Crítica | Tolkien

“Eu não consigo pensar em nada mais necessário. Especialmente em tempos como esses. Especialmente agora.”

Em cinebiografias de escritores prestigiados, é comum os projetos trabalharem com referências às suas obras. Tais produções costumam ter como um mote a necessidade de explicar como os autores chegaram a certas escolhas importantes, ou seja, de onde nasceu as suas criatividades, as suas óticas tão próprias. Quando as referências são vazias e oportunas demais, os resultados costumam tornar-se problemáticos. Já em casos mais sinceros, que pegam do que é previamente conhecido por grande parte dos espectadores para ajudar na narrativa em si, a proposta passa a traçar uma certa graça. Tolkien é um longa, porém, de equívocos sucessivos, descontrolando consecutivamente quais são as suas visões. Os caminhos são questionáveis, mas o coração sugere às vezes estar em um lugar promissor. A amizade, vertente melhor explorada pela obra, seria transportada por J. R. R. Tolkien (Nicholas Hoult) para as suas criações. O autor inspiraria-se em um clube de chá secreto, do seu passado, e então originaria uma marcante Sociedade do Anel.

Um retrato cinematográfico do passado de uma das mentes mais importantes para a fantasia moderna, provavelmente a mais, Tolkien encontra esta questão da amizade ao mesclar magia e realidade, embora seja aos trancos e barrancos. O “agraciado” por esses toques que revisam o relacionamento entre o artista e sua arte é J. R. R. Tolkien, responsável por trazer a Terra-Média, da saga O Senhor dos Anéis, para o nosso mundo. Dome Karukoski pincelará constantemente elementos mitológicos, como dragões e guerreiros medievais, em meio à narrativa. Porém, se o valor das amizades é a noção comparativa que melhor funciona no projeto, provavelmente é por ser a mais reiterada. Outras, como amor, poesia e arte em seu estado mais puro, são retomadas pontualmente. Ao invés de se ater a uma só temática ou explorar cada uma dessas nuances com mais profundidade ou organização, Tolkien quer abraçar um universo todo de inspirações. Quando o longa se encerra, é complicado elaborar uma grande ideia que os elementos narrativos explorem.

Enquanto um jovem Tolkien percorre as cidades de Londres com seus amigos, Karukoski promove um senso de urgência enorme para que cheguemos na inspiração exata e não na jornada em si. Como se o destino fosse muito mais importante. É estranho que muito mais parece Tolkien ser um recorte de vários fragmentos, abrangendo uma vida enorme, que um longa propriamente dito. O tempo todo presume-se que a obra ainda está para começar de verdade, como se tudo não passasse de uma mera prévia do que estaria por vir. A montagem exemplifica isso e os primeiros minutos são particularmente desastrosos nesse sentido, trabalhando em uma estrutura linear que não precisava existir, movimentando-se de um modo burocrático, segmentado. O roteiro está enquadrado em uma fórmula muito específica e pouco orgânica, que quer criar essa correlação entre vários elementos. Esquece-se que, antes de Dome brincar com o passado e o futuro, existe uma história a ser contada. O longa não se preocupa com quem não conhece Tolkien.

Essas referências, essas inspirações, são alcançadas uma por uma. Em contrapartida, um drama em larga escala e mais profundo, que reunisse todas as inspirações em uma só unidade, termina inexistindo. O senso episódico presente permite, ao menos, que Karukoski explore individualmente as questões que precisa explorar para satisfazer os amantes da Terra-Média. O relacionamento entre Hoult e sua amada, interpretada por Lily Collins, tem certa química, por exemplo. O protagonista está bem, no mais. É compreendida a intenção do cineasta em retratar uma pureza na amada do personagem principal, remetendo-a aos elfos das obras de J. R. R. Tolkien e trazendo composições que enaltecem sua grandeza. Tais propostas apresentadas acabam sendo inclusive reiteradas com as recorrentes – e desnecessárias – legendas durante os créditos, que contam um pouco mais da história para os espectadores. Mesmo assim, novamente não existe um plot em si que funcione. Os confrontos que o casal vive são conduzidos com uns vai-e-vens despropositados.

Bons paralelos até são criados, entretanto, um teor higiênico e chapado, outra problemática, compromete um bocado a experiência. Mesmo a pobreza, que é uma característica ressonante em determinados momentos, soa como se tivesse passado por uma purificação. E as imagens, a cinematografia em questão, corroboram isso, trazendo retratações de uma época que não convencem, precisando se repousar em muita computação gráfica e retoques digitais. Quando Tolkien entra na Primeira Guerra Mundial as coisas melhoram, principalmente pela maneira como Dome consegue trazer um senso de poesia, uma narrativa clássica entre o bem e o mal, em meio a guerra, assim como na correlação com a importância que as amizades do protagonista tinham para ele. Engradecem-se as referências. Noutro caso, a mãe do personagem tem uma função importante em transportar a criatividade para as mentes de suas crianças, mesmo em condições precárias. Essa poesia que surge nos lugares mais devastadores é uma veia discursiva de Tolkien.

Mas parece que custava para Karukoski trabalhar coerentemente essas características: retomando o passado, por exemplo, e esquecendo um senso cronológico besta. Apenas a guerra é usada sem linearidade. O longa não quer mostrar um garoto que se relembra de sua mãe com carinho, o que poderia se tornar uma característica muito mais verdadeira que a insignificante representação cinematográfica da sua morte. Às vezes, o roteiro está se preocupando com coisas demais que agregam pouco para uma coesão. Por Tolkien ter criado tantas línguas, o seu trabalho com a linguagem, com a poesia, torna-se essencial. E mesmo assim todo o seu relacionamento com o personagem de Derek Jacobi perde uma relevância para que a obra entre em estradas mais confortáveis, com um texto que permanece na segurança de referenciar às mitologias. Essa é uma jornada pouco inesperada, que vai de encontro, em mais outra instância, a algumas das mesmas pontuações que outras produções cinebiográficas usaram, mas pra desperdiçar as suas trajetórias.

Tolkien – EUA, 2019
Direção: Dome Karukoski
Roteiro: David Gleeson, Stephen Beresford
Elenco: Nicholas Hoult, Lily Collins, Genevieve O’Reilly, Colm Meaney, Tom Glynn-Carney, Craig Roberts, Anthony Boyle, Patrick Gibson, Laura Donnelly, Derek Jacobi, Pam Ferris, Owen Teale
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.