Crítica | Tokyo! (2008)

Tokyo! é um projeto cinematográfico que reúne três cineastas autorais não japoneses para contar três histórias diferentes, conectadas apenas pela exigência de se passarem em Tóquio, com filmagens em locação. O resultado é uma experiência cinematográfica irregular, como costumam ser as antologias, mas fascinante do começo ao fim. Como são três curtas muito díspares, abordei cada um deles separadamente abaixo, com notas em estrelas dedicadas. A avaliação em estrelas acima é para o conjunto da obra e não é necessariamente uma média.

.

Interior Design

dir. Michel Gondry

Quem conhece Michel Gondry sabe o que esperar de suas obras: um olhar muito pessoal, mas com uma pegada surreal para as relações humanas. E é exatamente isso que ele entrega em Interior Design, o primeiro curta da antologia Tokyo! que o próprio cineasta escreveu com base na graphic novel Cecil and Jordan in New York, de Gabrielle Bell.

Na história, um jovem casal chega na megalópole para tentar a vida, morando em apertado apartamento de uma velha amiga deles que se sente obrigada a abrigá-los. A abordagem da metragem quadrada caríssima da cidade é um veículo para Gondry trabalhar a ansiedade do jovem tentando encontrar-se no mundo, em ter sua voz, em descobrir o caminho que pretende seguir, mas tendo as paredes fechando-se ao seu redor.

Um deles é cineasta amador, talvez uma versão jovem do próprio diretor, enquanto sua namorada não tem a menor ideia do que quer fazer. Existem as cobranças usuais de um em relação ao outro, assim como a pressão da sociedade, aqui representada pela amiga mal ou bem já assentada na capital, para que eles alcancem a verdadeira independência. Ou seja, mais paredes fechando-se ao redor deles, especialmente de Hiroko (Ayako Fujitani) que começa a separar-se de Akira (Ryo Kase) em uma sucessão de problemas que vão desde o reboque do carro dos dois até o vislumbre de uma carreira.

E então, quase que como uma rasteira cinematográfica, mas no bom sentido, vem Gondry com sua veia surrealista e… transforma Hiroko, efetivamente justificando o título escolhido e levando o curta para seu desfecho. Sem dúvida é algo surpreendente e muito bem executado tecnicamente, mas que talvez seja introduzido tardiamente e com uma certa dose de aleatoriedade que pode fazer o espectador coçar a cabeça.

Mesmo assim, Interior Design cumpre muito bem sua proposta de usar Tóquio como pano de fundo para uma história universal contada pelas lentes peculiares de um diretor que não tem problemas em fazer o inusitado parecer lógico. Sem dúvida um ótimo exemplar do Cinema de Gondry.

.

Merde

dir. Léos Carax

Conheci o estranhíssimo ogro ruivo comedor de flores com um olho leitoso vivido por Denis Lavant em Holy Motors, mas foi assistindo Merde que descobri que ele foi criado por Léos Carax e pelo ator aqui nesse curta como uma alegoria dos ataques de monstro à Tóquio inaugurado por Godzilla nos anos 50, de quebra transformando Holy Motors em uma efetiva continuação (ou algo parecido) do curta. Além disso, Merde marcou a volta do cineasta à cadeira de diretor desde Pola X, de quase 10 anos antes.

No curta, o referido ogro sai dos esgotos de Tóquio para aterrorizar a população em tomadas realmente espetaculares de Carax trabalhando com steady cams e profundidade de campo para imediatamente trazer à mente do espectador aquela raiz de “filme de monstro” que a atmosfera evoca. Chega a ser impressionantes os planos sequência e o uso de efeitos práticos em determinado momento destrutivo, além de, claro, a atuação absolutamente cativante e ao mesmo tempo repugnante de Lavant. A obra é tensa e muito interessante até a captura da alcunhada Criatura dos Esgotos.

A partir daí, Carax, apesar de manter aberta a torneira da bizarrice surrealista, acaba se perdendo. Isso é particularmente visível com a introdução do advogado francês Voland (Jean-François Balmer), fisicamente parecido com o ogro e a única pessoa capaz de se comunicar com ele. A interação entre eles é longa e cansativa, assim como o “discurso traduzido” no tribunal que, mesmo carregado de comentários sociais sobre intolerância e preconceito, cambam demais para o didático e para o lento. É quase como se fosse possível notar que Carax estava apenas fazendo seu curta chegar ao tamanho padrão da antologia, algo como 40 minutos.

Mesmo inusitado e com Lavant magnífico em seu mais do que estranho papel, Merde fica aquém de seu potencial, algo que só realmente seria alcançado por Carax com esse personagem no sensacional Holy Motors. O curta, em retrospecto, parece um tubo de ensaio do longa de 2012.

.

Shaking Tokyo

dir. Bong Joon Ho

Encerrando a visão de estrangeiros sobre a megalópole japonesa, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho entrega uma obra que aborda, ao mesmo tempo, um fenômeno social e outro geológico que marcam aquele país: os hikikomori e os terremotos. O que são os primeiros e como eles se encaixam nos segundos, só realmente vendo a magia do cineasta em funcionamento.

Em poucas palavras, os hikikomori são pessoas extremamente reclusas que não fazem qualquer contato com outros e que vivem completamente – ou quase – isolados do mundo. Esse é o caso do jovem vivido por Teruyuki Kagawa, que há 10 anos sequer olha nos olhos dos entregadores de comida que ele chama.

Vivendo em uma casa organizada, com pilhas de livros, de rolos de papel higiênico e de caixas de pizza há 10 anos, o jovem ermitão acaba quebrando seu método ao olhar de soslaio para os olhos de uma entregadora de pizza depois que vê sua sexy cinta liga. Um terremoto se segue ao momento mágico e a moça, ato contínuo, desmaia. O que segue é a tentativa desesperada de fazer conexão, de viver, algo que coloca o protagonista em rota de colisão com sua própria vida.

Apesar de ser bem japonesa, essa síndrome de reclusão é sem dúvida universal, em maior ou menor grau, sendo perfeitamente possível qualquer um estabelecer conexão com a história sendo contada, ainda mais considerando o lirismo de Joon Ho ao fazer de tudo para mostrar que há saída disso, que lutar vale sim o esforço. É, reduzindo em miúdos, um manual de auto-ajuda em linguagem cinematográfica que engolfa o espectador imediatamente pelo drama que se coloca e pela maneira inteligente como Tóquio embrenha-se em cada fotograma do curta.

A atuação assustada e desesperada de Kagawa é o ponto alto desse enfoque, assim como a retratação quase (ou inteiramente) fetichista da entregadora de pizzas, outro elemento bem japonês. A busca da cara metade e a fuga da solidão ganham uma bela e esperançosa  roupagem aqui e Shaking Tokyo realmente consegue sacudir a antologia.

Tokyo! (Idem – Japão/França/Coréia do Sul/Alemanha, 2008)
Direção: Michel Gondry, Léos Carax, Bong Joon Ho
Roteiro: Michel Gondry (baseado em HQ de Gabrielle Bell), Leos Carax, Bong Joon Ho
Elenco: Ayako Fujitani, Ryō Kase, Ayumi Ito, Satoshi Tsumabuki, Denis Lavant, Jean-François Balmer, Julie Dreyfus, Andrée Damant, Teruyuki Kagawa, Yū Aoi, Naoto Takenaka
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.