Crítica | Tolos & Mortais, de Bernard Cornwell

Deus, como esses mortais são tolos!
– Sonho de uma Noite de Verão

É impressionante como Bernard Cornwell é um escritor prolífico, não só conhecido por ficções baseadas em contextos históricos da Inglaterra, com também por praticamente não conseguir escrever um volume apenas de cada ideia que tem, criando verdadeiras e às vezes intermináveis franquias literárias como As Aventuras de Sharpe (ou, mais precisamente, As Aventuras de um Soldado nas Guerras Napoleônicas), Crônicas Saxônicas e assim por diante, normalmente contendo guerras e batalhas que marcaram a história de seu país e outros da Europa em diversas épocas diferentes. É portanto raro quando o autor dedica seu tempo a uma história auto-contida como Tolos & Mortais, especialmente considerando que a temática abordada – o teatro elisabetano – é bem diferente daquela que os leitores usuais dele se acostumaram ao longo das décadas.

Mas é sempre bom experimentar e, por mais que Cornwell tenha sedimentado sua reputação com obras épicas de tonalidade violenta, ele não perde sua verve narrativa quando escreve sobre William Shakespeare, usando um de seus irmãos, Richard, como protagonista de uma história que traz uma visão rica e cuidadosa sobre as dificuldades e desafio de se fazer teatro na Londres do final do século XVI, mesmo considerando o entusiasmado patrocínio cultural da Rainha Elizabeth I. Como relativamente pouco se sabe da vida pessoal dos membros da família de Shakespeare, o autor tem amplo espaço para criar e estabelece sua premissa logo cedo, colocando Richard em constante conflito com seu irmão mais velho e mais famoso que não liga para ele, mal estabelecendo uma conexão maior do que o mínimo de civilidade, mas longe de algo realmente fraternal.

Nesse contexto, que também conta com uma concorrência forte entre trupes teatrais, um dos manuscritos de Shakespeare (o famoso) – que viria a ser Sonho de uma Noite de Verão, de onde o título do romance é retirado – é furtado e Shakespeare (o desconhecido) passa a ser o principal suspeito em uma trama repleta de traições, desconfianças e paixão, seja pelo teatro, seja por outros mortais. É particularmente interessante ver o funcionamento de bastidores dos teatros elisabetanos e a mecânica dos direitos autorais, conceito ainda estranho e distante, que só viria a ganhar regulamentação legal no começo do século XVIII, por intermédio do divisor de águas conhecido como Estatuto da Rainha Ana.

O romance é leve em ação e carregado em diálogos que inteligentemente perpassam a obra de William Shakespeare e que de certa maneira lembram as inserções referencias que vemos no roteiro de Shakespeare Apaixonado. No entanto, é importante não confundir “pouca ação” com morosidade textual, pois isso inexiste aqui a não ser que o leitor queira apenas ler sobre guerras e batalhas, caso em que este é, definitivamente, o livro errado de Cornwell. Richard Shakespeare é bem caracterizado como um jovem ambicioso, capaz de fazer o que for necessário para subir na carreira teatral, mas mantendo uma moralidade e lealdade interessantes, mesmo diante de um William irritante e cheio de soberba que mantém os irmãos em permanente conflito.

Além disso, como sempre, o autor mostra-se detalhista em suas descrições da vida na época que retrata, trabalhando páginas e páginas vívidas com o cotidiano londrino em suas partes mais pobre e sujas, fazendo com que o odor fétido das valas das ruas e becos exale muito facilmente de seus parágrafos. Em contraste, mesmo que não seja o foco da história, a vida nobiliárquica ganha vernizes que deixam entrever seus problemas e o distanciamento em relação ao povo, algo que permanece como um subtexto razoavelmente inexplorado ao longo de toda a narrativa.

Tolos & Mortais não é a típica obra de Bernard Cornwell, mas sua argúcia funciona tão bem aqui quanto nos seus melhores livros históricos de guerra. O teatro shakespeareano ganha uma abordagem leve, fácil de ler e muito bem-vinda que funciona perfeitamente como mais um ingrediente delicioso no banquete histórico que o autor vem oferecendo desde que começou a escrever seus épicos.

Tolos & Mortais (Fools and Mortals, Reino Unidos – 2017)
Autor: Bernard Cornwell
Editora original: HarperCollins
Data original de publicação: 19 de outubro de 2017
Editora no Brasil: Editora Record
Data de publicação no Brasil: 08 de outubro de 2018
Tradução: José Roberto O’Shea
Páginas: 364

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.