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Crítica | Tolkien

por Gabriel Carvalho
231 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu não consigo pensar em nada mais necessário. Especialmente em tempos como esses. Especialmente agora.”

Em cinebiografias de escritores prestigiados, é comum os projetos trabalharem com referências às suas obras. Tais produções costumam ter como um mote a necessidade de explicar como os autores chegaram a certas escolhas importantes, ou seja, de onde nasceu as suas criatividades, as suas óticas tão próprias. Quando as referências são vazias e oportunas demais, os resultados costumam tornar-se problemáticos. Já em casos mais sinceros, que pegam do que é previamente conhecido por grande parte dos espectadores para ajudar na narrativa em si, a proposta passa a traçar uma certa graça. Tolkien é um longa, porém, de equívocos sucessivos, descontrolando consecutivamente quais são as suas visões. Os caminhos são questionáveis, mas o coração sugere às vezes estar em um lugar promissor. A amizade, vertente melhor explorada pela obra, seria transportada por J. R. R. Tolkien (Nicholas Hoult) para as suas criações. O autor inspiraria-se em um clube de chá secreto, do seu passado, e então originaria uma marcante Sociedade do Anel.

Um retrato cinematográfico do passado de uma das mentes mais importantes para a fantasia moderna, provavelmente a mais, Tolkien encontra esta questão da amizade ao mesclar magia e realidade, embora seja aos trancos e barrancos. O “agraciado” por esses toques que revisam o relacionamento entre o artista e sua arte é J. R. R. Tolkien, responsável por trazer a Terra-Média, da saga O Senhor dos Anéis, para o nosso mundo. Dome Karukoski pincelará constantemente elementos mitológicos, como dragões e guerreiros medievais, em meio à narrativa. Porém, se o valor das amizades é a noção comparativa que melhor funciona no projeto, provavelmente é por ser a mais reiterada. Outras, como amor, poesia e arte em seu estado mais puro, são retomadas pontualmente. Ao invés de se ater a uma só temática ou explorar cada uma dessas nuances com mais profundidade ou organização, Tolkien quer abraçar um universo todo de inspirações. Quando o longa se encerra, é complicado elaborar uma grande ideia que os elementos narrativos explorem.

Enquanto um jovem Tolkien percorre as cidades de Londres com seus amigos, Karukoski promove um senso de urgência enorme para que cheguemos na inspiração exata e não na jornada em si. Como se o destino fosse muito mais importante. É estranho que muito mais parece Tolkien ser um recorte de vários fragmentos, abrangendo uma vida enorme, que um longa propriamente dito. O tempo todo presume-se que a obra ainda está para começar de verdade, como se tudo não passasse de uma mera prévia do que estaria por vir. A montagem exemplifica isso e os primeiros minutos são particularmente desastrosos nesse sentido, trabalhando em uma estrutura linear que não precisava existir, movimentando-se de um modo burocrático, segmentado. O roteiro está enquadrado em uma fórmula muito específica e pouco orgânica, que quer criar essa correlação entre vários elementos. Esquece-se que, antes de Dome brincar com o passado e o futuro, existe uma história a ser contada. O longa não se preocupa com quem não conhece Tolkien.

Essas referências, essas inspirações, são alcançadas uma por uma. Em contrapartida, um drama em larga escala e mais profundo, que reunisse todas as inspirações em uma só unidade, termina inexistindo. O senso episódico presente permite, ao menos, que Karukoski explore individualmente as questões que precisa explorar para satisfazer os amantes da Terra-Média. O relacionamento entre Hoult e sua amada, interpretada por Lily Collins, tem certa química, por exemplo. O protagonista está bem, no mais. É compreendida a intenção do cineasta em retratar uma pureza na amada do personagem principal, remetendo-a aos elfos das obras de J. R. R. Tolkien e trazendo composições que enaltecem sua grandeza. Tais propostas apresentadas acabam sendo inclusive reiteradas com as recorrentes – e desnecessárias – legendas durante os créditos, que contam um pouco mais da história para os espectadores. Mesmo assim, novamente não existe um plot em si que funcione. Os confrontos que o casal vive são conduzidos com uns vai-e-vens despropositados.

