pesada. Abundam obras que elucidam toda a triste catástrofe humana em manicômios e afins. É por isso que a produção espanhola TOC TOC, realizada em 2017 e lançada na Netflix com grande sucesso entre o público da plataforma, é tão ousada. Ela propõe um tom cômico para falar de um tema essencialmente crítico.

Meu principal receio antes de assistir ao filme era o de me deparar com uma obra que fazia da galhofa um veículo para estereotipar, ridicularizar e reforçar ainda mais (ainda que por outra via) o olhar pejorativo sobre o paciente psiquiátrico. Contudo, o que de fato se encontra em seus 90 minutos de duração é um filme esperto, ágil e que cria empatia real por aqueles personagens. O humor em TOC TOC não é uma mera passarela para um show de bizarrices e excentricidades, que afastariam ainda mais o espectador de uma concepção humana e empática do doente mental. Também não comete a parvoíce de negar o sofrimento daqueles pacientes, usando-os como instrumento banal para arrancar risadas de um público estúpido e insensível. Nada disso. O humor torna todas aquelas situações hilárias um excelente meio para que o público abandone o medo e o distanciamento deles. Surge assim uma improvável conexão.

O longa-metragem, dirigido por Vicente Villanueva e protagonizado por grandes nomes, como Oscar Martínez e Rossy de Palma, já demonstra a que veio em sua fotografia ensolarada e de cores saturadas. O ambiente de hospitais e clínicas, habitualmente tão sisudo e tão hostil ao próprio paciente, ganha cores vívidas, que respondem positivamente àqueles que questionam ser possível sentir-se bem indo ao consultório de um psiquiatra. O roteiro capricha nas mais variadas situações em que aqueles personagens, confinados na sala de espera de seu médico, encararão uma terapia em grupo nada convencional e se sairão tão bem. No fim das contas, torcemos para que cada um deles supere seus medos e angústias, pois nenhum parece minimamente ameaçador ao público (e não podemos desprezar essa importante mudança de paradigma). Da senhora que passou toda a vida verificando todas as portas da casa ao taxista obcecado por calcular tudo, é possível identificar neles algumas de nossas próprias “esquisitices”, ainda que a maioria de nós não necessite de nenhum tratamento, é claro.

Com bons diálogos, situações engraçadíssimas e algumas espertezas muito bem pensadas do diretor, como repetir o zoom in no momento em que a personagem que repete as próprias frases anuncia uma revelação importante, TOC TOC recria a figura do paciente psiquiátrico de uma forma amigável como eu jamais havia visto no cinema. Diante de tantas produções nacionais e estrangeiras que ainda insistem em retratar bobagens anacrônicas como sessões de eletrochoque e camisas-de-força, é uma gratíssima surpresa notar que o filme de Villanueva vai na contramão disso e acerta tão em cheio em seu tom. Um filme que servirá bem tanto para exibições entre profissionais e estudantes da área de saúde como para sessões menos pretensiosas em família. Afinal de contas, só resta mesmo concluir que, ao contrário do que tanto nos disseram e por tanto tempo, a doença mental não é mesmo nenhum bicho de sete cabeças.

TOC TOC (TOC TOC – Espanha, 2017)
Direção: Vicente Villanueva
Roteiro: Laurent Baffie
Elenco: Adrián Lastra, Alexandra Jiménez, Ana Rujas, Inma Cuevas, Nuria Herrero, Oscar Martínez, Paco León, Rossy de Palma.
Duração: 90 minutos.

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