Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Todas as Cores da Escuridão

Crítica | Todas as Cores da Escuridão

por Luiz Santiago
3 views (a partir de agosto de 2020)

Também chamado aqui no Brasil de Todas as Cores do Medo, este filmes de Sergio Martino foi um dos raros gialli que genuinamente conseguiram me assustar, nem que fosse por pouco tempo. Quando lançou a obra, em 1972, Martino já vinha de duas icônicas produções no gênero, a saber, O Estranho Vício da Senhora Wardh (1971) e A Cauda do Escorpião (1971), de modo que Todas as Cores da Escuridão representava uma experiência confortável para o diretor, e isso podemos ver nos caminhos mais soltos e muito experimentais que ele utiliza para contar sua história.

Na teia do medo está Jane Harrison (Edwige Fenech), uma mulher que há pouco perdera um bebê por conta de um acidente de carro, e isso lhe trouxe uma grande perturbação, fazendo-a lembrar-se de coisas terríveis da infância (caminho narrativo frequente no giallo) e tendo visões estranhas, algumas inclusive do futuro, o que me fez perceber, ao final do filme, o quanto Lucio Fulci bebeu dessa fonte para dar início ao argumento de Premonição (1977). É em cima dessas visões e na reação cada vez mais desesperada e neurótica da protagonista que o filme se desenvolve, muito mais na sugestão do horror pelo lado gótico somado ao sobrenatural, maligno e psicanalítico (trilha que Bava palmilharia de maneira questionável em seu terror Lisa e o Diabo) do que pela ocorrência dos assassinatos propriamente dito.

Justamente por trazer à tona a dúvida frente à perspectiva da protagonista é que o roteiro não precisa se esforçar muito para que desconfiemos de todo mundo. É certo que essa abordagem é bastante comum em qualquer suspense do tipo “quem fez determinada coisa?“, mas a dúvida da percepção ganha uma versão muito sólida dos roteiristas aqui, especialmente quando opõe o suspeito por excelência (o marido, interpretado no piloto automático por George Hilton) e a salvadora que, no presente caso, é a irmã da vítima, interpretada por Nieves Navarro. A dúvida diante do autor ou autores do crime vai sendo pouco a pouco compartilhada com a nossa curiosidade pelo método, ao passo que o diretor fortalece a presença de Jane na tela, suas visões, seu medo e a incerteza de estar ou não sendo manipulada. Sem um motivo palpável e sem uma investigação formal acontecendo, o fator surpresa diante dessas visões de crime se torna ainda mais intenso.

Quando a seita aparece, o longa começa a ficar realmente assustador, com uma abordagem que lembra bastante a de Aldo Lado em A Breve Noite das Bonecas de Vidro, justamente no ponto de ligação entre a realidade cética (que quer racionalizar sobre o que está acontecendo) e esses eventos macabros que recebem um excelente encadeamento através da montagem, passando de uma Missa Negra para o despertar apavorado da protagonista sem descartar a possibilidade de tudo aquilo ter acontecido e, ao mesmo tempo, jogando com o mistério de tempo e espaço nessas ocasiões. O tratamento psicanalítico é colocado em xeque e a busca por um melhor enfrentamento dos distúrbios emocionais da protagonista vai paulatinamente se tornando urgente, a ponto de chegarmos na reta final do filme com sequências interessantíssimas de ação, a despeito do acavalamento de alguns blocos justamente nessa parte.

SPOILERS!

O texto dá conta de que a maldade pode vir não apenas de um lugar suspeito — trazendo ao debate a manipulação do gaslight, rememorando, de maneira mais intricada, um outro giallo, Libido, de 1965, expondo mulheres em papéis de manipuladas e também de manipuladoras. Em Todas as Cores, a mulher em apuros não foge apenas de si mesma, mas de todas as pessoas, principalmente quando percebe que aqueles de quem se aproxima e que aparentemente estão oferecendo ajuda, na verdade, contribuem ainda mais para sua ruína… cada um a seu modo. Há distintos níveis de vilania aqui, e isso inclusive em relação à vítima, o que é maravilhoso de se colocar em perspectiva. O filme não termina com o tom amargo e amplamente resoluto que boa parte dos gialli terminam, ao contrário, encerra incrementando a atmosfera de medo de visões de mundo que afetam Jane. Um capítulo sobrenatural e aterrador de sua vida chegou ao fim, é verdade, mas independente das belas cores que isso sugere, a escuridão permanece em seus olhos.

Todas as Cores da Escuridão/Todas as Cores do Medo (Tutti i colori del buio) — Itália, Espanha, Reino Unido, 1972
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Santiago Moncada, Ernesto Gastaldi, Sauro Scavolini
Elenco: George Hilton, Edwige Fenech, Ivan Rassimov, Julián Ugarte, George Rigaud, Maria Cumani Quasimodo, Nieves Navarro, Marina Malfatti, Luciano Pigozzi, Dominique Boschero, Lisa Leonardi, Renato Chiantoni, Tom Felleghy, Vera Drudi, Carla Mancini, Gianni Pulone, Harold Coyne, Cesare Di Vito, Victor Harrington, Fred Machon, Guy Standeven, George Oliver, Joe Phelps, George Spence
Duração: 95 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais