Crítica | Todos Já Sabem

Asghar Farhadi notabilizou-se no cinema atual por dirigir histórias em que os conflitos familiares se amalgamam perfeitamente aos culturais. Embora não seja exatamente um diretor com grande identidade estética, o tema do esfacelamento da unidade familiar sempre de dentro para fora é uma obsessão temática desde o seu primeiro longa-metragem. Em Farhadi, não há os planos longos, abertos e meditativos de Kiarostami – outra figura cultuada do cinema iraniano, nem a câmera que sempre busca registrar a afetividade dos pequenos gestos de Majid Majidi. Há algo mais cosmopolita em seu modo de dirigir e que oscila bastante ao longo de sua enxuta mas competente filmografia. Muitos já o acusam até de não ser um cineasta iraniano stricto sensu. Para mim, não passa de uma bobagem, pois o estilo mais palatável e tradicional do diretor de A Separação e O Apartamento em nada compromete a qualidade de suas obras.

A questão que torna Todos Já Sabem, seu novo filme, provavelmente o mais suave e também o menos interessante até aqui recai exatamente sobre o campo temático. A história parece reviver em grande medida o enredo de seu próprio longa-metragem À Procura de Elly. Novamente, temos uma jovem misteriosamente desaparecida como mote do filme e catalisador de uma série de embates morais entre os personagens. Mas, dessa vez, esse acontecimento central foi transladado para a Espanha, deixando para trás o subtexto cultural envolvendo o Irã. Farhadi é competente quando leva a câmera às mãos e quando opta por planos estáticos pouco convencionais. A decupagem escolhida também é feliz em vários momentos. Agrada-me, por exemplo, como a montagem trabalha o conflito incipiente entre Paco (Javier Bardem) e sua esposa Bea (Bárbara Lennie) apenas com planos curtos e silenciosos – primeiro oferecendo um casaco para Laura (Penélope Cruz) e, logo depois, olhando para o marido com nítido desconforto.

A direção de fotografia consegue emular bem os filmes dirigidos por diretores espanhóis. As cores fortes e quase sempre ensolaradas não negam a nacionalidade dos cenários onde um elenco estelar (completado por Ricardo Darín) se reúne para o que seria mais um grande filme de Asghar Farhadi. Mas nem a atuação sempre segura e com ampla tessitura de Javier Bardem (que claramente se destaca de seus companheiros de cena) é suficiente para alavancar o filme a outro nível. Um dos problemas que me incomodaram ao longo de toda a projeção foi justamente a atuação de Penélope Cruz, em muitos momentos excessivamente exaltada e flertando bem de perto com algumas doses de histrionismo. Farhadi nunca precisou disso e, possivelmente tentando trazer algo da emotividade latina para seu primeiro filme fora do Irã, faltou-lhe certo traquejo para trabalhar a ideia. Quanto aos demais personagens, sua direção de atores não compromete, mas também não favorece o trabalho de alguém como Ricardo Darín.

Contudo, nada me incomodaria mais em um filme do diretor iraniano que as fragilidades da própria condução narrativa por parte da direção e do roteiro. Ao contrário do que ocorre em À Procura de Elly, os atritos, as dúvidas e as acusações entre os personagens são muito breves e pouco se desenvolvem. Mais do que isso, esse processo de construção de suspense em Todos Já Sabem não consegue capturar o público. Quando um insinua algo ou aventa alguma hipótese mais crítica, a narrativa dá pouco tempo para que os efeitos daquela conjectura sejam realmente sentidos. Fahradi quer expor a erosão das bases de uma típica família pequeno burguesa, mas acaba tomando demais o controle para si, quando poderia simplesmente permitir que seus personagens se contradissessem e se perdessem em suas narrativas. Tudo acaba soando óbvio e praticamente todos os personagens rasos. Se a obviedade das revelações finais em seu filme de 2009 apenas chamavam a atenção para a força de seu miolo, aqui o cerne é pálido e ralo demais para sustentar os 132 minutos de projeção – que acaba se tornando cansativa.

A primeira aventura de Asghar Farhadi fora de sua terra natal poderá desagradar alguns por demonstrar um cinema mais convencional e até “hollywoodiano” em seus moldes. Para mim, pessoalmente, o problema maior é mesmo a pouca inspiração do iraniano com a câmera na mão e a dos roteiristas com seu texto apressado para construir um thriller de costumes. É um pouco frustrante e até surpreendente que Farhadi tenha se revisitado tão cedo, com um filme não só inferior ao primeiro, mas que não demonstrou qualquer ganho de maturidade. O que resta é torcer para que o cineasta, que vem de um país com tanta inclinação para o cinema, não se torne tão precocemente um pastiche de si mesmo. Estamos falando do homem que, com pouco mais de uma década de sétima arte, venceu alguns dos maiores prêmios do cinema mundial. Talento certamente ele tem a seu favor.

Todos Já Sabem (Todos Lo Saben) – Espanha, 2018
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Ricardo Darín, Bárbara Lennie, Carla Campra, Eduard Fernández, Inma Cuesta, Elvira Mínguez
Duração: 132 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.