Bons paralelos até são criados, entretanto, um teor higiênico e chapado, outra problemática, compromete um bocado a experiência. Mesmo a pobreza, que é uma característica ressonante em determinados momentos, soa como se tivesse passado por uma purificação. E as imagens, a cinematografia em questão, corroboram isso, trazendo retratações de uma época que não convencem, precisando se repousar em muita computação gráfica e retoques digitais. Quando Tolkien entra na Primeira Guerra Mundial as coisas melhoram, principalmente pela maneira como Dome consegue trazer um senso de poesia, uma narrativa clássica entre o bem e o mal, em meio a guerra, assim como na correlação com a importância que as amizades do protagonista tinham para ele. Engradecem-se as referências. Noutro caso, a mãe do personagem tem uma função importante em transportar a criatividade para as mentes de suas crianças, mesmo em condições precárias. Essa poesia que surge nos lugares mais devastadores é uma veia discursiva de Tolkien.

Mas parece que custava para Karukoski trabalhar coerentemente essas características: retomando o passado, por exemplo, e esquecendo um senso cronológico besta. Apenas a guerra é usada sem linearidade. O longa não quer mostrar um garoto que se relembra de sua mãe com carinho, o que poderia se tornar uma característica muito mais verdadeira que a insignificante representação cinematográfica da sua morte. Às vezes, o roteiro está se preocupando com coisas demais que agregam pouco para uma coesão. Por Tolkien ter criado tantas línguas, o seu trabalho com a linguagem, com a poesia, torna-se essencial. E mesmo assim todo o seu relacionamento com o personagem de Derek Jacobi perde uma relevância para que a obra entre em estradas mais confortáveis, com um texto que permanece na segurança de referenciar às mitologias. Essa é uma jornada pouco inesperada, que vai de encontro, em mais outra instância, a algumas das mesmas pontuações que outras produções cinebiográficas usaram, mas pra desperdiçar as suas trajetórias.

Tolkien – EUA, 2019
Direção: Dome Karukoski
Roteiro: David Gleeson, Stephen Beresford
Elenco: Nicholas Hoult, Lily Collins, Genevieve O’Reilly, Colm Meaney, Tom Glynn-Carney, Craig Roberts, Anthony Boyle, Patrick Gibson, Laura Donnelly, Derek Jacobi, Pam Ferris, Owen Teale
Duração: 112 min.

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17 comentários

Roger Jr 26 de maio de 2019 - 00:39

Vai ter crítica do Brightburn? Achei a premissa do filme legal, apesar de mal executada.

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CrazyDany 26 de maio de 2019 - 23:08

Também gostaria de ler a crítica do site sobre esse filme

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Luiz Santi🐂GADO 30 de maio de 2019 - 02:54

Mais para frente teremos sim!

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Diego Borges 23 de maio de 2019 - 21:04

Há algo fundamental na vida de Tolkien que não é mostrado nos trailers, que é sua profunda fé católica. Como a crítica do Gabriel nem menciona isso, concluo que nem abordam no filme, o que é lamentável. Gostem ou não, Tolkien era profundamente católico e isso influencia toda a sua obra. Se um filme quer contar sua vida, esse aspecto é fundamental. Não vou perder meu tempo nem meu dinheiro indo ver esse filme.

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paulo r carvalho jr 24 de maio de 2019 - 12:01

A Religião é um tema que não interessa os estúdios, exceto quando querer deturpar mesmo. Lamentável, mas a própria família do autor não aprovou a obra, então é muito discutível sua qualidade com a veracidade. Todos sabemos que é necessário “liberdade criativa” para transformar uma história em um filme, mas sejamos honesto os estúdios estão cagando para verdade e querem apenas vender uma ideia que agrade a eles. Lamentável que tantas pessoas tenham uma visão tão defasada da fé. Triste pois sua mensagem é linda mesmo que tenham pessoas que a deturpem.

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Luiz Santi🦎Zilla 24 de maio de 2019 - 14:06

Mas tem estúdio produzindo Deus Não Está Morto, O Milagre da Fé, Entrevista Com Deus e coisas do tipo, tem para todos os gostos… Empresas produzem aquilo que acham que vão vender, não há espanto nisso, quer se goste ou não. Mercado funciona assim. É o nosso sistema. No presente caso, importante deixar claro que não é um documentário. É uma ficção inspirada na vida de um autor famoso. Não é a primeira e nem será a última ficcionalização da vida de uma pessoa que mudará, ocultará ou fará coisas de maneira diferente da realidade. Nenhuma ficção tem real compromisso com a exatidão documental da realidade. O propósito do gênero é outro, bem diferente do documentário. No fim, há quem goste de certas abordagens, há quem não goste. Isso é normal. Mas isso não é novo (desde Judith de Betúlia, de 1914, o cinema faz isso!!!) e nem é algo estranho ao mercado.

