Crítica | Todos Dizem Eu Te Amo

Ambientando numa atmosfera de saudosismo, Todos Dizem Eu Te Amo é a incursão do cineasta Woody Allen no terreno dos musicais, gênero que faz parte das bases da história cinematográfica hollywoodiana, reinventado ao longo de tantas transformações, desde os filmes não coloridos ao excesso de efeitos visuais da contemporaneidade. Coreografias mirabolantes, figurinos deslumbrantes, atores com excelente desempenho vocal são algumas das características deste segmento deliciosamente ironizado ao longo dos 101 minutos de filme, pois ao contrário do que se espera, o elenco talentoso não desempenha tais talentos esperados para este tipo de narrativa, algo proposital nos desdobramentos dos conflitos deste musical “diferente”.

Escrito e dirigido por Woody Allen, a produção lançada em 1996 traz um grupo de personagens a se deslocar pelos cenários dirigidos artisticamente sob a supervisão de Santo Loquasto, design de produção que entrega para Carlo Di Palma, diretor de fotografia, os aspectos visuais que pedem enquadramento, iluminação em movimentação com traços do clima dos musicais, mais contido, no entanto, do que se faz com frequência no gênero. Na trama, acompanhamos Joe (Allen), um homem com todas as neuroses comuns aos seus personagens conhecidos há algumas décadas. Ele circula tranquilamente pela casa da família de Steffi (Goldie Hawn), sua antiga esposa, atualmente casada com Bobby (Alan Alda). O casal está constantemente em busca de alguém para apresentar ao amigo que sofre desilusões amorosas a todo instante.

A família, apresentada como um espaço movimentado, é recheada de pequenos conflitos que ganham alguma atenção em determinadas passagens do roteiro que não se preocupa demais em aprofundar em cada uma dessas histórias independentes. É como se a junção das necessidades dramáticas de todos alimentassem um grande conflito central, isto é, o amor e seus desdobramentos, sem a necessidade do texto de ficar amarrando cada subtrama de maneira exata, dentro dos padrões dos manuais de dramaturgia que sufocam qualquer liberdade de expressão cinematográfica que não faça parte das receitas de sucesso. Com algumas similaridades em relação ao seu personagem em Sonhos de Um Sedutor, Woody Allen aqui é a insegurança em pessoa, o que deságua em sua neurose constante. Será DJ (Natasha Lyonne), a narradora desta história nostálgica com um clima que nos lembra outro filme do cineasta voltado ao tom homenagem, isto é, A Era do Rádio. Ela também faz papel de cupido.

O amor chega através de Von (Julia Roberts), historiadora da arte que é paciente da mãe de uma das amigas da filha de Joe. Numa das visitas da garota na casa da amiga, elas espiam o atendimento da mãe e na ocasião oportuna, ela conta para o pai alguns segredos da moça e suas predileções que a levariam ao relacionamento perfeito, algo que Joe tentará cumprir a riscar para conquistar a sua nova namorada. O primeiro contato ocorre na habitual viagem anual de pai e filha para a Europa, momento que por ironia do destino, permite que eles se encontrem e desenvolvam interesses mútuos. Salvaguardadas as devidas proporções, temos outra referência ao próprio cinema, pois não é a primeira vez que um personagem de Woody Allen escuta as confissões alheias de pessoas aos seus terapeutas, não é mesmo? E o lance do acaso, da ironia que o destino faz em nossas vidas, então, á uma constante em sua produção.

Entre as idas e vindas dos conflitos dentro da história, nos divertimos com o feixe de personagens trajados pelos figurinos assinados por Jeffrey Kurland: Holden (Edward Norton), candidato ao posto de noivo da indecisa Skyla (Drew Barrymore), moça que se interessará pelo ex-presidiário interpretado por Tim Roth, homem que comprova a compensação do crime numa sociedade que impõe limites e é desigual. Contrariando tudo que a mãe das jovens acredita, ele retorna ao crime e quase carrega consigo a personagem de Barrymore, irmã da também insegura Laura (Natalie Portman). Elas são netas do vovô teimoso e atrapalhado que rende momentos humorados, em geral, todos estão mergulhados em seus sentimentos confusos, sitiados pela insegurança, tomados pela indecisão diante do que pode ou não, transformá-los em pessoas mais felizes.

A mensagem não é carregada de complexidade. Acompanhados por uma trilha sonora de clássicos já conhecidos, Todos Dizem Eu Te Amo investe em vários planos-sequência que expõem os personagens diante de suas imersões ou desilusões amorosas. Eles não se importam com a falta de habilidade para o canto. É como uma pessoa da vida real, feliz diante de algum acontecimento e que precisa entoar um de seus hinos prediletos para demarcar a sensação que o toma por dentro. Editados por Susan E. Morse, os números musicais não investem em malabarismos e podem soar bobos para alguns, mas é a representação do sentimentalismo agindo na vida de figuras que preferem dizer não ao pessimismo também sempre presente nas narrativas do cineasta, algo que desta vez, ficou para escanteio.

Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You – EUA, 1996)
Direção:
Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Goldie Hawn, Julia Roberts,  Edward Norton, Drew Barrymore, Natasha Lyonne, Natalie Portman.
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.