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Crítica | Todo Mundo em Pânico 2

por Fernando JG
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Logo após o lançamento de Todo Mundo em Pânico, a produção já dava indícios de que não haveria uma sequência, e isso está estampado no subtítulo do pôster original, “Sem Continuação!”. O grupo, percebendo a boa recepção da obra entre o público popular, busca construir uma unidade estilística para uma futura continuidade. Assim, no ritmo da comédia, a produção tenta pregar uma peça no público que havia se tornado fã desde o sucesso do primeiro filme, colocando o slogan “We Lied!”, “Nós Mentimos!”, no subtítulo do segundo filme da franquia, como referência ao primeiro longa, que no subtítulo dizia que não haveria continuação. O título até fica por alguns dias depois da estreia, mas a produção acha por bem trocar a tagline e a renomeiam de: “More Merciless. More Shameless”, “Mais impiedoso. Mais Sem-Vergonha”. Ainda que eu prefira, infinitas vezes mais, a primeira opção, por toda a brincadeira em torno de ter ou não ter continuação, a segunda também é interessante. 

A essa altura, a ideia de uma franquia já era uma realidade a ser trabalhada nos próximos anos – tendo em vista que definitivamente Todo Mundo em Pânico, em menos de um ano após sua primeira aparição em público, já havia caído em prestígio popular, hoje, canonizado no seu gênero. Fato é que a continuação de Scary Movie saía nos cinemas em 2001, trazendo um humor que não havia saturado e sendo sucesso de bilheteria, gerando uma cisão entre críticos especializados e público, que, até hoje, divergem quanto à qualidade do filme. Com mais um acerto dos irmãos Wayans, o segundo longa em nada deixa a desejar se comparado ao anterior e oferece motivos consistentes para que uma continuação tenha sido produzida, e que outras possam vir mais adiante. 

A direção aproveita e continua o fio narrativo da primeira parte: o grupo que sobreviveu ao verão passado entra na faculdade e novamente os amigos se encontram. Cindy (Anna Faris) ainda é uma personagem que tenta ser santinha e protagoniza cenas sexuais como se não soubesse o que está fazendo; Ray (Shawn Wayans) aumenta o seu leque e se atira para novos caras, produzindo cenas memoráveis; Brenda (Regina Hall) ainda namora Ray, e Shorty (Marlon Wayans), o maconheiro do grupo, protagoniza uma das grandes cenas do filme ao ser enrolado por uma árvore e fumado por ela. Em uma nova aventura, os amigos são convidados pelo professor da universidade, Oldman (Tim Curry), e seu assistente, Dwight (David Cross), para fazerem estadia, em uma matéria de campo, na casa da colina. Lá, o professor tem a intenção de estudar o fenômeno da insônia, no entanto, tudo dá errado, como se sabe. 

Este segundo momento continua com a odisseia dos amigos que protagonizaram o primeiro longa, com a adição de um ou outro personagem, em substituição aos que morreram. Aliás, a introdução destes novos personagens em nada ajuda, senão para encher o roteiro, visto que não têm carisma, se comparados à Cindy e ao Ray, por exemplo.  Aqui fica a surpresa de ver que a continuação é tão boa quanto a estreia, e que, ainda que se utilize do mesmo script, a graça se renova, e dificilmente erra no timing, nas entradas e nos insights.

Se no primeiro longa a graça fica por conta da novidade – por exemplo, da novidade que é descobrir, através dos furos hilários de Ray, cena após cena, que ele é homossexual, ou também da novidade que o estilo humorístico de Todo Mundo em Pânico trouxe ao gênero, por isso tão bem recebido em público -, no segundo filme, a graça fica por conta dos motivos reutilizados do primeiro longa, que se renovam à medida em que novas situações são propostas. É um grande equívoco pensar que o segundo filme da franquia tenha caído no erro, já que tudo aquilo que fez Scary Movie ser engraçado, como a postura de Cindy, a sexualidade de Ray e a chapação de Shorty, já tinha sido mostrado e explorado no primeiro longa. Muito pelo contrário. A continuação entrega um humor com vigor semelhante, e mantém sua qualidade, e sua durabilidade, ao aplicar o mesmo script em um novo ambiente, renovando a possibilidade de achar e de tirar o riso de outras situações, expandindo e multiplicando seu universo. 