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Diego Borges 24 de maio de 2019 - 17:06

Eu entendo. Mas não se trata de ter pregação religiosa num filme, se trata de um aspecto definidor do biografado sendo quase omitido. Imagine um filme do Queen que omita a sexualidade do Freddie Mercury.

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Luiz Santi🦎Zilla 24 de maio de 2019 - 17:16

A frustração existe, isso é compreensível. E com certeza faz questionar certas escolhas do roteiro. Mas esta é uma faca de dois gumes. A gente levanta a problemática de um lado, mas sabe que é uma prática cinematográfica bastante antiga e para todo tipo de temática, então chegamos ao fim com aquela ideia de “decepcionado mas não surpreso” hehehehehehehe.

João 5 de março de 2021 - 17:47

Quem sabe á uns 10 anos atrás eles tivessem retratado a religião dele no filme, mas hoje em dia Hollywood só pensa em retratar negativamente a igreja católica, virou uma tendência do mercado, lamentável.

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Luiz Santiago 5 de março de 2021 - 17:48

AHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHAUHAUAHUA

Responder
João 5 de março de 2021 - 17:51

Porque a risada debochada? Tu acha que o que eu estou falando não é certo? Desculpe cara mas tu é muito ingênuo pra não achar que o que eu disse é verdade, ou é um ateu que não respeita a opinião dos outros. Falta de respeito

Luiz Santiago 6 de março de 2021 - 16:09

AHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHAUHAUAHUA
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João 6 de março de 2021 - 16:11

Tu se acha engraçado filho da puta? O que eu fiz pra você? Que intolerância religiosa é essa? Pior que você é um dos críticos desse site desrespeitoso, não tens vergonha na cara com aqueles que acessam o teu site? Vai dar uma resposta coerente ou vai ficar nesse deboche de risadinha infantil?

Luiz Santiago 6 de março de 2021 - 16:13

AHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHAUHAUAHUA
AHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHAUHAUAHUA
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João 5 de março de 2021 - 17:47

Se tu se incomoda com essa tendência atual de Hollywood eu sugiro você dar uma olhada nesses mesmos comentários na crítica desse filme no site. Tu acredita que o tal do Luiz Santiago, um dos críticos do site, riu de mim por comentar sobre isso num comentário que eu fiz, total desrespeito religioso e que inclusive pode servir como danos morais se depender da pessoa, respondi querendo esclarecimento dele e o desgraçado ri de mim de novo. Como podes ver a sociedade está toda afetada e esse críticos atuais estão com o mesmo pensamento e intolerância que a Hollywood atual, a lacração que ambos tanto propagam é só teatrinho. Se tiver tampo cara eu sugiro dar uma olhada nos comentários com os próprios olhos, verás que estou falando a verdade apesar de ser difícil de acreditar em tamanho desrespeito.

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Gabriel Carvalho 24 de maio de 2019 - 13:44

Então, o cristianismo é apresentado através de símbolos, mas nunca objetivamente. Não se torna uma discussão que diretamente inspirou Tolkien a criar suas obras. Uma pena.

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João 5 de março de 2021 - 17:47

Cara se tu se incomodou com isso eu sugiro você dar uma olhada na sessão de comentários desse mesmo filme. Nos comentários eu comentei sobre o destrato que Hollywood tem á igreja católica e um dos críticos do site, o intolerante Luiz Santiago me mandou uma resposta rindo do meu comentário, acredita nisso? Total desrespeito do cara e do próprio site por permitir esse comportamento, e o pior é que eu respondi exigindo um esclarecimento da parte dele e ele continua me respondendo com risadinha infantil, totalmente ridículo e revoltante! Como dá pra ver os próprios críticos do site agem com a igreja da mesma forma que o cinema está agindo atualmente. Se quiser ver com os próprios olhos veja os comentários se não for incômodo rsrs.

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