A dublagem é um ponto relevante quando se trata de Todo Mundo em Pânico, visto que, além de conseguir fazer uma excelente tradução do inglês para o português, ela traz a nostalgia familiar na voz dos personagens. Certamente me refiro à dublagem do estúdio CineVídeo, que fez um trabalho de tradução e dublagem muito importante, já que o trabalho de traduzir o cômico de uma língua para a outra não é tarefa fácil e nem sempre o que é engraçado em uma língua é também engraçado em outra, e muitas vezes a tradução falha em captar o detalhe que faz a diferença no timing da piada, o que não ocorre em Scary Movie

Pensar o prólogo com uma satirização de O Exorcista já é a melhor entrada da série de filmes, ainda melhor que o ótimo início de seu antecessor, que começa com a paródia da cena inicial de Pânico. A cena de abertura faz questão de nomear a casa da família da possuída de “Casa do Inferno”, sem consideração nem pena pela família da jovem. A festa no térreo da casa, enquanto a possuída agoniza no quarto, é de um nonsense inacreditável e os minutos escatológicos do personagem de James Woods, junto da sua má vontade em exorcizá-la, torna a cena completa. Neste filme, a direção introduz pitadas de humor escatológico em algumas cenas, o que não havia feito no anterior. O escatológico é bem colocado, causa o incômodo pelo nonsense e traz o riso por tratar de situações tão distantes mas também tão próximas. 

Este segundo longa brinca com situações de diversos outros, e opta por deixar de lado o slasher e traz à cena o paranormal. Num geral, o enredo se constrói através do mito da casa assombrada, como em 13 Fantasmas, A Casa da Colina, O Exorcista, Poltergeist, It – A Coisa, entre outros. Além da paródia do horror, a produção também satiriza o drama e a própria comédia: Titanic, Harry Potter, As Panteras, etc. Os lugares-comuns são revisitados e provocam um efeito ainda mais imediato de humor, como na cena em que Cindy foge, de um modo ridiculamente lento, de um cadáver, que também vem em passos de tartaruga, acompanhada de um close-up em sua face expondo uma situação “dramática”, que é obviamente ridícula. Mas dá certo. 

Scary Movie 2 é, sem dúvida, uma continuação no nível que o longa anterior merece. Neste, a direção deixa de lado algumas críticas ácidas que trouxera no primeiro filme e introduz um humor mais orgânico e ridículo. Sem tirar a estratégia e expandindo as experimentações humorísticas para outros grupos a serem parodiados, alguns até um pouco mais delicados, o filme de Keenen Ivory Wayans brinca com o cinema e com o cotidiano de um modo autoral, familiar e preciso, atingindo, muitas vezes, o ponto nevrálgico do riso. 

Todo Mundo em Pânico 2 (Scary Movie 2, EUA, 2001)
Direção: Keenen Ivory Wayans
Roteiro: Shawn Wayans, Marlon Wayans, Alyson Fouse, Greg Grabianski, Dave Polsky, Michael Anthony Snowden, Craig Wayans
Elenco: Anna Faris, Regina Hall, Kathleen Robertson, Shawn Wayans, Marlon Wayans, James DeBello, Natasha Lyonne, Andy Richter, Veronica Cartwright, David Cross, James Woods, Tori Spelling, Christopher Masterson, Chris Elliott, Suli McCullough, Matt Friedman, Tim Curry, Jennifer Curran, Richard Moll, Cordelia Reinhard, Beetlejuice
Duração: 83 min.

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